Maldição da Múmia escolhe um caminho conhecido

Versão reimaginada do clássico monstro da Universal ganha inspirações demoníacas em filme insosso

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O irlandês Lee Cronin ainda não graduou-se em assinatura ou estética cinematográficas, mas o título original de Maldição da Múmia leva seu nome. O motivo é publicitário, oportuno e vital para a comercialização do terror, já que Brendan Fraser não está no elenco. O vencedor do Oscar, protagonista da popular trilogia dos anos 2000, estará de volta ao papel mas não nessa versão da história.

Maldição da Múmia, ou Lee Cronin’s The Mummy, faz parte da fracassada tentativa de reativar o interesse do público pelos Monstros da Universal que já teve versões repaginadas de O Homem Invisível (terrivelmente afetado pela pandemia) e de O Lobisomem (um projeto que malemal se pagou). 

Após o lançamento do trailer, a produtora Blumhouse passou dias reforçando nas redes sociais que Fraser não aparece no filme, diante das repetidas perguntas do público (Foto: Blumhouse)

Em parceria com a Blumhouse, com o tato dos produtores Jason Blum e James Wan, o diretor de A Morte do Demônio: A Ascensão repete as escolhas visuais (muitas lentes slip diopter, quando o foco é amplo), as decisões estéticas (sangue sujo para dar e vender) e o mote familiar. Cronin cita Poltergeist e Seven como inspirações e influências, mas existem ecos de Invocação do Mal e O Exorcista em tudo que envolve o longa.

A história é direta: o pai é jornalista, a mãe, enfermeira e grávida, e os filhos pequenos mais brigam do que se entendem. Tudo envolto pelo árido clima de Cairo, onde o emprego do patriarca os levou temporariamente; para o futuro, uma promoção e uma passagem só de ida para Nova York iluminam esperanças. Mas é na figura de uma sacerdotisa (Hayat Kamille) que a pequena Katie (Emily Mitchell) se desprende da família.

Lee Cronin recusou a oferta de dirigir uma sequência de Evil Dead Rise para trabalhar em Maldição da Múmia (Foto: Blumhouse)

Oito anos se passam, e um telefonema devolve a garotinha para o seio de proteção e alento. Agora uma adolescente vivida por Natalie Grace, Katie está em estado deplorável de saúde física e mental. Encontrada presa dentro de um sarcófago traficado por um avião que caiu, a garota esconde feridas que logo se apresentarão macabras.

Muito mais na veia de Regan em O Exorcista do que nas ideias originais de A Múmia, o filme de Lee Cronin é criativo de prontidão mas logo perde-se entre referências e ideias soltas. No que tange o visual, a fotografia acalorada de David Garbett aclima a narrativa para depois abusar de cenários pouco criativos e uma iluminação de dar dó.

O filme não tem ligação com versões anteriores de A Múmia e reinventa o monstro clássico ao retratá-lo como uma pessoa comum sendo mumificada, em vez de uma figura da realeza local (Foto: Blumhouse)

Fica claro, entretanto, que o trabalho de pesquisa, desenvolvimento e estudo do cineasta foi integral e rico em material-base. Para a pele ressecada e cinzenta, o diretor se baseou em “corpos do pantano”, inchados pelo líquido viscoso que um dia já foi sangue e exibidos no Museu de Dublin. As cenas passadas no Egito também carregam caráter cultural, colocando, pela primeira vez na “franquia”, a aparição de atrizes nativas do país: May Calamawy e May Elghety.

No elenco, Jack Reynor carrega o mesmo ímpeto de salvação que o transformou na vítima perfeita de Midsommar, ao passo que a interpretação de Laia Costa como a mãe Larissa é enviesada pela profissão de enfermeira e pela ideia de que, apesar de qualquer contratempo, ela é a melhor opção de cuidados para a filha. A avó, papel de Veronica Falcón, tem pouco a fazer em vida, mas ganha sustância e horror a partir do momento que passa para o lado de lá. A sequência que envolve uma dentadura e um caixão, embora não tão icônica quanto a cena de Arraste-me para o Inferno, merece uma menção especial.

Na pele de uma adolescente inquieta e de uma policial incubida de resolver os mistérios, May Calamawy e May Elghety são as primeiras atrizes egípcias da franquia A Múmia, com Elghety ajudando no dialeto egípcio e Calamawy adaptando seu árabe para o papel (Foto: Blumhouse)

Maldição da Múmia se encaminha para um clímax telegrafado e mais ação do que terror de sobrevivência. Ao buscar sanar todas as dúvidas e resolver todas as pendências, incumbências e providências, Lee Cronin abdica do senso de crueldade e sadismo que poderiam ser marca maior de sua versão do clássico personagem. 

A troca de inspiração, também, se reflete na pobreza criativa do filme. Lee Cronin colocou a entidade não num guerreiro adulto, sábio espadachim ou numa poderosa mulher, e sim numa garota indefesa que, dadas as circunstâncias e o campo de ação, operou no mesmo nível de qualquer filme de exorcismo e possessão. É, na contagem de pontos, uma Múmia envergonhada de suas origens e particularidades.

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