Em falsa despedida, Shrinking desarma pessimismo na doce e arisca 3ª temporada  

Harrison Ford continua dono da melhor atuação da TV em ano que encerra plano inicial da comédia

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Quem faz o palhaço rir? Mais importante ainda: quem cuida da saúde mental de um terapeuta? Na 3ª temporada de Falando a Real (Shrinking), o desajustado grupo de psicólogos e seus amigos próximos enfrentam questões que tangem o envelhecimento, a liberdade e os vazios que chegam sem descanso.

Jimmy (Jason Segel) precisa aceitar a independência de Alice (Lukita Maxwell), prestes a se formar no colégio e estudar em outra cidade. O luto pela morte da esposa, em adesão ao relacionamento complicado com o sujeito que dirigia o veículo no dia do acidente, também acumulam-se na mente do protagonista, que ensaia um romance diferente do comum.

O co-criador Bill Lawrence revelou que o plano inicial de três temporadas foi cumprido, e o já confirmado quarto ano terá um salto temporal e tramas inéditas (Foto: Apple TV)

Ao lado de Sofi (papel de Cobie Smulders), Jimmy entende que suprimir os sentimentos não é ideal nem recomendado, já que o retorno do pai ausente, vivido por Jeff Daniels, desperta no terapeuta fantasmas do passado que reverberam e muito no presente. Afinal, Jimmy enxerga Paul (Harrison Ford) sob lentes utópicas de paternidade, o que não ajuda ninguém.

Com o avanço do Parkinson e os tremores passando de coadjuvantes a personagens centrais de sua rotina, o veterano casa na estreia da temporada e desata a resolver pendências e organizar o que deve ser um final mais calmo e brando de sua vida. As cenas com a sisudez de Ford entrando em contraste com os lados amigáveis e calorosos dos demais personagens de Shrinking continuam à todo vapor – e funcionam bem demais. A esposa Julie (Wendie Malick) é quem, especialmente, adocica o mau humor dele.

Âncora emocional da série, a atuação de Ted McGinley alcança novos patamares, e deveria levá-lo diretamente à lista de indicados ao prêmio de Ator Coadjuvante em Comédia (Foto: Apple TV)

Na casa ao lado, Liz (Christa Miller) não controla os limites de controle, e Derek (Ted McGinley), depois de um susto cardíaco, reavalia a maneira como leva seus dias. Com um possível neto a caminho mais cedo que o desejado, os agora avós do ano entendem que o relacionamento, e um tanto longevo quanto o deles, só sobrevive de concessões e acordos.

Sean (Luke Tennie), navegando na onda de boa sorte com o negócio culinário, até dribla os erros de outrora na retomada da relação com Marisol (Isabella Gomez, de One Day at a Time), e compreende, também, que as mudanças positivas na vida podem ser tão desafiadoras e desconfortáveis quanto as ruins. Shrinking assume o lado piegas de peito aberto, concedendo ao roteiro momentos de genuína preocupação e evolução dos personagens.

O episódio Happiness Mission marca a despedida de Brett Goldstein, que escreve o roteiro e ruma de volta aos tempos de Roy Kent na vindoura quarta temporada de Ted Lasso (Foto: Apple TV)

Gabby (Jessica Williams) é quem enfrenta a maior draga da terceira temporada, quando uma paciente (Sherry Cola) fechada e distante se perde no labirinto perigoso da depressão. O baque não tira o brilho da performance de Williams, mas adiciona peso e contexto ao humor e ao propósito de vida dela, que herda de Paul o local físico onde pretende pôr em prática um sonho dos tempos da faculdade: um centro de tratamento para pacientes com traumas grandes demais para uma sessão padrão, e avança o namoro com Derrick #2 (Damon Wayans Jr.).

Shrinking usa seus atores convidados como ninguém na TV atual, e escala nomes do calibre de Michael J. Fox, Candice Bergen e o já mencionado Jeff Daniels para pincelar momentos de dramédia que acrescentam ao escopo da produção sem obstruir caminho ou ofuscar o elenco original; em menor escala, Lisa Gilroy vive uma enfermeira e possível peguete de Jimmy. No papel recorrente da filha desiludida de Paul, Lily Rabe deixa que Meg aproveite a liberdade momentânea de um casamento ruim e extravase sem preocupações futuras. 

O ator convidado Michael J. Fox também tem Parkinson na vida real e atua ativamente na conscientização e arrecadação de recursos para combater a doença (Foto: Apple TV)

Brian (Michael Urie), agora com uma bebê recém-nascida e batizada em homenagem a uma estrela da Broadway, combina limites e impõe a evolução do casamento com Charlie (Devin Kawaoka). Com subtramas dedicadas a personagens menores, com a melhor amiga Summer (Rachel Stubington), o tímido Jorge (Trey Santiago-Hudson) e os pacientes dos terapeutas, a temporada finge cair na tragédia para reverter a história de Jimmy.

Décimo primeiro e último episódio da temporada, And That’s Our Time divide os personagens em suas maduras jornadas, deixando Jimmy para trás. O que parecia rumar para o depressivo estado de estagnação do protagonista, na verdade ganha alma no roteiro dos criadores Bill Lawrence, Brett Goldstein e de Neil Goldman, com Paul afirmando a importância de viver para além dos traumas, dos fantasmas e das cicatrizes. Ford é austero e querido na entrega do monólogo, munindo Segel, comumente destrambelhado, com a certeza e a estabilidade que finalizam esse ciclo de Shrinking na maior das notas. 

“Que bom. Que pena ter 42 anos e não estar completamente coberto de cicatrizes — elas são a prova de uma vida plenamente vivida” (Foto: Apple TV)

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