Poucos momentos foram tão importantes para o Cinema quanto o advento do som e o pivô dos filmes mudos para o diálogo sincronizado. Uma mudança tão essencial para o desenvolvimento do meio como arte que para apreciar a beleza de um filme mudo nós precisamos alterar toda a nossa percepção do que é um filme antes de começar a vê-lo. O som dá a oportunidade de utilizar diálogos para compor conversas mais dinâmicas e eficientes, permitindo que a informação seja transmitida claramente para o espectador sem que o fluxo da imagem se quebre.
No entanto, o diálogo vem com sua própria dose de preconceito atrelado ao seu uso descabido: o famoso “show, don’t tell” coloca pressão para que os cineastas não dependam apenas de personagens dizendo o que fazem, mas de representar essas ações na tela. Afinal, o excesso de diálogos expositivos é às vezes bem pior do que a sua ausência completa. Ninguém gosta de se sentir infantilizado pelo que está vendo.
Sim, é preciso muita disciplina para não deixar que diálogos consumam a história ao invés de movê-la. Mas é possível argumentar que é preciso uma disciplina igualmente prodigiosa para tornar o próprio ato de dialogar na força motriz de um filme. Em 1957, Sidney Lumet e Reginald Rose testaram essa disciplina com a adaptação para o Cinema de 12 Homens e uma Sentença, baseada no episódio de televisão que Rose escreveu em 1954 para o seriado antológico Studio One. Na trama, que se passa quase inteiramente na sala de deliberação de um júri, 12 homens desconhecidos precisam julgar o caso de um garoto hispânico acusado de ter matado o próprio pai com uma facada. Em meio a gritarias, preconceitos e um calor infernal, apenas o diálogo reina supremo.
Produzido e protagonizado pelo lendário Henry Fonda, o longa começa ao final do julgamento, com o juiz lendo desinteressado as responsabilidades do júri que, cada qual à sua maneira, se prepara mentalmente para julgar o destino do acusado. Essa é a única vez no filme que vemos a face do garoto, tão inescrutável quanto a dos homens que irão decidir seu destino. Entre trocas de olhares, podemos sentir a tensão se formando enquanto a trilha sonora de Kenyon Hopkins surge por entre os créditos iniciais, uma melodia tímida e melancólica que irá reincidir em apenas três outros momentos. A câmera do cinematógrafo Boris Kaufman persegue as diferentes conversas iniciais entre os jurados, discutindo suas impressões sobre o caso, uns sobre os outros e sobre o calor que está previsto para fazer naquele dia. É uma apresentação concisa do elenco que propositalmente evita dar nomes a qualquer um deles; há oportunidades para tal, mas o roteiro de Rose não dá espaço para qualquer certeza. Somos jogados in medias res no lugar de dúvida dos jurados, dependendo de outros testemunhos para descobrir a verdade, se é que há alguma a ser encontrada. Uma vez que seus personagens começam a deliberar seus votos, a narrativa acompanha em tempo real suas discussões, tomadas quase inteiramente dentro da sala de deliberação.
12 Homens e uma Sentença é guiado pela sensação de intimidade criada entre o telespectador e seu limitado elenco de personagens. A câmera não é mero adereço de cena, mas um 13º jurado, passeando invisível pela sala, que fica fisicamente menor e mais estufada a cada minuto que passa. A transição de planos abertos que capturam diversos personagens em variadas posições de discordância para quadros cada vez mais fechados nas expressões de frustrações deles é sutil e elegante, acompanhando sempre o fluxo dos diálogos de Rose.

Palavras não fazem jus à qualidade da caracterização em 12 Homens e uma Sentença: o roteiro não é nada senão absolutamente clínico em sua revelação de todos os personagens através de seus trejeitos, seus vícios e suas virtudes. Nunca sabemos seus nomes, mas eles tampouco tornam-se números. Eles são aquilo que são, nada mais, nada menos. Na votação inicial, quase todos votam pela culpa do acusado, exceto pelo pensativo jurado nº8, interpretado por Fonda. Quase um terço do filme é dedicado à discussão inicial na qual ele pacientemente explica seu motivo fundamental: ele simplesmente não tem certeza. É uma frase que confunde seus colegas de júri, que inicialmente não conseguem entender por que ele se sente assim. Alguns até mesmo ficam defensivos, ofendidos com a acusação indireta de que, se Fonda está sendo misericordioso com o rapaz, eles obrigatoriamente estariam sendo cruéis.
Onde artistas menos habilidosos transformariam o filme em uma aula de introdução à ética, Lumet e Rose fazem de cada cena um exercício de tensão, dando à cada um dos personagens posições para defender e atacar, objetivos claros e uma dimensão interna que provavelmente nunca teria sido possível sem a presença de atores comprometidos com as limitações propostas pela sinopse do longa. Todos são estelares, com Joseph Sweeney e George Voskovec reprisando seus papeis do episódio original como alguns dos primeiros julgados conquistados pela retórica de Fonda. No entanto, é na figura do jurado nº3, papel de Lee J. Cobb, que o longa encontra o antagonista para as hipóteses perfeitamente racionais de Fonda. Irado com a possibilidade de ver o acusado recebendo um veredicto de inocência, ele rebate a misericórdia com desprezo, com o pano de fundo de seu relacionamento frágil com seu próprio filho informando a malícia com que encara o julgamento e seu desejo de punir outro garoto.

Embora às vezes seja acusado de ser um longa-metragem simpático demais ao sistema judicial americano, principalmente quando comparado com obras contemporâneas e radicais como O Sol é para Todos, de 1962, 12 Homens é na realidade bem menos específico às realidades dos Estados Unidos quanto a adaptação do romance de Harper Lee. Em certa altura do campeonato o jurado nº11 (Voskovec), um relojoeiro estrangeiro e extremamente moral, toma a palavra para implorar que seus companheiros de júri não levem as discussões para o lado pessoal. Para ele, o fato de uma dúzia de pessoas que não tem nada a perder ou a ganhar com aquele julgamento se reunirem para decidir o seu resultado é uma grande virtude do sistema democrático.
Pouco depois, quando o desinteressado jurado nº7 (Jack Warden) resolve quebrar o empate e mudar o seu voto para inocente, o relojoeiro perde a paciência pela primeira vez e viciosamente o acusa de ser menos do que um homem, incapaz de se posicionar com base no que acredita, apenas trocando seu voto porque tem ingressos para um jogo de baseball naquela noite. É um momento explosivo no qual, apesar de ter sua posição reforçada, àqueles que pedem por misericórdia são confrontados por algo ainda mais vil do que a crueldade: a apatia moral.
Mais significativo ainda é o momento em que o jurado nº10 (Ed Begley) finalmente perde a postura e começa uma tirada racista contra latinos. O filme nunca aborda abertamente a etnia do acusado, com a sua realidade sendo apenas aludida com base nos comentários preconceituosos de alguns dos jurados. Nesse momento, já após a quebra do impasse, um dos quadros mais famosos e icônicos do longa lentamente é formado, com quase todos os membros do júri se levantando da mesa e silenciosamente ignorando o vômito verbal de seu companheiro, que vai se sufocando na massa pérfida de sua ignorância. 12 Homens reconheceu, em 1957, que esse não é um discurso que somos obrigados a ouvir em qualquer situação, que não vale a pena nem entreter a noção de que qualquer preconceito seja justificado.

Embora em 1957 já houvessem mulheres em júris nos Estados Unidos, a composição parcial dos jurados em 12 Homens, essencial para seu título original, 12 Angry Men (“12 Homens Bravos”, em tradução livre), revela sua fundação principal como uma história sobre masculinidade e violência. O caso de um garoto que sofria abusos do pai e que agora está sendo julgado por seu assassinato brutal claramente desperta sentimentos em todos os homens presentes para julgá-lo. No lado da defesa, o jurado nº8, pai de três filhos, se compadece da situação miserável do garoto, informando sua escolha inicial de votar a favor de sua absolvição. Do outro, o relacionamento fraturado do jurado nº3, causado por sua insistência em submeter o filho à ideais inflexíveis de virilidade, claramente influencia sua falta de clemência; afinal, aceitar a possível inocência do acusado significa ter que aceitar sua própria culpa.
Já perto do final da sessão, a dúvida derradeira vem de uma observação sobre uma das testemunhas, uma mulher que alegava ter visto o assassinato através de sua janela enquanto se revirava na cama, tentando dormir. A observação, com implicações importantes para o caso, é tão simples que somos levados à nos questionar se, em um júri mais diverso, ela não teria sido feita antes. Não é nenhuma prova concreta de que o garoto não seja o autor do crime mas, como a maioria dos pontos levantados, é uma dúvida. Talvez até contra a observação de imparcialidade feita pelo jurado nº11, de novo e de novo os jurados são levados até epifanias através de suas experiências de vida, deduzindo aspectos importantes ao se colocar no lugar do acusado
Sendo ela mesma uma adaptação de um episódio televisivo, não é surpresa nenhuma o longa ter sido posteriormente adaptado para o teatro e de volta para a televisão. Em 1997, 40 anos após sua estreia, um remake televisivo dirigido pelo finado mestre William Friedkin (O Exorcista, O Comboio do Medo) buscou modernizar a história introduzindo um elenco mais variado, mas mantendo grande parte do texto intacto, dando prova cabal de que o roteiro de Rose está entre os mais elegantes já escritos. De fato, não é difícil ver um futuro em que cada geração terá sua própria versão do filme, dando a oportunidade tanto de diretores quanto atores exercitarem seus talentos contra um obelisco do meio.

12 Homens e uma Sentença é talvez o drama legal definitivo, apesar de ocultar inteiramente a parte que pertence aos advogados e juízes. Em seu cerne está a história de um grupo de homens reunidos aleatoriamente para decidir a culpa e inocência de uma pessoa que eles não conhecem. Toda obra que representa a deliberação de um júri está, direta ou indiretamente, em conversa com o filme de Lumet, e a maneira com que ele espelha a culpa de seu réu com a de seus carrascos. Um filme sobre a virtude da dúvida contra a impossibilidade de certeza em um mundo vazio de verdades, é uma obra de mérito ímpar e que merece ser reapreciada por futuras gerações de cineastas e entusiastas do Cinema, seja por sua excelência técnica quanto pelo que tem há dizer sobre a qualidade humana de duvidar em prol da curiosidade e da misericórdia.


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