1ª temporada de The Comeback faz comédia em panela de pressão quebrada

À perfeição, Lisa Kudrow cria em Valerie Cherish uma protagonista cômica atemporal

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Valerie Cherish já foi famosa. Estrela da sitcom I’m It, ganhou notoriedade nos quatro anos em que esteve no ar na grade da TV aberta, com um People’s Choice Award na estante para provar o sucesso. Agora, a estrela virou refém do destino – e quando surge a possibilidade de voltar à programação semanal e, de quebra, protagonizar um reality show que acompanha seu retorno, ela não pensa duas vezes. Essa é The Comeback.

Criada por Michael Patrick King e Lisa Kudrow logo no crepúsculo de Friends, a comédia da HBO é avantajada em conceito e execução, prevendo muito dos hits futuros do meio, como a metalinguagem de 30 Rock, o cinismo de Hacks e os bastidores da fama de O Estúdio. Com Kudrow formando, piada a piada, uma protagonista disposta a atolar-se na lama em busca de respeito e adoração, a série incomoda pelo humor constrangedor e pelo retrato descarado das relações de poder dos sets de filmagem.

Na tentativa de mudar sua imagem para a mídia, Valerie comparece ao tapete vermelho com o vestido ao contrário (Foto: HBO)

Ao lado de Valerie, seu fiel escudeiro é o cabeleireiro Mickey (Robert Michael Morris), numa parceria que data de décadas e representa o mundo de ontem e o de hoje. A atriz, escalada para viver a tia Sassy da série Room and Bored, precisa recalcular o trajeto que a guiou até então, aceitando o pão que o diabo amassou. E esse diabo é Paulie G (Lance Barber), um dos criadores do programa que detesta cada respiração da atriz.

Ela não quebra – e nem deixa as contradições e as humilhações tomarem conta de seu espírito livre e espontâneo. Mas o roteiro, idealizado por Kudrow e por King, que àquela altura carregava no currículo as desventuras de Sex and the City, coloca Valerie na pele de uma otimista na selva sangrenta de Hollywood. Na contradição e na ciência de que a audiência enxerga os sangramentos de batalha de Cherish, The Comeback prediz o que a primeira temporada de The Office alcançaria no ano seguinte.

O entrosado elenco de Room and Bored, a sitcom que marca o retorno de Valerie Cherish à TV aberta (Foto: HBO)

Quem não suportou o lado cringe de Michael Scott dificilmente passará ileso por Valerie Cherish, especialmente nas reações e relações que ela cultiva com seus colegas de emprego. A protagonista da sitcom é a doce Juna (Malin Akerman, de The Hunting Wives), uma novata na indústria que demonstra carinho e zelo pela veterana, assim desmontando uma possível rivalidade entre estrelas da TV que Valerie poderia prever.

Os demais atores do show, vividos por Kimberly Kevon Williams, Jason Olive e Kellan Lutz (antes dos anos de Emmett Cullen), são típicos do besteirol americano, mais interessados nas festas depois das gravações do que no impacto de seu trabalho na indústria ou na crítica. Peoa rodada, Valerie se atém a todos os reflexos, passando por poucas e boas nas leituras de roteiro e nos ensaios para demarcação de cena. Há um embate congelante com Paulie G, apaziguado pelas interações com Tom (Robert Bagnell), o showrunner que não odeia Valerie, e com o diretor James Burrows, lenda da indústria que aqui interpreta uma versão suspeita de si mesmo.

Valerie Cherish: [sobre um vídeo pornográfico intitulado “Ladies Loving Ladies 5” encontrado no quarto] Tudo bem, olha, fico feliz que tenhamos esclarecido isso, ótimo, porque este programa não é sobre, você sabe, “Ladies Loving Ladies” — é sobre, você sabe, esta mulher amando esta mulher. Então… pronto.

Quando uma fantasia de cupcake te transforma na maior estrela de reality show da semana (Foto: HBO)

São 13 episódios que passeiam entre os bastidores, a execução e as premiações que um circuito televisivo proporcionava na época. Há, ainda, um argumento sobre a proliferação e o efeito dos reality shows na grade americana. Valerie, tão ligada à comédia roteirizada, luta para entender seu papel como ela mesma, e abusa da boa vontade de Jane (Laura Silverman), a produtora responsável pelo Comeback. Na relação entre as duas, a série planta piadas recorrentes que nunca perdem a graça, como o gesto que indica que parem as gravações (algo que não acontece em momento algum) ou o sinal usado após algo drástico demais dito sem filtros.

As câmeras seguem Valerie até dentro de casa, onde o marido Mark (Damian Young) precisa ter paciência e cabeça fria, mesmo que uma soneca sem cueca ou uma noite de amor não planejada aconteçam e irritem o lado controlador da protagonista. No cosmos de The Comeback, Kudrow interpreta uma perseverante batalhadora, que se distancia da personalidade avoada de Phoebe Buffay, a personagem que interpretou por uma década. 

Michael Schur, a mente por trás de Parks and Rec, The Office e The Good Place, atua como produtor executivo em The Comeback (Foto: HBO)

Lançada em 2005, The Comeback só ganharia uma segunda temporada na década seguinte – e uma terceira ainda este ano, marcando o metalinguístico retorno de Valerie Cherish e sua trupe desajustada de famintos por fama e adoração. No Emmy 2006, Kudrow apareceu na lista de Melhor Atriz, junto das menções em Casting e da direção de King na season finale, Valerie Does Another Classic Leno, quando a atriz surta e, diante das incertezas do futuro, aceita seu status de diva do reality

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