Na central de atendimento e coordenação da Crescente Vermelho de A Voz de Hind Rajab, todas as ligações são reais. A diretora Kaouther Ben Hania usa desses registros, datados de janeiro de 2024, para narrativizar as últimas horas de vida de uma garota palestina de seis anos.
Vítima do exército israelense no genocídio de Gaza, Hind Hajab e seus tios e primos são alvejados por tiros. Ela é a única sobrevivente da tragédia, e passa horas ao telefone com Omar (Motaz Malhees), telefonista da corporação que, em auxílio à Cruz Vermelha e aos órgãos não governamentais do território, organiza rotas e entregas de mantimentos e remédios para os afetados pela invasão.

Já conhecida pela flexão da ficção com o real, a cineasta da Tunísia dobra a aposta com um filme arrojado e emocional, num retrato cruel da barbárie e da ganância do ser humano. Com o passar das horas, a vida da garota vai se esvaindo entre os chiados da ligação, as explosões perto do veículo e a impaciência e ineficácia do sistema que deveria proteger seus cidadãos.
A Voz de Hind Rajab marca a terceira indicação do Cinema de Ben Hania ao Oscar. Depois de O Homem que Vendeu Sua Pele disputar como Filme Internacional em 2021, e o documentário As 4 Filhas de Olfa estar no páreo em 2023, a diretora volta para a lista da Academia na disputa que contém quatro títulos da Neon, entre eles o brasileiro O Agente Secreto. Hind Rajab também apareceu nas indicações ao Globo de Ouro.

Voz para as causas e a justiça na Palestina, a diretora faz de seu longa um documento histórico, e leva a imagem da pequena Hind Rajab para todas as exibições. Em Veneza, onde o filme estreou na Competição Oficial, ganhou o Grande Prêmio do Júri e outros oito troféus nas mostras paralelas – e entrou para os livros de história com vinte e três minutos de aplausos ao fim da sessão. Após a exibição, grandes nomes de Hollywood como Alfonso Cuarón, Jonathan Glazer, Brad Pitt, Rooney Mara e Joaquin Phoenix embarcaram no projeto na produção executiva.
Com cautela e precisão, Kaouther Ben Hania costura a ficção com o lado real da história, posicionando sua câmera como interlocutora do trabalho cinematográfico e registrando, em paralelo, imagens dos negociadores e profissionais de verdade, sendo refletidos pelo trabalho do elenco. É daqueles filmes que tira o fôlego e impera o silêncio, já que qualquer reação sonora ou verbal não dará conta de mensurar o tamanho da violência e da desumanidade que acontece rotineiramente no outro lado do mundo.


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