O cadáver do pequeno Sully mal esfriou, e os eventos de Avatar: Fogo e Cinzas começam sem esperar pelo luto ou pela paz. Três semanas separam O Caminho da Água da nova guerra de Pandora, desta vez com a presença maligna e esotérica de uma bruxa do Povo das Cinzas. Varang (Oona Chaplin) é o chamariz visual do terceiro capítulo da saga de James Cameron, que aqui continua destrinchando temas do filme anterior, numa sequência voltada ao sentimento de perda e a necessidade de deixar o ódio ir embora sem cerimônias.
Portanto, Jake Sully (Sam Worthington) precisa balancear a criação dos demais filhos com a distância emocional da esposa Neytiri (Zoe Saldaña) e a ameaça cada vez mais latente de Quaritch (Stephen Lang), o general sedento pelo sangue “traidor” do antigo militar. Mas Fire and Ash não se resume a batidas repetidas do mundo de Avatar.

Cameron escolhe a voz de Lo’ak (Britain Dalton) para narrar e dar o clima da história, centrada na emancipação dos jovens guerreiros frente ao inevitável confronto com o Povo do Céu. Brutalidade e ancestralidade são moedas de troca para o filme, numa construção complexa e longa dos laços cortados e reatados da família.
O rancor que Neytiri direciona à Spider (Jack Champion), o humano que habita Pandora com tempo marcado para voltar ao seu povo, incendeia a dinâmica entre mãe adotiva e “pai de sangue”, quando Quaritch demonstra interesse em reaver sua posse e treinar o garoto pela lei dos homens. Jake, indisposto a aceitar tal condição, redireciona suas ações para a proteção ampla de todos os Sully, independente de sua cor ou altura.

O mundo de Pandora cresce com a inserção de Varang e sua tribo de guerreiros animalescos. Pela primeira vez, Cameron transforma os Na’Vi em criaturas dignas do horror, com o fogo e a fumaça camuflando uma natureza cruel e desligada da moral e das leis. Ao lado de Quaritch, a vilã do filme demonstra ferocidade e une o útil ao agradável, aliando-se aos militares e deleitando-se no poderio bélico.
O trovão que ela tanto sonha em criar é um desenho claro e deveras assustador dos avanços da violência pela sociedade de Pandora, e se as naves monstruosos de O Caminho da Água fizeram estragou por si só, desta vez os canhões e semi automáticas de Varang serão uma perdição ainda maior.

Mas não só de Spider se faz o terceiro Avatar, focando também nas jornadas de Lo’ak (junto de seu irmão Payakan) e de Kiri, a filha adolescente da cientista Grace (Sigourney Weaver), cada vez mais ligada à entidade Eywa e demonstrando poderes até então impossíveis aos olhos dos anciãos do planeta.
Quanto à trama dos Tulkuns, Fogo e Cinzas dedica tempo e respeito aos seres aquáticos, usando e abusando da fonte Papyrus na legenda de suas conversas inaudíveis aos ouvidos humanos. Com cenas de assembleia e deliberações governamentais, a trilha sonora de Simon Franglen ganha espaço para elevar ainda mais a experiência sensorial do Cinema de Cameron.

Kiri, em igual medida, alcança o posto de arauto do sobrenatural, impressionando tanto a cética Ronal (Kate Winslet), quanto a própria Varang, num gancho narrativo que pode render momentos de tensão e fé no que esperamos dos próximos capítulos de Avatar. Aqui, a crença em Eywa serve de espelho para a sutil esperança de Kiri e a áspera memória de Varang, aumentando o escopo mitológico dos personagens e seus demônios.
Que James Cameron capricha mais no visto do que no dito, seu vasto currículo está aí para demonstrar, porém não há escapatória: Fogo e Cinzas abre mão de mais traquejo nas palavras e deixa ao roteiro do cineasta (escrito junto de Rick Jaffa e Amanda Silver) o posto de departamento menos floreado do filme. Porém, o todo compensa, com o 3D continuando a quebrar barreiras e expectativas, além do som magistral e a direção de arte que transforma esboços em pinturas em movimento. O meio de locomoção da tribo do Ar, por si só, rende um livro de elogios e suspiros.

Mestre da vertigem, Cameron filmou o longa alternando entre 48 fps nas cenas de ação e subaquáticas e 24 fps no restante. Ele também demarcou tematicamente a oposição entre os heróis e os vilões pela relação com a floresta: “a humanidade vive um momento de muita raiva e fúria, refletido tematicamente nos Mangkwan, que simbolizam a desconexão com a natureza, em contraste com outros clãs Na’vi que representam essa ligação”.
Dedicado ao produtor Jon Landau, parceiro criativo de longa data de Cameron, falecido em 2024, Avatar: Fogo e Cinzas encerra sua emocionante caravana de guerra e amor com uma bela canção. Miley Cyrus entoa os versos de Dream As One em total harmonia à mensagem e ao objetivo do filme, espalhando a esperança que nasce das conclusões, sejam elas alegres ou não.


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