A indicação de Sweet Dreams of Joy à categoria de Melhor Canção Original no Oscar 2026, vinda do documentário Viva Verdi!, reforça todas as desconfianças e más construções nas engrenagens da premiação. A faixa, composta por Nicholas Pike, cantada por Ana María Martínez, gravada e lançada em 2017, volta quase uma década depois para competir como novidade. A Academia já não é bem vista, e piora bastante quando nos confronta com sua exumação burocrática, onde a elegibilidade é esticada além do limite do plausível. Isso que sequer mencionei que também é uma música de créditos, como se não fosse cínico suficiente ser de 2017.
Isso sugere ou uma safra atual criativamente anêmica ou um lobby de distribuição que conseguiu manobrar as regras de lançamento para qualificar o filme, a música, embora competente, carrega a poeira de um projeto que ficou na gaveta ou no circuito de festivais por tempo demais. A sensação para o público é de anacronismo enquanto aplaudimos um projeto de o agora e ao mesmo tempo pagamos tributo, como com a música Wildflower, de Billie Eilish que recebeu indicações no Grammy 2026, mesmo sendo lançada em maio de 2024.
Ainda assim, mesmo com a indicação controversa da música em Viva Verdi!, a obra como um todo tem muita sensibilidade. Os corredores da Casa Verdi são preenchidos por vozes que carregam sua paixão de décadas. A música, e a própria Arte, não parecem ser um ofício do qual se aposenta, muito pelo contrário, é na verdade o último bastião de dignidade e memória que conecta o presente ao passado glorioso de cada um.
É bonito notar como o filme, dirigido por Yvonne Russo, retrata a troca entre os velhos mestres e os jovens estudantes sob o mesmo teto em diálogos naturais em que a técnica também é transmitida no cotidiano, nas histórias do passado e na postura da convivência.

Visualmente e tematicamente, o filme é um memento mori musical. Mesmo o corpo sendo instrumento perecível, a música é a entidade eterna. Mesmo com aparente estranheza na indicação, e na própria música que aqui é de créditos,Viva Verdi! merece o elogio por sua humanidade. Ele nos oferece um olhar respeitoso sobre o envelhecimento e a Arte. Verdi dizia que a Casa era sua obra mais bela, e o documentário honra essa afirmação ao mostrar que cuidar de quem criou a arte é tão nobre quanto a própria criação.


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