Vida querida: os contos persuasivos de Alice Munro 

Coletânea foi a última publicada pela autora canadense

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A canadense Alice Munro tornou-se, em 2013, a primeira autora de contos a vencer o Nobel da Literatura. Pouco tempo depois, publicou Vida querida, última coletânea de uma carreira marcada pela visceralidade dentro e fora das páginas.

Sempre atenta aos acontecimentos de sua pequena cidade gelada, Munro imprime em sua obra um toque genuíno de afeição e ansiedade. Mesmo curtos, os contos carregam bagagem emocional ao ponto de perdurarem seus efeitos como os de um extenso romance.

Em Vida querida, traduzido por Caetano W. Falindo para a Companhia das Letras, o mote não é único nem singular. São histórias de perdas e ganhos, contratos assinados com o destino e o recebimento de juros após uma vida de mordomias ou de negações.

Livro conta com seção que revisita memórias da infância da autora (Foto: Companhia das Letras)

Munro viveu na pele momentos de descarga emocional e, após uma década convivendo com a demência, morreu em 2024. Não demorou para que a filha Andrea Robin Skinner viesse a público com uma denúncia calamitosa: os episódios de abuso sexual que sofreu por parte do padrasto – e dos quais a mãe tinha consciência.

A ruptura familiar de Alice Munro, embora nunca adereçada por ela de maneira direta em comunicados ou em sua obra, moldou sua forma de escrever e de se expressar. Vida querida, porém, carrega traços de uma Munro distante da efervescência do casamento e da criação dos filhos, em vez disso se atendo a personagens, em sua maioria mulheres desiludidas, na incessante caça à paz de espírito.

Que chegue ao Japão abre o livro narrando a epopéia de uma jovem mãe que, enamorada pela ideia de escapar das obrigações vigentes da vida adulta, aproveita uma viagem de trem para redefinir suas prioridades. Amundsen, por outro lado, foca na rotina de uma professora virginal que cai de paraquedas numa zona de guerra física e moral. Munro não desvia de pedregulhos e tabus, providenciando saídas nada éticas ou justificadas para suas criações. Em Deixando Maverley, um guarda noturno fica entregue à vida de uma moça misteriosa e quieta, que não demora a sumir do mapa e voltar para ele com segredos obscuros.

“Nós dizemos de certas coisas que elas não podem ser perdoadas, ou que nunca vamos nos perdoar. Mas perdoamos – perdoamos o tempo todo.”

Em bairros minúsculos onde todos conhecem a frente e o verso dos moradores, a autora desvenda a fachada aparentemente pueril da civilidade. Cascalho volta no tempo para tratar de úlceras familiares. Recanto é uma recriação dos traumas de infância elevados a uma potência impossível de ser suportada. 

Sem penalizar os protagonistas de suas pequenas histórias, há também um toque perverso e tentador de voyeurismo em Vida querida, com Munro e o leitor observando os erros e acertos de desconhecidos cheios de apetite e de fascínio. Entre uma conexão inesperada (Orgulho), um adultério com fins monetários (Corrie), um devaneio pela mente de uma esquecida (Com vista para o lago) e o reencontro tardio de almas gêmeas (Dolly), Munro prepara o terreno para, por fim, rasgar o véu entre o pessoal e o fantasioso.

Na seção Finale, quatro fragmentos de sua infância, juventude e os anos de adulta são relembrados com muita poesia e pouca assertividade. A babá que encantou sua fase de moleca e a relação impopular com os pais são elementos de uma auto ficção que destoa da liberdade anterior, onde a ficção sem traços pessoais abrangia um cosmos mais colorido, reflexivo e mórbido. 

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