No show que fechou a primeira edição do Primavera Sound em 2022, a britânica Charli xcx não levou dançarinos ou pirotecnia para entreter e incendiar o público, àquela altura num frenesi de adrenalina acumulada pelos dois dias de encontros musicais das divas que tanto amam. O que poderia parecer uma involução da arte dela, cantando as músicas do disco da vez, Crash, se justificava na personalidade e na criatividade de Charli.
Anos se passaram, com o lançamento explosivo de um álbum que apoderou-se de uma estação do ano e virou a palavra definitiva de 2024. Ser brat era sinônimo da anarquia e do deslocamento das expectativas. Era lugar de dança, choro, vício e esgotamento. Tamanho sucesso só seria ultrapassado com um ritual que equiparasse a grandeza de sua concepção: e então veio o falso documentário The Moment.

No filme, Charli vive uma versão alternativa dela mesma, navegando por entre os altos e os mais altos da era brat. Sob a direção de Aidan Zamiri, figura que fez uma carreira nos videoclipes e ajudou a difundir a ideia da popstar como alguém à parte, luminosa e em regressiva de um Big Bang, o filme satiriza a indústria mas mantém o foco na protagonista.
Baseado em uma ideia original da própria Charli, o roteiro começa com colagens reais da mídia (e aparições inesperadas de figuras conhecidas daqueles adeptos ao mundinho Pitchfork), e posiciona Charli como alguém ao mesmo tempo amedrontada e sedenta pelo desconhecido. Ao lado da equipe, de agentes e assistentes, o pessoal que cuida das mídias e os executivos que fingem conhecer as gírias da juventude, as situações escalam em grau de nervosismo e de constrangimento.

A montagem é deflagrada por cortes rápidos, com canções do disco costurando a psique fragilizada e excitada da cantora. A rápida e brusca mudança para o dia, quando o sol nasce queimando a íris e demandando óculos escuros em qualquer ambiente, serve de antídoto ao elixir que as boates, os banheiros e os saquinhos transparentes (que podem ou não ser para lanches) deixam no corpo de Charli.
A atuação calcada em minimalismo e na fuga de embates é um dos pontos de fricção de The Moment, que cerca a atriz/personagem de figuras muito mais enviesadas no humor, como a amiga de longa data que se vê afogada nas burocracias contratuais e o diretor estrangeiro que tem ideais demais para o bem-estar do projeto.

Justamente nessa intersecção entre o humor irônico e a acidez do retrato da depressão, The Moment salienta o papel transformador e por vezes redundante da arte. Criar brat, em minúsculas letras num fundo verde-vômito, foi algo pessoal e solitário de Charli – portanto, dar cabo dele deveria seguir os mesmos moldes.
Se a teoria não faz jus à prática, o formato de documentário ficcional se adequa aos humores, tanto os cômicos quanto os emotivos, da sua musa. De viagem de última hora para Ibiza, ela encara a perfeição de Kylie Jenner (Kylie Jenner) e as superstições de uma massagista que aponta o envelhecimento e a secura de sua alma.

Nada mais dramático ou artificial do que os posts patrocinados, os anúncios fabricados, os sorrisos amarelos e as indiretas que escondem graus cavalares de dor e mágoa. Para a pá de terra que enfim passa à limpo o auge de sua carreira, até então, Charli xcx escolhe um manejo bruto, maquiavélico, sensual e esbaforido. Fiel a tudo que a trouxe até aqui, da canção escrita para o filme com crianças com câncer ao fenômeno sócio-cultural que transformou o verde na tendência mercadológica da mesma indústria que trata a britânica como revelação e novata.
Interessante que The Moment chegue ao Brasil junto de O Morro dos Ventos Uivantes, filme de Emerald Fennell que desafiou Charli a compor um álbum de canções histéricas e sombrias. A party girl 365 cede espaço para uma uma artista de distintos interesses, mergulhando sem reservas ao misterioso mundo do Cinema (Erupcja, 100 Nights of Hero, I Want Your Sex, só citando os projetos em vias de lançamento).

No epílogo de The Moment, o projeto de uma vida é descartado e enviesado: figurinos ultraprocessados, maquiagem de princesa da Disney, uma seleção de canções que abre mão do que é certo para aceitar o que vende melhor. Qualquer semelhança com a vida real é mera coincidência…


Deixe um comentário