Refilmagem de Quarto do Pânico passa batida 

Exibido no Festival do Rio e lançado no canal Telecine, remake do filme de Fincher emudece de cara

min de leitura

Refazer filmes estrangeiros ao gosto de um novo país ou cultura não é novidade: vários títulos são remakes. Quarto do Pânico, porém, soa mais como um produto fabricado às pressas do que propriamente uma reimaginação do drama claustrofóbico de David Fincher. 

Para comandar a orquestra, a diretora Gabriela Amaral Almeida, do excelente O Animal Cordial, injeta o frenesi da solidão e da paranóia na protagonista Mari (Isis Valverde). Para seu azar, o roteiro que Fábio Mendes verte a partir das palavras de David Koepp desgasta tanto a história que o fio deixado não ganha corpo.

O roteirista Fábio Mendes tem no currículo o vindouro Velhos Bandidos, com Fernanda Montenegro e Ary Fontoura (Foto: Telecine)

Comparações à parte, o filme de 2002 emparelha a uma mulher recém-divorciada, exausta da rotina entre trabalho e casa, acompanhada de uma filha temerosa e perspicaz. Na versão brasileira, Valverde interpreta uma mulher traumatizada pela morte do marido, numa tentativa de assalto no trânsito paulistano, e que se muda para um casarão que esbanja câmeras de segurança e um quarto secreto.

A casa de Quarto do Pânico é tirada dos catálogos de paisagens, sem mobília que justifique a mudança recente, nem qualquer traço de originalidade ou de personalidade. O cenário, que deveria tomar forma como protagonista invisível, é áspero. Assim como os bandidos, papéis de Marco Pigossi, André Ramiro e Caco Ciocler.

A obsessão de Hollywood pelo Brasil não ficou refém do Oscar, já que Isis Valverde foi lembrada pelo Framboesa de Ouro como Pior Atriz Coadjuvante em Código Alarum (Foto: Telecine)

Mal temos tempo de conhecer mãe e filha, aqui vivida pela jovem Marianna Santos, a trama já descamba na invasão e nas sucessivas tentativas de contato, infiltração e violência perpassadas de um lado ao outro. No fogo cruzado, o pai de Mari, Estevão (Leopoldo Pacheco), aparece para acrescentar mais um pouco de drama na equação.

Até mesmo a questão de saúde da garota, que precisa de insulina a certo momento do “sequestro” no quarto protegido, é feita às pressas, dedicando certa empatia com o ladrão que também tem um filho doente e só está metido no crime para arcar com as despesas médicas.

Na trilha sonora, Rafael Cavalcanti dá conta de aclimar o suspense, ao passo que a fotografia de Fabricio Tadeu extrapola na câmera lenta (Foto: Telecine)

Isis Valverde começa o filme com uma personagem em pedaços que não tem oportunidade de reconstruir-se ou mostrar uma faceta distinta daquela do luto e da solidão. Desserviço para o trabalho da atriz e da diretora, que lidam com um texto paupérrimo de referências e de consequências. Ao fim da hora e meia de perseguição em círculos, Quarto do Pânico passa incólume e sem graça ou razão de ser. 

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *