A vida de Carol Sturka (Rhea Seehorn) antes do apocalipse que inicia a primeira temporada de Pluribus não era essa Coca-Cola toda. Escritora de uma saga de fantasia que ela desgosta e sente mais irritação que orgulho, a mulher mantinha um longo relacionamento com a empresária Helen (Miriam Shor) e enxergava nisso seu mundo inteiro. Então o mundo acaba.
Ou quase isso, como a criação de Vince Gilligan, pai de Breaking Bad e Better Call Saul, nos ensina nas horas iniciais do drama. Uma mordida de rato gera um beijo forçado, que transforma os cientistas em agentes de uma raça alienígena desconhecida. Mas nada de explosões ou eventos sobrenaturais, a mente coletiva quer paz e harmonia.

De um segundo para o outro, toda a população “morre”, salvo doze indivíduos sem relação aparente ou sentido lógico. No lugar, surge a consciência plural e conjunta: todos são um só, sabem de todas as coisas e resolvem os problemas sem demora ou empecilho. Carol demora a entender a organização, e navega por este evento com raiva, amargura e negação.
Pluribus não quer explicar as razões da implosão ou o motivo dos seres extraterrestres morarem na humanidade, mais focada na perspectiva de uma mulher solitária e “difícil” nesta situação sem precedentes. E se séries como O Último Cara da Terra, com Will Forte, exploraram premissas semelhantes pela lente cômica, Gilligan e seu time de roteiristas e diretores optam pelo retorno mais arisco e moralmente ambíguo da resposta.

Rhea Seehorn, em seu primeiro papel como protagonista, toma posse de todas as contradições e instintos de Carol, revelando em doses homeopáticas um passado de repressão (como o acampamento de cura gay ao qual foi submetida pela família com quem não tem mais contato), paixão (no longo relacionamento com Helen) e insatisfação (na figura de uma avatar particularmente sexy da hive-mind). É uma tarefa árdua para a atriz, parceira de Gilligan desde os tempos de viver Kim Wexler em BCS, e que agora sobe ao pódio ao liderar o drama de prestígio da Apple TV.
Apesar de sentir a solidão à enésima potência, Seehorn é acompanhada por alguns atores, representando tanto os humanos controlados quanto os remanescentes. Zosia (Karolina Wydra), a mulher encarregada de lidar com Carol pela aparência semelhante ao galã do livro que escreve, flutua entre a servidão que serve de lema ao povo, e pela curiosidade que nasceu da faísca romântica entre as duas.

Alguns continentes de distância, a participação de Manousos (Carlos Manuel Vesga), um paraguaio que sobreviveu ao apocalipse e recusa qualquer interação com a mente coletiva, revela o outro lado da resistência, numa atuação feroz e muito corporal de Vesga. O caminho da América do Sul à cidade de Albuquerque, lar de Carol, toma quase que toda a duração da primeira temporada, colocando os personagens frente a frente no capítulo de encerramento, La Chica o el Mundo.
A implosão das personalidades semelhantes de Carol e Manousos transforma o encontro num show de desconfiança e humor involuntário. O cabo de guerra entre razão e emoção primeiro divide os protagonistas, para depois atá-los numa promessa apocalíptica – e influenciada pela desilusão da mulher com Os Outros. Na performance cuidadosa de Wydra, Zosia apunhala, entre sorrisos e promessas, o plano biológico dos inimigos.

A Hive-Mind, mesmo sedenta pela novidade que Carol pode providenciar com o livro inédito de Wycaro, está fadada a seguir seus princípios evolutivos, como a cena que abre a season finale demonstra em tons cruéis. A aceitação da pequena sobrevivente que, depois de resistir, abraça e inala seu destino, deixando para trás os traços de identidade, cultura e até os laços com animais da fazenda.
Adepto à simbologia de cores e mensagens escondidas em plena vista, Gilligan faz do amarelo o lado mais individual de Carol, e contrapõe o coletivo, sempre em azul, das vestes e do leite-canibal à contemplação insone do céu ensolarado. Nos respiros entre o medo e a perdição, Rhea Seehorn ganha palco e tempo para apreciar o que antes era banal: as paisagens, a brisa, a arte, a companhia humana.

Até a mensagem gravada que destaca o amor dos Outros por ela, mas a necessidade de distância deixa de ser irritante e passa a confortar sua solidão. Os temas de urgência resultaram em reconhecimento das premiações de inverno, como o Actor Awards e o Globo de Ouro, onde Seehorn disputa os troféus de Atriz em Drama (no Critics Choice, ela ganhou!). Em tempos onde os computadores ganham personalidade e substituem atos e efeitos humanos, na ausência de pensamento criativo e do labor de criar, Vince Gilligan faz de Pluribus uma vitrine da perseverança de uma mulher disposta a lutar, independente da força, alcance ou do poderio do inimigo.


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