O silêncio interrompido de Sonhos de Trem

Com fotografia histórica do brasileiro Adolpho Veloso, o indicado a 4 estatuetas no Oscar 2026 encanta pela imagem, mas perde a chance de ser genial ao tentar explicar demais seus sentimentos

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Comparado aos pesos-pesados Uma Batalha Após a Outra e Marty Supreme, Sonhos de Trem (Train Dreams, no original) parecia ter chegado tímido à temporada de premiações, mas provou que fôlego não se mede só por barulho. Com a missão de traduzir o crepúsculo do Oeste em pura melancolia, a obra revela, logo nos primeiros minutos, que entende a dimensão humana dessa tragédia. A  história de um operário que assiste a modernidade transgredir a natureza e a sua própria existência é construída com ímpar paciência contemplativa com muitos méritos e uma ou outra questão que nos afasta desse mundo estonteante.

Estreando no festival de Sundance em 2025, e ganhando corpo após passar pelo Festival de Toronto (TIFF), enquanto blockbusters como F1 dominaram as manchetes, a produção da Netflix comeu pelas beiradas e garantiu seu lugar ao sol no Oscar com 4 indicações: Melhor Filme, Roteiro Adaptado, Fotografia, e Canção Original (pela faixa-título composta por Nick Cave e Bryce Dessner). E toda essa estrutura técnica se sustenta graças a Joel Edgerton (O Grande Gatsby, 2013) que entrega o que talvez seja a performance de sua vida, o papel de um homem ferido com de ombros cansados e olhares baixos que lhe valeu uma justíssima indicação ao Globo de Ouro de Melhor Ator em Drama, mas sendo superado pelo nosso Wagner Moura em O Agente Secreto.

Em entrevista à Variety, Adolpho Veloso conta que 99% do longa foi filmado com luz natural (Foto: Netflix)

Ainda que o prêmio tenha escapado das mãos de Edgerton, a identidade de Sonhos de Trem deve a outro talento nacional, este operando por trás das lentes. O olhar de Adolpho Veloso que assina a direção de fotografia é, por muito, o aspecto mais interessante da obra. Tanto que o garantiu o Critics Choice Award de Melhor Fotografia e o coloca como forte concorrente na temporada. O isolamento é desenhado tanto por paisagens vastas quanto pela sensibilidade que é depositada na floresta e em cenários bucólicos. Por A+B, o Cinema brasileiro vem tomando espaço cada vez maior no que diz respeito ao mais alto nível técnico da Indústria global.

O incômodo, porém — dos poucos deméritos que citei ao início —, mora na desconfiança do filme em sua própria imagem. Onde a fotografia de Veloso e o rosto de Edgerton já são tudo que precisamos, o roteiro sente a necessidade de explicar. A narração em voice-over é muito didática e intrusa, nos faz falta o silêncio da contemplação tão bem construída. Você quer sentir o filme, mas ele não para de falar na sua cabeça, tirando a sutileza que a própria imagem construiu. Mas, ainda longe do descarrilamento, isso é só um detalhe que é destacado pela bela produção.

Sonhos de Trem é uma adaptação da novela de Denis Johnson publicada na revista The Paris Review em 2002 e, mais tarde, lançada como um livro em 2011 (Foto: Netflix)

O longa firmou-se como uma das obras sérias que a Academia sempre abraça. Contudo, há uma ironia fina na sua presença no Oscar 2026, ao lado da merecidíssima lembrança à Fotografia e Melhor Filme, figura a de Melhor Roteiro Adaptado. Justamente o ponto onde a produção peca, com a fidelidade literária sendo traduzida também como excesso de verbalização.

No veredito final, estamos diante de um fascinante estudo de contrastes. Visualmente, é maravilhoso e estonteante, exige a maior e melhor tela disponível, um testamento da sensibilidade de Adolpho Veloso e de uma direção de arte impecável. Narrativamente, porém, é um filme que tem medo do próprio silêncio, também não é muito inovador ou disruptivo no que diz respeito ao contexto social da história trágica a que somos apresentados.

Vale o ingresso? Sem dúvida. É feito com esmero e peso. Mas resta a sensação inevitável de que, se a direção de Clint Bentley tivesse confiado plenamente na força do visual, talvez sentíssemos mais tudo o que se passa ali. Ao tentar explicar o inefável, o filme perde a chance de nos assombrar de verdade, entregando uma experiência que, por pouco, poderia ser um clássico daqui certo tempo.

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