A premissa é simples: garota volta para a casa da família depois de um período longe, processando o luto pela morte da mãe, cultivando certa amargura com a irmã mais nova, e sentindo falta do pai, um autor de sucesso que usa o trabalho como válvula de escape. O mascote da família, Ben, é um chimpanzé dócil e esperto que, na noite da chegada da jovem, é mordido por um animal infectado com o vírus da raiva.
Johannes Roberts dirige O Primata com sangue nos olhos e mirando uma porção de situações que nascem da simplicidade e ganham corpo com o terror. Temos a melhor amiga de infância que convida uma terceira e indesejada companhia. Temos o irmão da dita amiga, recém-solteiro e tão crush da protagonista que até seu pai percebe a oportunidade de romance. Temos um animal descontrolado e sanguinário. Vamos ao filme.

Usando ao máximo a casa que se aloca perigosamente no topo de uma montanha, O Primata brinca com as percepções ao vestir o ator Miguel Torres Umba com a fantasia do macaco, deixando os gestos, as respirações e toda a fisicalidade do animal num tom de vale da estranheza perfeita para o resultado desejado.
A piscina torna-se esconderijo, os celulares somem sem bateria e os pobres coitados e tarados universitários que as meninas conhecem no avião e convidam para a festinha são servidos de banquete para Ben, que se junta a um panteão de símios assustadores, que vai de Monga, atração do Hopi-Hari responsável pela insônia da criançada, ao coadjuvante inesquecível de Não! Não Olhe!.

A obsessão e o fascínio pelo macaco como ser semelhante e, ao mesmo tempo, dificilmente controlável, é o mote do filme, numa escalada de tensão e vísceras que perpassa questões de linguagem, como a surdez do pai vivido pelo vencedor do Oscar Troy Kotsur, adicionando a camada extra de medo e imprevisibilidade, uma pitada da suspensão que sentimos vendo Hush, por exemplo.
No elenco, as meninas fazem merecer os postos de rainhas do grito, exprimindo tudo que lhes é de direito, do pânico inicial ao suspiro cansado que precede a aceitação do fim inevitável. As mortes, desenhadas com criatividade e astúcia, demonstram a força e a sede de sangue do vilão, que abraça de bom grado o papel de capataz dos sonhos juvenis de apropriação e exploração para com os considerados “inferiores”.


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