A escuridão banha o palco Samsung Galaxy no domingo do Lollapalooza e então uma batida frenética começa a pulsar em crescente. Jatos de luz dilaceram a multidão, em cortes precisos e sensíveis. E então duas lanternas minúsculas surgem no palco, de onde saiu uma versão animalesca de Lorde, dando início ao espetáculo da era Virgin.
No último show dessa parte da The Ultrasound World Tour, a neozelandesa organiza uma porção de gags para dar vida às canções do mais recente disco. Hammer, que abre tanto o CD quanto a apresentação, é entoada com raiva e com catarse, sentimentos que tornaram-se padrões para a marca da cantora.

Na sequência, uma versão encurtada de Royals, a sensação que apresentou sua assinatura para o mundo quase quinze anos atrás, é gritada a todos pulmões pela plateia, tão fiel e tão à vontade na presença de sua artista favorita.
Na quarta passagem pelo Brasil, Lorde voltou mais enérgica, combinando com os visuais, as capas, os singles e a vibe de Virgin, um disco que desnuda as predisposições da indústria e trata de temas como distúrbios de imagem, de gênero e de personalidade.

Alternando as músicas do projeto recente com os mais diversos sucessos do Pure Heroine e do Melodrama, Lorde reinterpreta seu eu do passado para as lentes do presente, e dá novo fôlego aos suplícios juvenis de Buzzcut Season, Team e Supercut, hinos de sua discografia que, na turnê de Virgin, são encenados com props.
Um ventilador gigantesco refresca a cantora, e mais tarde, uma esteira é usada para que os demônios do término sejam exorcizados com o esforço e o suor do movimento. Acompanhada de dançarinos que fazem mais do que se mover de um lado para o outro do palco, Lorde conta uma história repleta de ousadas interpretações de si mesma.

Shapeshifter, tirada da setlist de outros países da América Latina nos shows recentes, é cantada por Lorde no Brasil, com a parafernalha de uma chapa de raio-x distorcendo as imagens do telão e, unida à letra metamórfica da canção, exibindo com detalhes as entranhas de sua intérprete e de nós, tão ansiosos em cantar cada estrofe. A catarse de Lorde tornou-se conhecida e esperada, mas diferente dos momentos que marcaram o Popload 2018 e o Primavera Sound 2022, ela deixou a conversa honesta e sincera com toques político-sociais no passado, desta vez desatando a falar sobre o passar dos anos e como a idade dela é refletida, também, naqueles que a acompanham e comumente compartilham das experiências.
Antes de Liability, ela se senta à beira do palco e assegura: tudo bem chorar, sentir todas as emoções e crescer à partir das rupturas. No papo, Lorde esqueceu da passagem pelo Brasil com a turnê do Solar Power no apoteótico show de 2022, quando convidou Phoebe Bridgers para um dueto sensorial e pulou, loira e de vermelho sangue, ao som de Ribs. A gafe é perdoada pelo que vem a seguir, com a cantora encerrando o espetáculo com três socos poderosíssimos.

Green Light saiu dos pulmões do Autódromo de Interlagos diretamente para a estratosfera, com as cores e as dores de uma rave eletrônica servindo de epicentro para a mensagem do single. David, cantada por uma Lorde desfilando pela grade com uma camisa fluorescente que cega o telão e dá a impressão de um anjo chegando para tocar e tranquilizar humanos, é o ponto de desfecho emocional contido do plano dela.
E Ribs, performada num palco secundário, muito mais próximo da audiência, é o único encerramento possível para tamanha guerra de emoções, vulnerabilidade e controle. Visivelmente estupefata e em transe, Lorde troca a concepção de tristeza da música e reinterpreta-a com euforia e saudade.
Religiosamente, Lorde pisa no Brasil num intervalo de quatro anos, desde que era adolescente e rejeitava a cultura da riqueza e das avarias, depois quando quebrou o coração e, mais tarde, ao enxergar no astro-rei uma bússola para a felicidade. Ao compor canções tão viscerais (Broken Glass, Current Affairs, If She Could See Me Now, só citando exemplos do disco recente), a artista espelha o âmago para os fãs, tornando esse encontro raro e fortuito numa possibilidade de extravasar qualquer sensação negativa ou, também, potencializar as positivas. Lorde é gente como a gente e o show do Lollapalooza só estreitou os laços.


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