Contém spoilers sobre a temporada final de Hacks
Quando Hacks estreou em 2021, a impressão era de ser uma comédia aparentemente simples, ainda que eficaz, centrada em Deborah Vance (Jean Smart) e Ava Daniels (Hannah Einbinder), duas mulheres separadas por décadas, valores, referências culturais e formas quase opostas de existir no mundo. Uma lendária comediante em pós-apogeu criativo e uma jovem roteirista talentosa, mas exilada de Hollywood, obrigadas a trabalhar juntas. Entre os conflitos óbvios que aconteceram devido a aparente incompatibilidade das protagonistas, decorridas cinco temporadas, essa premissa sucessivamente deu origem a uma das melhores séries do gênero na televisão, com um desfecho à altura do que construiu até então.
Hacks, criada por Lucia Aniello, Paul W. Downs e Jen Statsky, construiu sua identidade justamente na fricção entre suas protagonistas, atravessada por insultos, disputas de poder e ressentimento de duas pessoas que discordam de absolutamente tudo. A graça da série sempre esteve nesse desentendimento constante, interposto por uma admiração em comum que nenhuma conseguia admitir ter, sem algum grau de cinismo. Na temporada final, contudo, é cedido espaço à confiança.

Depois de ler os obituários publicados após a notícia falsa sobre sua morte, Deborah passa a temporada confrontando o legado que construiu em vida e questionando como será lembrada. Afetada por tentativas frequentes de controle – de um ex-marido que recebeu créditos por sua criação no início da carreira, da indústria que prosseguiu a enquadrá-la como ultrapassada e de executivos que tentaram moldar sua voz quando ela finalmente conquistou espaço como primeira apresentadora mulher de um late night show –, ela inicia a tentativa de reescrever, em seus próprios termos, uma história melhor para ela, junto de Ava e sua equipe. Mas não se engane, tudo é absurdo! Humor puro de primeiríssima qualidade!

À volta dessa jornada, a temporada funciona como uma espécie de despedida expandida de Hacks. Jimmy (Paul W. Downs) e Kayla (Megan Stalter) consolidam sua posição como uma das grandes duplas da televisão recente, transformando uma dinâmica inicialmente baseada em alívio cômico em uma relação estranhamente afetuosa – eles são irresistíveis!
As participações especiais também continuam impecáveis e malucas, sempre conscientes do tom que Hacks construiu. No episódio Number One Fan, Ann Dowd aparece vestida como uma alienígena azul numa convenção de ficção científica, e Renee O’Connor, a querida Gabrielle de Xena: A Princesa Guerreira, interage com Jimmy; em Montecito, Cherry Jones e Leslie Bibb interpretam um power couple lésbico swingueiro de Los Angeles; além de Lauren Weedman – que é particularmente a minha personagem secundária favorita –, como Mayor Jo.

Entre retornos de personagens queridos e participações inesperadas, existe uma sensação constante de despedida coletiva, como se a série estivesse reunindo, pela última vez, todas as pessoas responsáveis por construir esse universo. E é no episódio final que Hacks abandona qualquer hesitação. Diagnosticada com um câncer que se espalhou após uma cirurgia de remoção, Deborah, que passou a temporada inteira reescrevendo o próprio legado, naturalmente decide não prosseguir com o tratamento de quimioterapia, convidando Ava para acompanhá-la à Suíça para um suicídio assistido.
Deborah, então, recusa abrir mão do controle no fim, e Ava, se vê confrontada com seus princípios. Alguém que sempre defendeu pautas identitárias, comprometida com a liberdade individual, ela descobre que essas convicções são abaladas quando a pessoa em questão é alguém que ama. Ambas se contradizem, tentam convencer a outra sobre a opinião pessoal e nenhuma sai ilesa. É uma conversa desesperada entre duas pessoas que não conseguem imaginar um mundo sem a outra. A parceria artística e o romance que existe entre Deborah e Ava não partem da concordância, pelo contrário, é algo mais complicado, difícil de caracterizar.

Era inevitável que Deborah e Ava terminassem juntas, não no sentido convencional que muitos fãs projetaram sobre as protagonistas – e aqui me incluo –, mas juntas da única forma que Hacks sempre entendeu esse vínculo: escrevendo, criando e tentando encontrar uma piada melhor.
Há algo quase perfeito no fato da série terminar dessa maneira. Depois de uma temporada inteira refletindo sobre legado, envelhecimento e morte, a resposta final não surge através de uma grande revelação emocional, surge através de uma piada. Aquele momento resume tudo que Deborah e Ava representam uma para a outra. Elas não apenas se amam, são pessoas que reorganizam o pensamento uma da outra, que deslocam perspectivas, que tornam o trabalho uma da outra melhor e, por extensão, tornam a vida uma da outra maior. E talvez, essa seja uma justificativa suficiente para continuar vivendo.


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