Feito Pipa descomplica uma porção de nós familiares

Candidato do Brasil ao Oscar 2027 foi premiado pela audiência da 50ª Mostra de São Paulo

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A rotina de Gugu (Yuri Gomes) e da avó Dilma (Teca Pereira) é, ao mesmo tempo, comum e extraordinária. No interior do Ceará, a casinha ganha trilha sonora constante, com direito a rodopios e ensaios dos mais variados números de dança. A maquiagem é objeto comum para qualquer ocasião, especialmente o pagode onde rola solta a diversão. Feito Pipa, portanto, adentra na simplicidade de uma existência sem rótulos.

A feminilidade de Gugu é traço menor em sua personalidade, que mistura o amor pelas divas com a paixão pelo futebol. Na hora de comemorar um pênalti convertido, só mesmo um espacate dá conta do extravaso de emoções. O diretor Allan Deberton, com roteiro de André Araújo, concede o olhar naturalista às interpretações da dupla protagonista, numa relação de cumplicidade. 

O cenário de uma pequena cidade cercada pela represa que naufragou a antiga civilização demonstra na carne a saudade de Dilma da filha, morta para mandar uma mensagem de opressão ao povo (Foto: Paris Filmes)

Quando Dilma dá sinais de que a memória não é mais a mesma, cabe a Gugu, órfão de mãe morta e de pai praticamente ausente, resolver a situação da melhor maneira que consegue: com a ajuda dos coleguinhas da escola e da sorte. Pendendo o tom soturno de um homem sufocado por preconceitos velados, Lázaro Ramos interpreta Batista, o genitor do garoto-prodígio.

Da batida homofobia que guia obras sobre amadurecimento queer desde que o Cinema é Cinema, Feito Pipa prefere jogar sua energia em outro campo, a do emocionante vínculo entre avó e neto, neste sacrifício quase edipiano de enxergar na idosa uma mãe que lhe foi rasgada do peito ainda na primeira infância. Teca Pereira, sublime, domina os tons de Dilma, do flerte cômico com o personagem de Carlos Francisco ao arrebatador em declínio mental.

Na trilha sonora, Allan Deberton usa canções para guiar a história: de Cyndi Lauper à Pabllo Vittar, Gugu e Dilma atravessam o mundo por meio das palavras cantadas (Foto: Paris Filmes)

Deberton, sábio, não espetaculariza o mal de Alzheimer, optando por um retrato de singelas pinceladas de dor. No humor, a tensão é quebrada e processada. Na raiva, todos os sentimentos avessos à felicidade ganham vazão e se soltam de seus prescritores. O brinquedo infantil que dá título ao filme aparece vez ou outra, primeiro em pleno gozo, com o vento balançando varetas e papel; mais tarde, enroscada num galho afiado, a pipa pende inerte.

Premiado pela audiência na 50ª Mostra de São Paulo, Feito Pipa acumula troféus ao redor do mundo, incluindo no Festival de Gramado. Em Berlim, saiu com dois, o Urso de Cristal e o Grande Prêmio do Júri Internacional na seção Generation Kplus – fato que propulsionou a campanha do longa para representar o Brasil no Oscar 2027 de Melhor Filme Internacional. Após dois anos de êxitos nacionais na festa da Academia, o longa descomplicado de Allan Deberton tem difícil missão, mas se a alma perseverante de Gugu é exemplo de algo, o futuro poderá até sorrir. 

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