Pessoas saudáveis estão realmente vivas? Ter saúde nos dá a impressão de que sempre vamos ter tempo, então atravessamos os dias sem muita atenção àqueles que nos rodeiam. Há sempre uma tarefa mais urgente e a falsa certeza de que haverá um amanhã. Talvez estejam mais vivas duas mulheres que se encontram por acaso num parque de Paris no novo filme de Ryusuke Hamaguchi, uma delas com câncer terminal e a outra à frente do Jardim da Liberdade, uma casa de repouso para idosos com demência. Ao contrapor uma multidão apressada a elas, O Sentido da Vida (2026) separa aqueles em que a vida se baseia na medida produtivista de tempo dos que são empurrados para as margens por já não terem mais seu tempo à venda.
Primeiro longa do diretor falado majoritariamente em francês, o filme estreou na Competição Oficial de Cannes sob mais de dez minutos de aplausos e saiu de lá com o prêmio de Melhor Atriz dividido entre as protagonistas, o que fez de Tao Okamoto a primeira japonesa a recebê-lo. Na 50ª Mostra de Cinema Internacional em São Paulo, lotou as salas e levou o Prêmio do Público de Melhor Ficção Internacional.

Marie-Lou, vivida por Virginie Efira, dirige o Jardim da Liberdade e tenta convencer a equipe a adotar a Humanitude, método organizado em quatro pilares — o olhar, a palavra, o toque e a verticalidade — que exige olhar a pessoa nos olhos, conversar com ela ainda que não haja respostas, tocar com calma e ajudá-la a ficar de pé sempre que possível, mas não há tempo que pague, ainda que isso tome mais tempo e recursos da instituição. O edifício em que está o Jardim da Liberdade também carrega o histórico de já ter sido um hospital psiquiátrico, o que ajuda a entender por que a peça de Mari atravessa Marie-Lou.

Diretora de teatro, Mari, interpretada por Tao Okamoto, está em cartaz com “De Perto Ninguém É Normal”, monólogo encenado pelo ator Gorō Kiyomiya (Kyōzō Nagatsuka), sobre Franco Basaglia, o psiquiatra cuja luta convenceu a Itália a abrir as portas de seus hospícios e que fez a mesma pergunta que abre este texto. Duas mulheres, então, estão de lados diferentes da pergunta: o que fazemos com quem a sociedade não enxerga?
O roteiro, escrito por Hamaguchi ao lado de Léa Le Dimna, nasceu das cartas que a filósofa Makiko Miyano e a antropóloga médica Maho Isono trocaram enquanto Miyano enfrentava um câncer de mama em metástase. Miyano estudava Kuki Shūzō, filósofo japonês que pensou o acaso como aquilo que poderia não ter acontecido e via no encontro com o outro a forma mais concreta dessa contingência. Marie-Lou e Mari se conhecem por acaso, poderiam ter seguido cada uma o seu caminho, de modo que tudo o que vem depois nasce da decisão de levar esse acaso a sério. Mari, inclusive, já vive de tempo emprestado, porque os seis meses de vida que os médicos lhe deram terminaram há meio ano.
Até o fim, a chama da vida arde em seus corpos. Seus órgãos estão funcionando. Seus corpos estão quentes. E por menor que seja, pode-se sentir uma força na mão. É óbvio, mas até a morte eles continuam vivos. — Marie-Lou
No Japão, livro e filme se chamam Kyū ni guai ga waruku naru, algo como “piorar de repente”, a expressão com que os médicos avisaram Miyano de que o fim chegaria sem aviso. Os franceses ficaram com Soudain, e os falantes de inglês com All of a Sudden, títulos que guardam a mesma ameaça. O título brasileiro, O Sentido da Vida, no entanto, troca o instante pelo todo e, à primeira vista, soa grandioso demais para um filme tão avesso a certezas.
Com o tempo, porém, a tradução é na verdade muito generosa. Sentido também é direção, e no plural é como percebemos o mundo. Os mesmos caminhos pelos quais a Humanitude opera, método criado na França por Yves Gineste e Rosette Marescotti e difundido no Japão, ponte entre os dois países que a própria obra atravessa. Essa paciência no método de cuidar do próximo também está na forma do filme ao ninguém interpretar a velhice, é uma casa de repouso real e o diretor concede a essas pessoas o mesmo cuidado que dedica às protagonistas.
A fotografia de Alan Guichaoua segura os planos, deixando que as cenas terminem quando terminarem, e só abre a paisagem quando Mari leva Marie-Lou a Kyoto, sua cidade natal, onde as duas dividem um lámen no alto de um morro, diante de um vale, o que ilustrou uma das versões do pôster. A montagem de Azusa Yamazaki e Minori Akimoto e a trilha de Samuel Andreyev são excelentes e complementares na consciência de que não há uma disputa a ser feita com tudo que já estamos concebendo.

Numa dessas madrugadas juntas, na copa dos funcionários discutindo sobre os problemas financeiros da casa de repouso, Mari pega um quadro branco e desenha para Marie-Lou como o capitalismo precisa sempre de algum território novo para ocupar, seja uma floresta ou o descanso de quem trabalha. O raciocínio não tem nada de inédito e, ainda assim, é tão claro e dinâmico que ficamos com ele pelo resto da sessão.
Em O Mal Não Existe (2023), o diretor já tinha tratado disso com uma empresa de Tóquio querendo erguer um resort no vilarejo de Mizubiki, um território com bosque de cervos e nascentes. E em O Sentido da Vida esse lado de fora também tem gente dentro.

É nesse ponto que a enfermeira-chefe Sophie, vivida por Marie Bunel, é a consciência incômoda do filme entre o humano e o financeiro. A personagem pelo contrário do que parece não é uma burocrata insensível, na realidade ela conhece cada morador pelo nome e sabe o que a rotina de uma equipe sobrecarregada faz com quem cuida – principalmente por já ter trabalhado lá enquanto ainda era um hospital psiquiátrico. Sua objeção à Humanitude não é que olhar nos olhos ou tocar com calma sejam vistos com aversão, mas que, sem recursos, essas exigências se convertem em mais uma forma de exploração aos trabalhadores, transferindo as consequências aos profissionais sem medir os riscos que isso pode causar.
Tomoki, por outro lado, encarna o risco a todo momento. Vivido por Kodai Kurosaki, neto de Gorō, é um garoto com autismo severo, como o descreve o avô, e acompanha a companhia de teatro, participa das apresentações da forma que prefere e tem comportamento semelhante a alguns dos residentes da casa de repouso. Quando, ao fim, a peça de Mari chega ao pátio do Jardim da Liberdade, diante de uma plateia de idosos, a distância entre o trabalho delas some.

Talvez por ser jovem, Tomoki tenha mais liberdade de se arriscar. Os idosos, sob a lógica que os protege de tudo, raramente têm esse direito com suas iniciativas contidas antes de se tornarem qualquer acidente. O método que o filme defende não tenta de forma alguma eliminar o risco, mas que possam devolvê-lo em doses que ainda caibam dentro de uma vida. Uma existência sem nenhum risco de queda é também uma existência em que ninguém mais se levanta.

Tudo aqui, pela excelência e delicadeza, me fez pensar em Como Ganhar Milhões Antes que Vovó Morra (2024), primeiro filme tailandês a entrar na pré-lista do Oscar de Filme Internacional. Lá o protagonista decide cuidar da avó, diagnosticada com câncer em estágio avançado, de olho na casa que ela pode deixar como herança. A convivência entre eles começa como um meio para um fim, até que tudo se desfaz ao encontrarem um no outro alguém que não tinham se dado ao trabalho de conhecer. Os filmes partem do preço do cuidado, dentro de uma família em um e em uma instituição em outro. E encontram a saída em alguém que aceita perder — entre muitas aspas — tempo com quem está indo embora.
E para nós o tempo é uma linha contínua, para pacientes com Alzheimer são como linhas pontilhadas. E estes não são apenas pontos simples, porque todos eles evocam memórias que permanecem extremamente vívidas dentro deles. Todos os dias, eles viajam no tempo. — Marie-Lou
Pessoalmente, o filme me toca muito por ter tido que cuidar dos meus avós em seus últimos anos. Mas nenhuma temática geral que eu tenha visto teve tanto impacto quanto alguns detalhes que imagino sequer terem sido propositais no longa do Hamaguchi. Não sei se o diretor chegou a considerar que os pés não cobertos da Mari quando hospitalizada, por exemplo, poderiam tocar tão profundamente alguém pela simples saudade de voltar várias vezes para checar se seus pés estavam cobertos.

Já sensibilizado por tanto, a queda final, se é que podemos considerar um clímax, também foi um dos pontos mais espirituosos e bonitos de cada um desses 196 minutos. Ao perceberem um senhor que tropeçou, seus colegas se juntaram e aplicaram o que aprenderam durante a oficina da Mari com massagens em seus pés levantados. Ainda que não pudessem ter plena consciência do que estavam fazendo, seus sentimentos de cuidado estavam ali.
A peça final foi atravessada, assim como Tomoki fazia nos primeiros minutos do filme e assim como somos a todo momento em nosso mundo. Para os próximos residentes, fica a esperança prática de um método humano e nos tranquiliza saber que há pessoas que lutam pela dignidade e vida do próximo, e não há herança mais bela que Tao Okamoto e Virginie Efira pudessem ter interpretado. Tudo que faz a vida valer a pena ser vivida em qualquer tempo e em qualquer idade.


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