Shi (Sun Yang) é um designer de jogos que divide apartamento com Gao (Zhu Xin), seu colega de faculdade. Ele percebe, com muito custo, que Gao desapareceu e o que parecia sequer uma relação entre os dois se tornou uma obsessão. YY (Zhao Tian’ai), namorada de Gao, para de receber respostas no MMORPG que os dois frequentavam. Ao entrar no jogo em busca de pistas, Shi encontra YY, se passa por ele brevemente para saber mais sobre e a partir daí começa a reconstruir a vida do colega com mensagens, avatares e lembranças deixadas por outras pessoas. Primeiro longa de Dong Jie, o filme passou pela Semana da Crítica de Veneza, onde recebeu o prêmio de filme mais inovador da seção.
Shi chega a se passar por Gao no jogo para falar com YY até descobrirem que Gao morreu. Enquanto ela tenta compreender o namorado, Shi parece mais curioso do que abalado e talvez por isso nos distancie ainda mais da trama. Mesmo com ótimos aspectos técnicos como a forma como o filme trabalha imagem, som e montagem, o conteúdo peca no desenvolvimento da história e dos personagens. A fotografia de Li Zhong também é muito especial e minuciosa, alternando closes extremos com espaços urbanos chuvosos de Xangai, frente a ambientes virtuais. Os sons que imitam interfaces digitais também ajudam a construir esse universo, ao menos no começo são positivos e assinados por Guo Jingxi e Bai Xueying.

A casa virtual de Gao é um dos melhores exemplos do que poderia ter sido explorado. Decorada com fotos da infância, ela mostra a Shi um lado que nunca apareceu no apartamento que dividiam. É também uma oportunidade de apresentar algumas facetas de Gao à família, que não teve coragem de desligar o computador e encerrar sua sessão no jogo. Li Zhong já havia trabalhado com Dong Jie no curta Beijing Mushroom (2024), que também experimenta com a relação entre modelos virtuais e o mundo físico e novamente sustenta bem essa passagem entre espaços.
Como em After Yang (2021), de Kogonada, independentemente do resultado da busca ou das motivações dos personagens, são os rastros que encontramos no caminho que mais importam. Os vlogs e as histórias dos entregadores corroboram essa ideia ao mostrar uma rotina de pequenas felicidades, como guardar as particularidades dos pedidos dos clientes como souvenirs. Gao também ajudava a encontrar bugs no jogo e ainda que não pareça grande coisa, significam especialmente isso ao fim.
Nesse sentido, a tecnologia assume um papel dúbio entre ocupar o espaço de relações humanas e permitir que as pessoas se expressem de formas que não conseguiriam fora dos aparelhos. Muitas vezes só enxergamos o lado em que ela sobrepõe negativamente essas conexões, mas não dissociá-la dessa posição também pode ser um erro. É o caso da cena em que Shi troca mensagens pelo WeChat com a irmã de Gao e ela lhe conta, ainda olhando em seus olhos, o que aconteceu, sem que sua mãe os escute e sofra novamente. Apesar de acertos interessantes como esse, o roteiro não acompanha esses rápidos lampejos de criatividade.

Os sons que pareciam interessantes no início também se tornam repetitivos. O experimentalismo perde a graça e passa a ser irritante, como na vibração de toda tela ao receber notificações no celular, por exemplo. Falta progressão e envolvimento emocional para que as ideias encontrem um sentido maior. Ainda assim, a relação com o MMORPG consegue render um encerramento tocante.
Ao dedicar seu tempo a encontrar falhas e melhorar aquele mundo virtual, Gao deixou uma contribuição que continua mesmo depois de sua morte. Shi então escreve aos desenvolvedores para que, se possível, o eternizem de alguma forma em alguma homenagem. E em um último e belo ato descobrimos que seu avatar foi transformado em um NPC que guia outros jogadores.
O luto assume formas diferentes desde o início do filme e, embora a relativa indiferença de Shi dificulte sentir o peso da perda de alguém com quem dividia a casa, ao fim o gesto de desligar o computador ajuda a dar forma a uma ausência que até então parecia pouco expressiva. Também nos lembra de como as pequenas bondades que praticamos continuam reverberando quando já não estamos aqui.


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