No altar da Televisão, Yellowjackets fica devendo oferendas

Saltos temporais e mortes repentinas marcam o penúltimo ano da série

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Cena da terceira temporada de Yellowjackets. Um grupo de adolescentes está reunido em um semi-círculo, dentro da clareira de uma floresta, à noite. Elas usam tecidos brancos sobre o corpo e capuzes marrons. Há apenas garotas, com exceção de Travis (Kevin Alves), quase ao fim da linha, à direita. No centro da formação, Lottie (Courtney Eaton) olha para o alto assim como suas colegas. Ao redor delas, vemos estruturas tribais como fogueiras, cercados e bancos e, ao fundo, o resto da floresta escura.

Yellowjackets sempre foi perseguida pela própria premissa. A série, criada por Ashley Lyle e Bart Nickerson, abriu em novembro de 2021 com a imagem perturbadora de um grupo de garotas realizando atos canibais, seus rostos ocultos por máscaras e outros adereços tribais. Apesar da aparência selvagem, todas se curvam perante a autoridade de uma delas, aquela que usa uma galhada de cervo como coroa, decorada com um véu pálido, criando instantaneamente um mistério ao redor de sua identidade.

Da mesma maneira, a série sempre pareceu florescer entre expectativa e resolução, no espaço estreito entre a narrativa e as respostas para as perguntas criadas pela audiência. Como uma flor brotando do concreto, sua primeira temporada foi comparada com o apelo de obras como Lost e O senhor das moscas, um início forte para qualquer produção, quanto mais um seriado original na era do streaming.

Hoje, depois de quatro anos e 10 indicações ao Emmy, a série do Showtime, exibida no Brasil pela Paramount+, ocupa um espaço um tanto diferente na percepção da audiência. Após uma segunda temporada bem recebida, mas longe da unanimidade da primeira, Yellowjackets sofre para equilibrar todos os elementos tão bem apresentados em seu episódio piloto. Com apenas dez capítulos, sua terceira temporada parece um exemplo claro de como a mentalidade de televisão de prestígio pode, às vezes, ser detrimental ao andamento de uma narrativa.

Texto alternativo: Cena da terceira temporada de Yellowjackets. As adolescentes se reúnem na floresta para planejar uma execução. Tai (Jasmin Savoy Brown) segura um rifle com as mãos, usando um edredom cinzento como túnica por cima de um moletom escuro. Tai é uma garota negra de cabelos encaracolados, cobertos pelo capuz. Ao seu lado, sua namorada, Van (Liv Hewson) olha para o seu prisioneiro, à direita. Van é uma garota caucasiana de cabelos ruivos longos, com uma cicatriz grande na face esquerda, usando uma camisa sem mangas suja por cima de uma camiseta branca e calças escuras. Atrás delas, podemos ver Natalie (Sophie Thatcher), Shauna (Sophie Nélisse) e Melissa (Jenna Burgess). Shauna e Melissa usam roupas normais e sujas, olhando severamente para a direita. Natalie olha para o lado oposto, com a mão esquerda cobrindo seu rosto, usando uma túnica de tecido vermelho. Outras garotas se reúnem ali perto, olhando com atenção. Atrás, no canto direito e distante de todas, Misty (Samantha Hanratty) olha para elas com lágrimas nos olhos.
Wilderness chic (Foto: Showtime)

Com o fim do inverno e a erradicação do abrigo provisório, as garotas presas na linha do tempo de 1996 parecem ter não apenas sobrevivido, mas florescido. Com a coroação de Nat (Sophie Thatcher) ao final da temporada anterior, o cenário está montado para uma disputa política pela liderança do grupo, que agora reproduz os inícios de uma civilização pastoral graças às habilidades de Akilah (Nia Sondaya) com os animais da floresta. Lottie (Courtney Eaton), a sacerdotisa renegada, também se satisfaz com um papel de conselheira, se atentando para os “desejos” da floresta ao invés de ser idolatrada como mártir.

Mesmo com tantos avanços, Shauna (Sophie Nélisse) ainda guarda rancor por não ter sido eleita por Lottie como a líder, apesar de seu papel essencial para a sobrevivência do grupo como a “açougueira”. Sua raiva animalesca à torna alvo irresistível da adoração de Melissa (Jenna Burgess), outra integrante do grupo reserva que recebe mais destaque no terceiro ano da produção. Mais até do que Taissa (Jasmin Savoy Brown) e Van (Liv Hewson), que continuam à serem mais exploradas na imaginação do público do que na própria série.

O treinador Scott (Steven Krueger) continua seu exílio após ter aparentemente incendiado a cabana assombrada numa tentativa pífia de eutanasiar as meninas após ser testemunha de seu canibalismo voluntário. A busca por seu paradeiro é um dos catalisadores da narrativa dessa linha temporal, um dos objetivos principais das vingativas Yellowjackets, mas secretamente sabotado por sua própria líder, que não está completamente convencida da culpa de seu antigo treinador.

Cena da terceira temporada de Yellowjackets. Da direita para a esquerda, Tai (Tawny Cypress), Van (Lauren Ambrose), Jeff (Warren Kole) e Shauna (Melanie Lynskey) se sentam no banco de uma igreja bem iluminada, acompanhando o velório de alguém. Tai é uma mulher negra de cabelos encaracolados e longos, usando um paletó escuro com botões dourados. Van é uma mulher caucasiana de cabelos ruivos e longos com um paletó escuro por cima de uma camisa branca abotoada. Jeff é um homem caucasiano de cabelos loiros e curtos, usando um paletó escuro e uma gravata verde escura. Shauna é uma mulher caucasiana de cabelos negros, usando um vestido preto com uma corrente dourada no pescoço. A igreja é bem iluminada, com velas vermelhas acesas ao lado das janelas abertas. Atrás do grupo, duas outras mulheres se sentam sozinhas em bancos mais afastados.
A ausência de Natalie (Juliette Lewis) na linha do tempo atual é duramente sentida – principalmente pela pessoa que ela mais odiava (Foto: Showtime)

Enquanto isso, no presente, as sobreviventes tentam se recuperar da morte de Nat (Juliette Lewis), com variados graus de sucesso. Misty (Christina Ricci) sofre pela culpa de ter sido a responsável por seu assassinato, assumindo uma persona ainda mais instável como forma de recuperar o controle, começando a se questionar se o resto de seu antigo time de futebol a considera como amiga tanto quanto ela as considera. Taissa (Tawny Cypress), agora divorciada de sua antiga família (não completamente contra a sua vontade, diga-se de passagem), se foca em tornar os últimos dias de Van (Lauren Ambrose) os mais confortáveis possíveis.

Do outro lado, Shauna (Melanie Lynskey) tenta voltar à normalidade relativa do lar, ignorando os apelos de Callie (Sarah Desjardins) para adentrar os acontecimentos de seu passado, até que a aparição repentina de Lottie (Simone Kessell) força sua mão, levando seus dois mundos à colidirem num cenário mais caseiro do que selvagem. Quando uma nova evidência dos crimes das Yellowjackets surge para assombrá-la, ela volta a se convencer de que há alguém por trás dos eventos atuais buscando a sua destruição. E talvez realmente haja.

Cena da terceira temporada de Yellowjackets. Shauna (Sophie Nélisse) ameaça Melissa (Jenna Burgess) com uma faca, pressionando-a contra o tronco de uma árvore. Shauna é uma garota caucasiana de cabelos castanhos e longos, usando uma camisa xadrez vermelha de mangas longas, segurando uma faca com a mão direita, pressionando-a contra o pescoço da outra. Melissa é uma garota caucasiana de cabelos loiros e longos, usando uma camiseta de mangas curtas clara e listrada horizontalmente, se inclinando para longe de Shauna, que a olha com uma expressão irada. Atrás delas, o fundo de uma floresta bem iluminada e fora de foco.
Melissa está exatamente onde quer (Foto: Showtime)

A estreia da terceira temporada de Yellowjackets passa quase a ideia de um soft reboot. Apesar de, assim como a segunda, começar com um salto temporal para algum momento no futuro da linha do tempo de 1996, a mudança entre estações é tão súbita que visualmente parece uma série completamente diferente. No futuro, essa transição é menos impactante, mas um sinal claro de que o seriado busca se desprender de vários de seus elementos formais.

No entanto, ainda presa nas amarras da televisão de prestígio, ela precisa ocupar tempo precioso de seus 10 capítulos lidando com tramas que obviamente não interessam mais seus roteiristas. Coisas que antes poderiam ter sido exploradas em episódios menos cruciais recebem apenas uma cena ou outra para ter o seu significado extraído e logo marcado como resolvido. Nada marca tanto essa abordagem quanto o tratamento dado à Simone (Rukiya Bernard), ex-mulher de Taissa e Sammy (Aideen Stox), seu filho adotado, que nessa temporada inteira só aparecem uma vez para avançar a trama da breve senadora de Nova Jérsei.

Mas é apenas um sinal do verdadeiro problema que a série encara no terceiro ano: não saber o que fazer com as peças que já estão em jogo. Se você prestar atenção o suficiente nos mistérios introduzidos, um padrão começa a se formar, de que a narrativa está descartando brutalmente as partes que não vê mais utilidade, usando-as para dar algum movimento à trama atual, mas desperdiçando grande parte de seu potencial no processo.

Cena da terceira temporada de Yellowjackets. Um comercial de televisão mostrando um homem caucasiano de cabelos negros e longos tomando um sorvete de casquinha de flocos em uma sorveteria bem iluminada e fora de foco. O homem não possuí olhos sob as pálpebras.
Apesar de revelar cada vez mais respostas, a série ainda guarda suas cartas (Foto: Showtime)

A morte de Lottie na linha do tempo atual é um dos momentos chaves da temporada, informando não só os caminhos das personagens, mas dando à audiência um mistério novo para se agarrar. O problema é que tanto a resolução quanto os motivos dessa morte súbita são óbvios para qualquer um que esteja prestando atenção. Não é difícil adivinhar que a personagem de Lottie anseia por um final sacrificial e que, baseada em suas cenas anteriores com Callie, ela à enxerga como um tipo de sucessora espiritual de sua mãe, a açougueira. Fato é que, em meio à tantas personagens para desenvolver, a série não vê mais utilidade em Lottie, sacrificando-a para o telespectador na esperança de que isso vá nos aplacar por mais alguns episódios, esperando o momento em que sua morte vá significar alguma coisa.

No altar da televisão, Yellowjackets parece desesperada por achar um único momento que irá redespertar o espírito da primeira temporada, continuando a fornecer reviravoltas e choques, mas sem o glamour daquele primeiro encontro. A revelação de uma nova sobrevivente nos dias atuais não chega com a mesma força daquele “Quem diabos é Lottie Matthews?” de tanto tempo atrás.

Apesar de todos termos uma preferência, o fato de Yellowjackets ter duas linhas temporais acontecendo paralelamente é um de seus elementos cruciais que a separa de outras produções,  impedindo que ela seja rotulada como apenas outro clone de Lost. Quer você prefira a selvageria jovial de 1996 ou as proverbiais mães do presente, a fricção entre ambas as narrativas é o que faz da série ser o que é. Na terceira temporada, a revelação de que elas estavam mais perto do que parecia de serem salvas é um dos grandes momentos que, como de costume, são revelados no final do episódio, forçando-nos à teorizar por uma semana até que o capítulo seguinte apresente suas ramificações.

Cena da terceira temporada de Yellowjackets. Shauna (Melanie Lynskey) está sobre Melissa (Hilary Swank), forçando-a a comer um pedaço de sua própria carne, que ela mordeu de seu braço direito. Shauna é uma mulher caucasiana de cabelos escuros, usando uma camisa xadrez clara sobre uma camiseta escura e calças jeans. Melissa é uma mulher caucasiana de cabelos loiros e longos, usando uma regata preta. Atrás delas, uma mesa de jantar com três cadeiras de madeira dispostas ao lado e, à direita, um arco que dá para uma sala de estar.
Que fome (Foto: Showtime)

A dupla de biólogos que surgem na segunda metade da temporada, liderados por um Joel McHale bastante desinteressado, é o grande destaque da temporada, introduzindo o elemento do mundo exterior que volta a separar as Yellowjackets mais uma vez, delineando o contorno das personagens e o que elas irão se tornar. Shauna, Lottie e Taissa vêem a possibilidade de voltar para casa praticamente como uma sentença de morte, uma aniquilação da liberdade conquistado à duras penas ao longo de sua estadia na imensidão florestal. Conforme a série se afasta dos elementos sobrenaturais, mais da psicologia de suas personagens começa a assumir papel central da trama, criando algumas das personagens femininas queers mais interessantes da televisão recente.

Na linha do tempo presente, a revelação da Melissa adulta de Hilary Swank falha em causar o mesmo assombro que os acontecimentos passados, mas a antiga situationship de Shauna consegue criar o espaço necessário para que os piores e mais deliciosos impulsos da personagens entrem em foco. Melanie Lynskey continua sendo o coração e alma da série, com seu núcleo familiar sendo consistentemente a parte mais interessante da história atual, dando mais ênfase ao deturpado sonho americano em que ela se encontra presa.

Cena da terceira temporada de Yellowjackets. Natalie (Sophie Thatcher) segura um rádio, pedindo por ajuda no topo de uma montanha nevada. Ela é uma garota caucasiana de cabelos escuros com pontas loiras, usando um casaco de pele quente e um tecido preto ao redor da testa, segurando seus cabelos. Ela chora de emoção ao chamar por ajuda em meio à imensidão da natureza, coberta por neve.
A quarta temporada da série irá lidar com a volta do time à civilização (Foto: Showtime)

Se a inspiração original de Yellowjackets foi refutar a ideia de que se “O senhor das moscas” acontecesse com um grupo de meninas a trama inteira se resolveria tranquilamente, a terceira temporada da série é um de seus capítulos mais exemplares. Se concentrando mais do que nunca na vida interior e os desejos sombrios de suas personagens, o texto acaba por vezes introduzindo mais do que consegue abocanhar, mas suas ambições nem por isso deixam de ser louváveis.

Como seriado, no entanto, a produção está longe de seu primeiro ano áureo, onde poderíamos ver surgindo um possível grande fenômeno da televisão. Simplesmente não há capítulos o suficiente para suportar os elementos e interesses de seus criadores, e é pouco provável que isso mude com a sua quarta e última temporada, prevista para estrear em novembro deste ano. O modelo de oito episódios parece lentamente ter sufocado a potência de sua premissa e nos condenado a mais uma série apenas boa que poderia ter sido muito mais.

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