Ler um livro de contos sobre despedidas e permanências nos obriga a olhar para dentro de nós mesmos, querendo ou não. Ir também é ficar (2019), organizado por Vanessa Brunt, não é muito conhecido, está disponível no Kindle Unlimited e tinha uma última cópia física disponível na Amazon para compra. Acredito que estava me esperando há cinco anos, quando coloquei na minha lista de próximas leituras. Já quase comprei diversas vezes, quase fui presenteado com ele, já sentei para comprá-lo e simplesmente esqueci seu nome e não fazia ideia de como descrevê-lo ao Google para achar.
Leia mais: Ir também é ficar: chegadas, partidas e o que sobra de nós mesmosEsse ano senti que precisava comprar, implorei ao meu amigo que quase me presenteou que tentasse lembrar o nome, ou se chegou a pesquisar no histórico do navegador, mas em algumas horas o título simplesmente o veio a mente, até mesmo antes da minha. E no fundo eu sabia que o livro que tinha me encontrado, que ele não iria me decepcionar porque por pior que fosse, principalmente por já ter tido história demais com ele.

O primeiro conto que dá título à obra, Ir Também é Ficar, de Vanessa Brunt, ocupa cerca de sessenta páginas, uma dimensão bem maior que os outros. Felizmente é uma distopia bem leve de ser lida e com bom ritmo, situada por volta de 2040 em um mundo em que relações afetivas duradouras estão pura e simplesmente proibidas. E logicamente acompanhamos essas regras sendo quebradas.
As relações dos personagens não nos prendem tanto quanto imagino que foram criadas para tal, no entanto, é uma construção curiosa e sem fios soltos de todo um mundo que nos deixam refém. São muitas tramas e acontecimentos duradouros que não parecem caber em tão pouco tempo, mas ainda nos surpreendem com uma ótima progressão e interessantíssimas reviravoltas. Ainda que consigamos apenas em partes o que gostaríamos em uma história de amor tão bela quanto a construída aqui, todo caminho valeu a pena.
Depois de uma leitura de sessenta páginas, talvez pela temática e densidade nos seja exigido um fôlego maior e até uma pausa antes de se avançar para os próximos contos. É inevitável pensarmos como poderíamos ler outros dessa mesma qualidade em espaço tão pequeno, considerando que ainda faltam cinco contos para o final, é como se tivéssemos assistido um episódio de Black Mirror (2011), daqueles que vamos ao X comentar, e ainda tivéssemos mais 5 episódios de Solos (2021) para assistir. Não dá tanta coragem.

Ainda assim, e felizmente, seguimos para Não Esqueça a Nanquim Vermelha de Elizza Barreto, que traz a sensação oposta. São apenas dez páginas e a vontade que fica é a de ler muito mais. A narrativa é uma conversa de aeroporto, escrita com muita precisão. Tem o ritmo exato de quando nos sentamos num café do terminal e ficamos ouvindo a mesa do lado, com todas as interrupções que acontecem na vida real.
O texto aborda o poliamor sem se transformar numa cartilha, sequer menciona o termo, na verdade, mas resume um afeto livre sem qualquer complicação: “Eu me apaixonei primeiro, eles tiveram um filho primeiro. Na vida, tudo tem uma primeira vez.” Poderia colocar o conto inteiro aqui de tão surpreendentemente bela a forma com que descreveram uma conversa tão insignificante.

No terceiro conto, Um Passo: Toda uma Vida, de Evanilton Gonçalves, encontra-se uma grandeza em raros momentos cotidianos que prestamos atenção. Em um fim de turno de uma lanchonete, mesmo com o cansaço do trabalho, todo tempo livre quando dividido com quem nos faz bem, acaba por ser a nossa salvação. É um texto muito acolhedor, que nos lembra o quanto estes pequenos momentos nos tiram da pressa e do impiedoso capitalismo. De certa forma, estudos sociais seguem sendo relevantes durante todos os contos, mesmo que nessa transição do terceiro ao quarto seja mais perceptível.

Em Amor de Puta, de Matheus Peleteiro, não temos tanto essa tranquilidade quanto no conto anterior. A história coloca o recorte de classe bem no centro da paixão entre uma mulher marginalizada e um homem rico, com a vida feita que se encontram e encontram um no outro momentos em que se complementam. Ainda que passem a descobrir que o melhor modelo não é que façam parte da vida do outro em todos os momentos, é doloroso acompanhar como a desigualdade corrói e condiciona a convivência. O ambiente lembra bastante obras como A História do Som (2025) ou O Segredo de Brokeback Mountain (2005). É uma leitura trágica e muito sensível sobre os acordos cruéis em que nos metemos.

Em Lorena e Tobias, de Edgard Abbehusen, fica pior ainda. Acompanhamos o desencontro entre duas pessoas destinadas uma à outra, mas que não conseguem cruzar-se fisicamente. A premissa não é propriamente uma novidade, indo desde Diários de um Vampiro (2009) à novela Além do Tempo (2015), aqui a escrita carrega a dor dessas oportunidades perdidas por todos os “e se”, e o vazio que transborda para qualquer um que o leia. Julgo denso o suficiente para aguentar um livro de quinhentas páginas, como Grande Sertão: Veredas (1956), ou uma série como Pessoas Normais (2020).

O encerramento cabe a Tarde na Rua, de Mariana Paiva. É o conto mais curto, de pouco mais de uma página. É um pouco omisso em tudo, a leitura não é muito fácil e nos custa um pouco entender a segunda parte muito abstrata, soando como um recorte de algo que imaginamos com pouca clareza o que pode ser. Mesmo assim, tem um começo promissor ao captar uma sensação de viagem em que reconhecemos de onde viemos logo nos primeiros passos em um novo lugar, talvez como a sensação ao começar um livro novo.
Assim como foi com Ir também é ficar em que independente de todas as chegadas e partidas, acabamos sempre por encontrar o que já existia dentro de nós. É um sopro para quem precisa lidar com certas ausências e um respiro de coragem quando sentimos ter chegado a hora de partir. Muitas das vezes só não nos lembramos que o único lugar de onde não conseguimos ir embora é de nós mesmos, ainda que até isso tenha os seus limites.


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