Três anos se passaram desde que Ted Lasso encerrou, de maneira atribulada e insatisfatória, sua história: casamentos, despedidas, ultimatos, crescimento pessoal e a cartilha de qualquer series finale. Mas a série voltou. Após uma estreia morna e aquém do potencial, a quarta temporada apresentou o time feminino do Richmond e sua trama de amadurecimento e vitória.
O cheiro de soft reboot do início deu lugar a um estranho mas espirituoso retorno às origens, desta vez focando muito na figura de Alice (Tanya Reynolds, a Lily de Sex Education), técnica em transição de empregos que primeiro é demitida e depois readmitida, assumindo o protagonismo moral da série. Acontece que, depois de desenvolver Ted (Jason Sudeikis) por três anos inteiros, não há para onde correr.

Idem para Rebecca (Hannah Waddingham), Keeley (Juno Temple), Higgins (Jeremy Swift), Beard (Brendan Hunt) e Roy (Brett Goldstein), o elenco que retorna de maneira regular e precisa adequar o novo cosmos para suas rotinas bastante equilibradas. Para isso, a série necessita perseguir o próprio rabo, remexendo na relação amorosa de alguns e cutucando o passado de outros.
O brilho da novidade está todo no time de mulheres, a começar por Gemma (Abbie Hern), brilhante centroavante que desistiu da carreira no campo para se formar em Direito. Por ela, e pelas memórias de outrora com Alice, Ted Lasso desenha o arco de crescimento para as jogadoras, de maneira calma e nada apressada.

A goleira Boots (Jude Mack) se recusa a calçar as luvas; as irmãs irlandesas Niamh (Aisling Sharkey) e Siobhan (Rex Hayes) são peraltas dentro e fora das quatro linhas; Lizzie (Faye Marsay) é mãe solo de um par de crianças arteiras e precisa conciliar o cronograma familiar com o da temporada; e Shannon (Shannon Hayes) tem tudo para voar, menos a autoconfiança que a impede de jogar bem quando pressionada.
Outra mulher iluminada pela direção e roteiro na quarta temporada é a querida Mae (Annette Badland), dona do pub que se tornou cenário fixo de Ted Lasso, e alguém intrinsecamente ligada ao time feminino e apaixonada pela arte do esporte. A senhorinha ganha destaque na metade para o final do ano, quando a equipe viaja junto dela e realiza sonhos até então dormentes.

Entre dinâmicas estabelecidas e uma ou outra participação especial (com destaque para o sempre polêmico e apaixonante Jamie Tartt de Phil Dunster), a temporada cria na intragável Zelda, vivida de maneira tão irritante quanto humanamente possível por Tracey Ullman, uma antagonista da pá virada – e daquelas personagens que irritam sem motivo e com força extra.
Sem passar a mão na cabeça da audiência e mostrar o futebol feminino como igual ao dos homens, a temporada fala de dificuldades múltiplas, seja em termos financeiros (menos patrocinadores, estádios mais vazios) até questões pessoais. O mural do Believe ganha novos contornos ao compreender as dificuldades e as nuances das agora protagonistas. Afinal, para elas apenas acreditar não leva muito longe.

Intencionalmente inconclusivo, o décimo episódio da temporada deixa brechas para uma renovação, caso a Apple opte pelo sinal verde. Com Alice mais livre no comando, Keeley e Roy prontos para embarcarem de cabeça na família e Ted aberto para um futuro, seja solteiro, seja conhecendo melhor uma certa funcionária do teatro, tudo é possível, próspero e aconchegante na série que aprendemos a amar e necessitar.


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