O americano de origem tailandesa Tony Tulathimutte se interessa pelo desconforto e pela lâmina fina que divide o prazer do horror. Rejeição, seu livro de contos interligados por temas e pessoas, é o exemplo cabal de um millennial em crise de consciência em meio ao boom das redes sociais, da misoginia e da depressão.
Se você participa de qualquer clube do livro com enfoque em literatura contemporânea e queer, não houve escapatória da retórica subversiva e irresistível de Rejeição, lançado originalmente dois anos atrás e trazido ao Brasil em 2026 com tradução de Isadora Sinay para a Fósforo. Exemplar irredutível da modernidade, o livro é composto por sete pequenas histórias.
Em The Feminist, conhecemos um protagonista sem nome mas cheio de ressentimento em direção às mulheres. Os acontecimentos se escalonam e usam a ansiedade e a raiva como combustível de suas motivações, uma característica presente em Rejeição de cabo a rabo, com a escrita pontiaguda e moderna de Tulathimutte encontrando as palavras certas para descrever ereções físicas e psicossociais.

Pics, na sequência, segue Alison, uma jovem adulta que tenta superar um distúrbio alimentar e uma ficada com o amigo, que no final das contas nem gosta tanto dela assim. Em Ahegao, o autor dedica-se ao amadurecimento de Kant, um adulto que demorou a se assumir gay e mais ainda a entender seus apetites entre quatro paredes.
Com uma reviravolta gráfica e impossível de ser prevista, o conto expande os temas de culpa que o escritor usa de pano de fundo. Our Amazing Future, com o retorno de Alison mas desta vez aos olhos de um protagonista controlador, narra a ascensão e queda de um “cara legal” da internet, com direito aos jargões que dominam as redes sociais e uma oratória que impressiona pelo absurdo.
Main Character, em formato de postagem no Reddit, reconta a origem de Bee, pessoa sem gênero que desafia seus colegas “desconstruídos” e, em transe pelo poder adquirido atrás das telas, cria um império de dor e falácia. Há, nessa seção de Rejeição, um olhar curioso para a metalinguagem, com a figura propriamente dita de Tony Tulathimutte se transfigurando na história. Essa batida segue no último conto, quando lemos um e-mail que rejeita o livro Rejeição, apontando todas as incongruências, erros e os anseios de quem o escreveu.
“O amor não é uma conquista; ainda assim, a sua ausência sempre soa como um fracasso.”
Rejeição é moderno e cool, é dolorido e pegajoso: explicar em palavras concretas seu humor e sua visceralidade é tarefa braba; como, por exemplo, explicar algum meme específico do Twitter para sua mãe, que não tem o léxico necessário para compreender as muitas camadas da mensagem. Conversa, inclusive, com o lado mais humanista das composições de Phoebe Bridgers e de Bo Burnham, especialmente o cover da cantora de That Funny Feeling, do especial Inside, listando a cultura pop como premonição para o fim dos tempos.


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