2ª temporada de Seus Amigos e Vizinhos ataca menopausa, legado e o perigo do dinheiro

Produção original da Apple TV apareceu unicamente na categoria mais prestigiada do Emmy 2026: Melhor Série de Drama

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Escrever personagens tão ricos quanto os de Seus Amigos e Vizinhos é uma tarefa que requer pesquisa (para capturar com exatidão os luxos rotineiros) e pulso firme (afinal, para quem tem tudo, o único impacto duradouro é o emocional). O criador Jonathan Tropper acerta em cheio em ambos aspectos, inserindo o polvoroso Owen Ashe (James Marsden) na já estabelecida dinâmica dos demais moradores de Westchester.

A segunda temporada troca o foco soturno e misterioso dos roubos corriqueiros para um leque diversificado e heterogêneo de dramas e interações. Coop (Jon Hamm) recusou o convite de volta à empresa que o demitiu e continua com o esquema ao lado de Elena (Aimee Carrero), embora suas atenções se dividam entre os lucros de ontem e os frutos de amanhã.

O criador Jonathan Tropper divide a indicação ao Emmy de Melhor Drama com os produtores Craig Gillespie, Stephanie Laing, Lori Keith Douglas, Jamie Rosengard, Jon Hamm, Connie Tavel e Chris Arruda (Foto: Apple TV)

Barney (Hoon Lee), seu consultor financeiro, acaba tragado para o lado ilegal da operação, ao mesmo tempo em que descobre a inesperada gravidez da esposa Grace (Eunice Bae) e decide, de uma vez por todas, seu destino na carreira e na vida. Também em clima de mudanças, Nick (Mark Tallman), agora solteiro mas ainda cheio de libido, planeja expandir o império de academias. Barney une o útil ao agradável e mira no negócio do ex-jogador de basquete para lavar o dinheiro dos roubos de Coop.

O núcleo masculino da série ganha na figura de Ashe, interpretado com garra por Marsden, um adversário misterioso e impossível de ser lido ou previsto. O pior tipo de curinga para o baralho de Coop, com ele mesmo caindo refém das chantagens e das vantagens que o novo morador impõe sobre o local. Tido como uma espécie de Grande Gatsby, ele tem mais capital financeiro que qualquer outro e chega ao bairro junto da filha Delilah (Erin Robinson) e da memória da falecida esposa.

Erin Robinson interpreta uma jovem monotônica e levemente inspirada no papel de Jenna Ortega em Wandinha (Foto: Apple TV)

A adolescente se encanta por Hunter (Donovan Colan), o caçula de Coop atingido em cheio pela puberdade e por todos os hormônios imagináveis. O núcleo teen, amparado também nas rebeldias de Tori (Isabel Gravitt), respira certa leveza e estupidez ao colossal problema de crises e vícios dos adultos. A garota fura o plano familiar de frequentar Princeton e até se muda da luxuosa mansão, deixando Mel (Amanda Peet) pior do que ela já estava.

Chegando na idade em que os picos de calor e a falta de apetite para a vida atingem as mulheres, Mel desvia dos alertas e passa a extravasar em raiva qualquer desavença. Azar dos vizinhos e de seu cachorro Arlo, que ganha o papel de arquirrival da mulher. A perimenopausa rende também descobertas íntimas, como a paixão repentina pelo pedreiro da obra ao lado, Miguel (Matías De La Flor), e reata os laços rompidos com Sam (Olívia Munn).

Ashe é anfitrião de uma porção de festas e celebrações que ilustram os gostos e os apetites do bilionário (Foto: Apple TV)

Ainda pegando os cacos da explosão social e de caráter com que terminou na primeira temporada, a viúva de Paul volta à sociedade primeiro como nova namorada de Ashe e depois como mártir de um marido terrivelmente manipulador. Embora tenha menos material para trabalhar em questões de drama, Munn continua mastigando com classe as tensões e os climões que Sam atravessa.

Quem acompanhou desavisado a lista de indicados do Emmy 2026 abriu a boca de surpresa com a inclusão de Your Friends and Neighbors na categoria de Melhor Série de Drama. A produção da Apple conseguiu essa solitária menção e nada mais, um feito raro e incomum no histórico da premiação. Se foi falta de campanha, número alto de concorrentes ou simplesmente acaso do destino, qualquer grupo eleitor dos melhores do ano que deixe de fora os desempenhos individuais de Hamm, Munn, Peet, Marsden, Lee e Lena Hall está errado. E não há debate.

The Bread of Affliction acompanha um feriado judaico que estabelece as dinâmicas conflitantes da segunda temporada (Foto: Apple TV)

A outrora inconsistente Ali, irmã mais nova de Coop, ganha um emprego de docência musical e parece estar indo bem, até que o sexto capítulo, For Everything Else, There Was Bowling, atinja a família como um maremoto. A morte de Ron (Michael O’Keefe), o patriarca silencioso e benevolente, ganha um velório de partir o coração e o melhor episódio da série, navegando por entre cômodos e relações e enfatizando a onda cortante e imprevisível do luto. 

Hamm internaliza e, mesmo num roteiro que pouco entregue a ele as batidas de emoção e resolução, ilustra de maneira fugaz seu caráter e o legado que o pai deixou para trás. É também neste momento que a série saca a participação pequena mas estupenda de Mare Winningham, uma atriz muito gentil e capaz de impressionar com pouco.

O fabuloso sexto episódio tem direção de Stephanie Laing e roteiro de Danielle DiPaolo e Cara Pomanti (Foto: Apple TV)

Quando o perigo ultrapassa a linha do aceitável, a série toma decisões catastróficas e irreversíveis. Ponto para a coragem, por mais que a decisão acaba minando a dinâmica de Coop com figuras do naipe da bilionária Cricket (Bojana Novakovic), o ex-chefe Jack (Corbin Bernsen), a jovem promissora Olivia (Kitty Hawthorne) e a fraudulenta Lu (Randy Danson). Já renovada para a terceira temporada, Seus Amigos e Vizinhos mira no mistério e no crime, com considerável taxa de sucesso em ambos objetivos.

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