A Odisseia estafante, miraculosa e especular de Christopher Nolan

Versão do diretor do mito primordial da humanidade conversa com seu Cinema de homens fadados à destruição

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Foi entre 750 a.C. e 700 a.C., mas é impossível cravar a data de “publicação” de A Odisseia, o poema épico que Homero transcreveu da tradição oral e usou para fundar tropos da Literatura e a História como conhecemos. Mais de doze séculos depois de seu nascimento, tradicionalmente situado em 850 a.C., recebe crédito de roteiro de uma grande produção cinematográfica, tornando-se, simbolicamente, o roteirista mais antigo da história do cinema. Essa ‘Pedra de Roseta’ definiu tudo que seria escrito dali em diante, inspirando do irlandês James Joyce aos Irmãos Coen e o animador americano Stephen Hillenburg, que transformou a saga do herói numa aventura ambientada na Fenda do Biquíni

Em 2026, o cineasta mais influente do século XXI modela o mito de Odisseu à sua linguagem e formato. Depois de dominar a cultura e a conversa com sua versão magnânima e maciça de Oppenheimer, Christopher Nolan evoluiu técnica e ofício, fazendo de The Odyssey o primeiro filme a ser todo rodado com câmeras IMAX, traduzindo o labor criativo em desafios a serem ultrapassados pela extensa equipe e elenco.

Como as câmeras IMAX armazenam apenas alguns minutos de filme por vez, o operador Keith B. Davis aperfeiçoou a troca dos rolos para que as gravações fossem retomadas quase imediatamente; ao todo, a produção consumiu cerca de 640 quilômetros de película durante as filmagens (Foto: Universal)

Locações foram encontradas ao redor do mundo, com praias ganhando o horizonte do inferno e montanhas sendo escaladas e fotografadas pelo olhar astuto de Hoyte van Hoytema, o fiel escudeiro de Nolan (e provável detentor de uma dor nas costas por carregar o trambolho das filmadoras para cima e para baixo). Defensor ferrenho dos efeitos práticos, o britânico fez até de seu ciclope Polifemo um fantoche de sessenta metros, evitando assim o visual menos afiado que uma versão computadorizada inspiraria em tela.

E que tela! A Odisseia se alonga por toda a extensão possível do espaço físico, contando também com o trabalho de som mais barulhento e imersivo do ano. Quando Odisseu (Matt Damon) navega pela fúria de Poseidon, quem assiste corre o risco de reverter o almoço e sujar a sala de cinema no meio das quase três horas de duração. Na caverna do monstro, igualmente, a sonoplastia traduz a dor e a traição para com a criatura.

Com feições torcidas, o visual de Polifemo foi inspirado na pintura Saturno Devorando um Filho, de Francisco de Goya (Foto: Universal)

Ao escrever sua adaptação de Homero, Nolan injeta a visão fragmentada e com redemoinhos temporais, sempre com a ênfase das elipses de Jennifer Lame, montadora que só refina a obra do diretor e faz de A Odisseia um filme de cento e oitenta minutos que nunca causa tédio com sua permanência. O caráter seriado do livro, com os heróis indo de ilha em ilha em busca de problemas e confusão, também ajuda no ritmo.

Longe de Ítaca, o reino sem rei desde que Odisseu foi lutar em Troia a mando de Agamenon (Benny Safdie), o filme se deleita em múltiplas inflexões dramáticas. Na sequência de Polifemo (Bill Irwin), a escuridão abriga a salvação e a perdição da tripulação, ao passo que a chegada na morada dos Lestrigões aumenta a frequência cardíaca e usa dos truques de luz e sombra do Cinema para nunca romper a linha imaginária da crença.

As volumosas câmeras IMAX dificultavam o contato visual entre os atores, levando a equipe a criar um sistema de espelhos que permitia manter o olhar durante as cenas mais emocionais (Foto: Universal)

Com plataformas móveis que faziam as árvores girarem entre os homens e os gigantes canibais, um elenco de dublês com altura média na casa do metro e meio contracenou com outro, que passava dos dois metros de altura, ajudando no jogo de perspectiva e de imersão. Mas é na Ilha de Circe, a fantástica personagem de Samantha Morton, que A Odisseia entrega a que veio.

A bruxa molda suas vítimas como massa mole, acariciando sua carne, penetrando sua boca, sussurrando palavras de conforto enquanto seus ossos diminuem, seus corpos mudam de cor e seus narizes se convertem em focinhos. O efeito visual é instigante e Morton, uma atriz subestimada por Hollywood, incendeia a paz do herói com um texto melancólico, límpido e afiado. Voltem aos seus disfarces, ela sussurra quando se vê acuada, delimitando um dos momentos que Nolan pontua justamente pela ausência de otimismo.

As Sombras que emergem da areia no Hades foram criadas com efeitos práticos: dublês foram enterrados com snorkels escondidos fora de quadro, sob rígidos protocolos de segurança (Foto: Universal)

Circe aponta o Hades, uma praia deserta que serve de sepultamento para todos os mortos – e o lugar onde o inocente Sinon (Elliot Page) repousa em agonia e ira. Surgindo do chão de carvão para beber o sangue do sacrifício e colocar juízo e culpa na consciência de Odisseu, o personagem que abre o filme na oferta do Cavalo dos guerreiros é o arauto de todas as decisões egoístas e as crueldades que o exército do protagonista causou nesses anos de morte e covardia.

Quando Odisseu ouve a mensagem apocalíptica do profeta Tirésias (em atuação primordial de James Remar), ele navega pelo Mar de Monstros e decide ouvir o canto das sereias. Aqui, a trilha titânica de Ludwig Göransson (feita com base em gongos de bronze, lira e flauta aulos) não tenta emular o som da liberdade ou da luxúria, deixando que os gritos esganados de Damon preencham a travessia, marcada pela certeza de que, tanto se fez para que Agamenon recuperasse Helena (Lupita Nyong’o), mas os motivos pessoais justificam a guerra mais do que um rosto angelical ou a retomada da honra.

Christopher Nolan teve a ideia de usar o som das cordas de uma lira sempre que Odisseu retesa seu arco, um artifício aparentemente simplório, mas que enriquece o escopo dramático e “avisa” a audiência quando o herói atacará seus inimigos (Foto: Universal)

Ponto de fricção e crítica em toda sua filmografia, o tratamento das personagens femininas ganha novos ares com a presença proeminente de Penélope, vivida por uma Anne Hathaway desgostosa com os princípios e as normas. Nas trocas com o filho Telêmaco (Tom Holland), o jovem herdeiro que nunca conheceu o pai, a atriz passa a imagem de insatisfação, uma faceta escondida para o resto do mundo – e dos pretendentes que poluem o ambiente e causam intriga a cada ano que passa sem o retorno do marido.

Antínoo (Robert Pattinson) comanda a algazarra, tão covarde quanto persuasivo. Sua história pregressa com Sinon acaba por cobrar um preço, assim como a relação proibida com Melanto (Mia Goth), a aia de companhia da rainha que trama planos maléficos. John Papsidera, diretor de elenco de A Odisseia, reúne atores e atrizes vorazes em papéis pontuais: em Ítaca, Corey Hawkins é ordinário e mesquinho, e o fiel Eumeu (John Leguizamo) tenta proteger o legado de seu antigo mestre.

A figurinista Ellen Mirojnick abandonou o visual reluzente normalmente associado ao bronze no cinema, envelhecendo armaduras e figurinos para transmitir os efeitos do tempo, da guerra e do mar, fazendo com que a longa jornada de Odisseu também fosse contada pelas marcas deixadas em suas roupas (Foto: Universal)

Tido como o personagem mais confiável da Literatura ocidental, Eumeu é cego na versão de Christopher Nolan, o que impossibilitou Leguizamo de ir ao banheiro sozinho no set, mas imprimiu em sua atuação um grau de vulnerabilidade que só se equipara a gana de manter viva a promessa. Ao seu lado, o cão Argos rejeita a morte para encontrar-se de novo com Odisseu. 

Para balancear e dosar como e quando usar o talento de seu elenco da maneira mais fortuita possível, o caráter episódico do filme ajuda a dividir certas seções para cada um. Benny Safdie interpreta um rei soturno, armado como um lorde medieval que lembra o Darth Vader e puxa influências da presença silenciosa do Batman. Seu irmão, Menelau (Jon Bernthal), guia Telêmaco e ostenta a esposa, Helena, como um troféu quebrado – mas imperativo de ser exibido.

Lupita Nyong’o interpreta as irmãs gêmeas Helena de Troia, cuja fuga desencadeou a Guerra de Troia, e Clitemnestra, esposa de Agamenon e rainha de Micenas (Foto: Universal)

No campo mais fantástico, a Calipso de Charlize Theron é menos maligna e mais refém dos próprios sentimentos. Já a Atena de Zendaya ganha uma nota de rodapé que ressignifica sua participação fantasmagórica. A jovem atriz tem pouco a fazer, mas rapidamente se adequa ao tom fúnebre que a Deusa da Sabedoria desperta no protagonista. As decisões estéticas e linguísticas de opor o mundano ao etéreo distinguem a visão de Nolan, numa fase que reflete seu apelo popular e papel de destaque no cenário norte-americano e mundial.

Até o Cavalo de Troia virou efeito prático, construído em toneladas de madeira maciça e local de gravação para os atores ali presentes. O trabalho de design de produção, decoração de set e preparação de cenários e adereços de cena é daqueles que enche os olhos e justifica qualquer cifra ou cheque em branco, dados a Nolan especialmente depois de sua prova de fogo no Oscar 2024, quando Oppenheimer mostrou-se tão dominante quanto o esperado.

A Odisseia traz a canção original When I’m Home, composta por Christopher Nolan em parceria com James Blake, Ludwig Göransson e Travis Scott, que interpreta um bardo no filme (Foto: Universal)

Himesh Patel, Will Yun Lee, Jovan Adepo, Andrew Howard, Jimmy Gonzales e Anthony Molinari passaram por treinamento em remo e navegação para interpretar a tripulação de Odisseu, experimentando o esforço brutal de conduzir uma embarcação apenas com a força do corpo, onde um único movimento errado pode quebrar costelas ou lançar um remador ao mar. Em meio a esse rigor quase militar, mesmo no planejamento meticuloso de Nolan, há espaço para o acaso: golfinhos acompanham espontaneamente as embarcações durante as filmagens.

Dono de recordes e superlativos com menos de um mês de estreia nos Cinemas, A Odisseia já carrega o falatório para a temporada de premiações, e também possui seus defensores e críticos. Emily Wilson, primeira mulher a traduzir o livro de Homero, teceu críticas ao trabalho de adaptação e de pobreza dramática comparada ao original. Christopher Nolan, com seu jeito quieto e introspectivo, prova que filme nenhum deve prestar contas ao material base – não importa seu status.

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