Um filme contando a origem fantástica do He-Man, dirigido pelo mesmo sujeito que revitalizou Transformers em Bumblebee e provou seu mérito artístico com Kubo e as Cordas Mágicas, ser um sucesso (embora não de bilheteria!) não estava entre as previsões mais óbvias de 2026, mas cá estamos. Em Mestres do Universo, o diretor Travis Knight imprime sua assinatura de nostalgia, brilho e tolice em uma aventura digna de nota.
Adam (o encantador e sedutor Nicholas Galitzine) é um loser: seu trabalho no departamento de recursos humanos em uma empresa qualquer não o preparou para a vida adulta, já que seu tempo livre é passado todo desenhando, pintando e lembrando de Etérnia, o planeta de onde veio depois que o maligno Esqueleto (Jared Leto, que surpreende pelo papel engraçado e atuação calibrada) tomou o reino e destruiu seus pais.

A espada que lhe foi dada pela Feiticeira (Morena Baccarin) se perdeu quando aterrissou no Planeta Terra, e está perdida desde então. Quinze anos se passam, e o artefato reaparece, despertando as forças do vilão e a chegada da guerreira Teela (Camila Mendes), companheira de infância de Adam e a responsável por levá-lo de volta ao lar. Trama batida para os acostumados a ver origem de heróis nas telas do Cinema, mas o que Mestres do Universo tem em excesso é confiança e capricho.
Aqui, as cores são bem-vindas, o contraste é abraçado e a transposição do desenho animado para o live action é feita com doses equivalentes de seriedade e tosquice. Knight, dirigindo um roteiro escrito à várias mãos por profissionais que têm no currículo ParaNorman, Cidade Perdida, Através do Aranhaverso e John Wick 4, opera sua mágica precisa e efetiva ao criar um Adam terrivelmente sentimental e avesso ao confronto como resposta inicial.

Quando seu mundo volta ao eixo, especialmente com a chegada ao planeta e a transformação no herói musculoso de saia e sandália, a câmera da dupla Fabian Wagner e Katie Swain entra em transe e se deleita na fantasia de um homem qualquer poder, num piscar de olhos, brandir o poder de Grayskull e comandar exércitos em busca do que é bom e justo.
No elenco de apoio, figuras outrora coadjuvantes do desenho ganham dimensão e personalidade, com destaque para um tipo de humor pastelão (com piadas de fisting que não passam despercebidas nem pelos personagens, nem pela audiência). No quesito visual, o esmero para cenários, armas e coreografia só é ultrapassado pela criação de figuras mitológicas deslumbrantes e pela desenvoltura física e moral do Esqueleto.

Leto, escondido da divulgação e acostumado a servir de âncora de qualidade para muitos dos projetos que participa, desvia de sua canastrice cansativa e dubla o vilão com ganância, um certo tiquinho de inveja e autoconfiança, chegando a negar a saída ‘civilizada’ da reta final, quando Adam quer conversar em vez de sair no braço. Todos os anos de reuniões, dinâmicas de grupo e palestras de sensibilidade no ambiente de trabalho surtiram efeito neste He-Man macho na embalagem, mas não agressivo ou raivoso.
Idris Elba confere seriedade e coração ao papel do mentor Duncan, Kristen Wiig dá voz a uma insatisfeita robô e Alison Brie passeia para lá e para cá com uma peruca branca e um cajado mágico, fazendo de sua Maligna uma antagonista de presença. Com Galitzine à vontade mesmo com pouca roupa, Mestres do Universo é engraçado sem soar mesquinho, é emocionante sem cair no melodrama, e é um respiro entre os tantos blockbusters insípidos e cinzentos do momento.


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