Blue Film mistura constrangimento e convencimento em trama obscura 

O novato Elliot Tuttle dirige drama de viés teatral com propriedade e urgência

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O diretor Elliot Tuttle sabia que vender Blue Film seria uma tarefa delicada: para tal, apostou no conceito enxuto de uma longa conversa atravessada por memórias da infância. A criança que aparece brincando é justamente o cineasta, transportado do passado por meio de gravações caseiras que muito agrega ao texto dito no presente por Aaron (Kieron Moore) e Hank (Reed Birney).

São raros os filmes que tratam da pedofilia numa lente oposta à inquisição imediata. A fúria e a culpa e vergonha estão presentes no professor aposentado, a quem Birney confere o semblante de derrota e a ideia de que sexo é tão libertador quanto o caminho para a perdição.

O filme foi recusado por diversos festivais de prestígio, como Sundance, SXSW e Frameline; embora Elliot Tuttle e a equipe soubessem que o tema dificultaria sua aceitação, ficaram surpresos com o nível de rejeição após se mostrarem muito satisfeitos com o resultado final (Foto: Obscured Releasing)

No lado oposto da discussão, o camboy Aaron é todo protegido pelos músculos, pelos e tudo que o tira da posição de passividade que o trabalho do sexo poderia imputá-lo. No linguajar chulo, seus “veados” são diminuídos antes mesmo de pagarem pelas fotos e vídeos picantes, numa manobra que ataca antes de ser atingido.

Quando o passado dos dois é revelado, as armaduras caem por terra, e Blue Film se dedica a desmontar os ideias de masculinidade, virilidade e aceitação dos homens, agora postos como iguais, divididos apenas pela oferta de dezenas de milhares de dólares que Hank oferece ao ex-aluno, por quem era apaixonada e quer, depois de décadas, verificar a possibilidade do sentimento nunca ter ido embora.

Elliot Tuttle citou a obra de Catherine Breillat como a principal influência cinematográfica do filme (Foto: Obscured Releasing)

Tirado dos ringues de luta e jogado para o centro de um drama de troca pessoal com um veterano da indústria, o ator mais jovem precisa intercalar a selvageria com a suavidade dos traumas, enquanto o mais velho luta para não derreter-se frente aos julgamento, próprios e externos, que culminaram em sua demissão e prisão quando Aaron não passava de um pirralho excluído e o professor levou um colega da escola para o banheiro.

Elliot Tuttle pressiona a desconforável natureza do erotismo em tempos de mercado do sexo on-line e das constantes memórias em forma de flashes e vídeos em tempo real. Interessado na fricção que incomoda e instiga em iguais e irritantes maneiras, Blue Film é estranho, nada convidativo e terrivelmente atraente, assim como constrangedor e por vezes desconfortável de ser encarado. 

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