Parece milagre, mas não é: Sam Raimi de volta ao Cinema autoral de terror, com um filme que começa simples e se desdobra em situações que borram o limite entre macabro, hilário e profano. Socorro!, traduzido do original Send Help, é um conto de sobrevivência protagonizado por um chefe metido e uma funcionária determinada.
Ele é Bradley Preston (Dylan O’Brien), filhinho de papai que assume a presidência da empresa onde ela, Linda Liddle (Rachel McAdams), trabalha há oito anos. Uma promoção prometida pelo progenitor se perde entre as relações masculinas com um recém-contratado incompetente. Linda não aceita o destino, e o chefe quer espremer mais das gotas de humilhação dela.
Numa viagem de última hora e com direito a jatinho particular, o clube do Bolinha se reúne e convida a inapta e desajeitada mulher. Fã fervorosa do reality Survivor, Linda não esconde as predileções pela natureza e pela sobrevivência; tampouco oculta, da vasta internet, sua fita de submissão ao programa. É ao som de suas práticas e traquejos que uma tempestade atinge a aeronave.

O resultado é brutal: todos morrem, com exceção da dupla de protagonistas, que param numa ilha deserta sem ver a quem e aos caprichos do universo. Raimi, dirigindo um roteiro escrito por Damian Shannon e Mark Swift, de vários títulos da franquia Sexta-Feira 13, estica as situações triviais (proteção contra o sol, busca de água potável, o descascar de frutas e o pescas de peixes), num cabo de guerra moral e ético.
O que faz uma pessoa? São suas qualificações pessoais ou o ambiente que rege e dita as regras? Socorro! brinca de imaginar uma realidade onde Linda, tão poderosa em suas técnicas de sobrevivência, subjuga e abandona o machucado e incapacitado Bradley. Tratando-se do cinema de Sam Raimi, o filme não demora a sangrar, gritar e chorar.

Parte do charme está nas costas de McAdams, uma atriz superlativa com quem Raimi teve a breve chance de trabalhar em Multiverso da Loucura. As engrenagens da Marvel, porém, deixaram no cineasta um gosto amargo: na ciência de que utilizou pouco dos talentos dela, produziu Send Help com a musa em mente. E McAdams não desaponta.
Ela convence como donzela indefesa, como moçoila repelente de pretendentes, como sobrevivente multifacetada e como a aguerrida versão que encontrou na ilha e não quer que escape nunca mais. Ao seu lado, O’Brien é fantástico nas expressões faciais de desprezo e medo, repetindo uma máxima da filmografia de Raimi, que anos atrás encontrou em Bruce Campbell um avatar para qualquer tipo de terror ilusório que cruzasse seu caminho.

Embora os filmes de isolamento sejam presentes na memória coletiva da audiência, do canonizado trabalho de Tom Hanks em Náufrago ao ácido retrato de Ruben Östlund que lhe rendeu a segunda Palma de Ouro em Triângulo da Tristeza, Socorro! se diverge em suficientes maneiras, vertendo sua ação para o lado cartunesco e irreal, com armadilhas, golpes de faca cega e até uma espremida ocular.
Mais próximo de seus dias no comando de Arraste-me para o Inferno do que dos tempos de Homem-Aranha ou Oz: Mágico e Poderoso, Sam Raimi se sacode da poeira e, depois de anos produzindo talentos emergentes e apostando na novidade do gênero, retorna à cadeira de direção para se divertir e eternizar o semblante maníaco de Rachel McAdams, coberta de sangue e suor, clamando pelo poder que só foi encontrar depois de cair no meio do nada e construir um império de parafernálias reutilizadas e poderosamente reconfortantes.


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