Quando os recursos narrativos de um drama familiar no interior do sul brasileiro poderiam se tornar repetitivos ou manjados, a autora Mariana Salomão Carrara encontra uma brecha no sistema: o premiado A árvore mais sozinha do mundo parte de objetos inanimados para contar a história.
Na roça de Carlos e Guerlinda, reina a tristeza. Fumicultores desde que se entendem por gente, o casal pariu duas filhas adolescentes que divergem em tudo e um caçula que, bonzinho de fábrica, ainda não deu as primeiras palavras. O cotidiano é avassalador em sua repetição monotônica: as meninas ajudam na plantação, cuidam do irmão, obedecem aos pais.
A amargura de uma vivência árdua tirou todo o brilho juvenil de Guerlinda, que mantém uma relação distante com a própria irmã, a quem a mãe delas, Elvira, agora ajuda com os filhos pequenos aos montes. Carlos, coitado, é todo feito de silêncios e ausências, preferindo sempre retirar-se de qualquer situação que despertaria nele, fosse um homem inteiro, qualquer emoção.
“custa muito ser um espelho numa casa pequena em que a cozinha e a sala se misturam tanto, o meu banho são os vapores do fogão a lenha”.
O rombo sentimental que vem do pai e atravessa cada membro do clã familiar é notado, lembrado e descrito por alguns coadjuvantes antes invisíveis. Uma árvore enorme e distante de qualquer parente do reino das plantas passa os dias lamentando os agrotóxicos do local e sentindo falta das épocas mais simples, quando as crianças se reuniam ao redor do balanço e os adultos descansavam de seus problemas corriqueiros.
Dentro da casa, um espelho antigo dá conta de assimilar os semblantes e os fantasmas dos humanos, falando tudo com um lado arcaico que remonta os tempos de Portugal e revela preconceitos e predileções daquilo que, em teoria, servia apenas para refletir. Abandonado no quintal, um veículo enferrujado é também feito de nostalgia.
O carro, outrora um possante meio de transporte e condutor de alegria, agora sofre com o combustível caro e com as cicatrizes do tempo. Em seu interior puído, uma fita cassete do Roberto Carlos entoa, sem cessar, cantigas religiosas que servem de alento à alma do narrador. E, em menor grau, uma roupa plástica que protege a família dos venenos do plantio de tabaco é responsável por acabar com a própria funcionalidade e só destacar seus traços negativos, como o calor que acumula no tempo seco da região.
“que coisa é ser uma caminhonete Rural toda feita pra carregar e correr e então deixar a família na mão logo na corrida mais importante né”.
Vencedor do Prêmio São Paulo de Literatura, o romance de Carrara é inovador e inventivo, ousando na abordagem imaterial de uma história contada tantas vezes pelo viés humano. Com a voz potente de uma árvore, um carro, um espelho e um traje de proteção, a mensagem de destruição sísmica de uma família pobre e fadada ao ciclo repetitivo da exploração é contada com criatividade e remorso, como apenas a mente por trás de dois já clássicos do cânone nacional seria capaz de alcançar.


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