Em Sodomita, Alexandre Vidal Porto organiza uma caravana de deboches 

O romance de Vidal Porto nos conduz ao passado, quando a homossexualidade era um crime que poderia resultar, quem sabe, na penitência em forma de viagem forçada ao Brasil

min de leitura

A escrita é rebuscada e cheia de floreios; o assunto, nem tanto. Sodomita acompanha Delgado, um violeiro de Évora que chegou a Salvador no ano de 1669, degredado pelo crime de sodomia. Com bom humor e o dedo apontado para as hipocrisias de um país que nada amadureceu, o romance convida o leitor para uma ginga diferente do habitual.

No século XVII, período em que ser homossexual era passível de cadeia e condenação, Sodomita brinca com as estruturas literárias do período em que se situa para inverter concepções, inventar regras e até desordenar o considerado bem comum e moralista.

“Florência lhe afirmou, referindo-se uma vez mais à escrava Campina, que de ser fanchono ninguém é culpado e que, se houvesse culpado, era Deus, que havia posto no vaso traseiro dos ditos infelizes vontades de mulher e, portanto, maior inclinação a homens que a mulheres, mas que, da dita inclinação, por particular e legítima, não resultava mal algum ao mundo”.

Delgado arranja um casamento de aparências com a jovem Florência, protegida por um padrinho que, no leito da morte, une em matrimônio aqueles que nunca iriam, de fato, consumar tal acordo. Pois Delgado, fugindo da tentação, luta o máximo que pode para tirar os pensamentos impuros e os comportamentos obscenos da cabeça.

O amor e o sexo entre homens é a bússola da escrita de Vidal Porto, elemento que levou Sodomita ao Prêmio Biblioteca Nacional 2024 na categoria Romance e continua a acumular leitores. Primeiro pelo tema incomum, e depois pela abordagem quase que arcaica de uma modernidade sem igual. Em tempos de apagamento queer e de sublimação da liberdade, o livro revela a perenidade e a eternidade das expressões dissonantes.

“Feitiçaria, protestantismo, bigamia, opiniões heréticas, erros luteranos: nada era pior e ofenda mais a criação do que a sodomia, vício dos clérigos”.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *