Annie (Shailene Woodley) é colecionadora de frustrações: já quis ser médica mas agora concentra sua atenção no trabalho de guia turística de Graceland, a luxuosa residência de Elvis Presley. Quando o mundo acaba, ela está cercada de quinquilharias do Rei do Rock e da solidão que a acompanhou a vida toda. A 2ª temporada de Paradise começa longe de seu protagonista, mas não demora a ligá-lo aos dramas da novata.
Na crônica dos anos entre o dia do juízo final e o hoje, a série faz lembrar o clima pós-apocalipse de The Walking Dead, mas sem os mortos-vivos. No foco da reconstrução humana, Paradise é assertiva nas diferenças e nas semelhanças entre pessoas à beira do abismo da tristeza, da euforia e da desilusão. Woodley dá um tour-de-force como a cabreira Annie, até um encontro amistoso com forasteiros ilumina nela possibilidades até então dignas apenas dos sonhos.

O impetuoso Link (Thomas Doherty, de Gossip Girl) desperta em Annie esperança o bastante para que ela saia do estado de letargia que começou com os cataclismos naturais e se arrastou para o modo de sobrevivência onde ninguém é confiável e todos são inimigos. Com o grupo do jovem rumando para o Colorado, Annie recusa o futuro fácil e é deixada para recolher os cacos de sua vã imaginação – e se depara com um desacordado Xavier (Sterling K. Brown), unindo os dois mundos de Paradise.
O criador Dan Fogelman estica os músculos da época de This Is Us numa temporada muito menos direta na narrativa, intercalando passado, presente e futuro num labirinto emocional que destaca a caneta poderosa que deu margem para os dilemas de Paradise. Entre a emboscada de Xavier com uma trupe de garotos perdidos e as lembranças do primeiro encontro entre o agente e a esposa Teri (Enuka Okuma), a série enriquece a motivação heróica do protagonista.

Sterling K. Brown, na linha fina entre o brusco e o prestativo, arremata outra gana de sinceridade e de entrega como um Xavier primeiro cauteloso e só depois adepto a ajudar Annie. Tal evento é o centro de A Holy Charge, episódio quatro da segunda temporada, que, sob a direção de Ken Olin, finda certas jornadas para recodificar os objetivos da série. The Mailman, na sequência, é outra cápsula de memórias, desta vez da parte de Teri e de seu improvável amigo Gary, estupendo na atuação de Cameron Britton.
Para toda a emotividade das cenas fora do bunker e do tempo presente, Paradise volta a repetir os clichês sóbrios na prisão de Sinatra (Julianne Nicholson). Entretanto, reviravoltas quanto às motivações de Jane (Nicole Brydon Bloom) deixam a reta final da série frenética e imprevisível. Seja nas interações da vilã com a doutora Gabi (Sarah Shahi), ou nos planos mirabolantes que acontecem no nível mais profundo do abrigo, os personagens estão prestes a descobrir o limite da felicidade e da segurança.

Paradise abraça o subtexto bíblico de sua concepção para negar um repeteco do drama quadrado sobre segurança, política e riquezas. Em Exodus, os personagens dão as mãos em direção ao desconhecido, numa virada de roteiro que ruma para lados inexplorados da ficção científica, como o determinismo, a salvação divina e, em última instância, os pecados maternos sendo pagos por sua prole.


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