Ao sofrer uma grande perda, Gabriel (Caio Macedo) deixa o Recife para se reinventar no Rio de Janeiro, onde conhece pessoas de brilho fascinante e de desejo insaciável. Em Ruas da Glória, escrito e dirigido por Felipe Sholl, o jovem professor de Literatura irá experimentar os altos e baixos de uma existência corpórea e polvorosa.
Sozinho na nova cidade, ele encontra Adriano (Alejandro Claveaux), um trabalhador do sexo com quem desencadeia uma conturbada paixão, que beira a obsessão. O clima é de euforia e ansiedade, proporcionando aos atores frestas de vulnerabilidade entre as noitadas e os encontros tórridos na cama.

Caio Macedo deixa que seus olhos se levem pela luz dos recém-conhecidos, caso da cantora Mônica (Diva Menner), espécie de cafetina que toma conta da boate onde todos os sonhos de Gabriel nascem e morrem. O diretor cria espaços físicos que transcendem os limites geográficos, fazendo de cada cômodo um Olimpo a ser descoberto, lubrificado e aproveitado.
Ruas da Glória saiu do Festival do Rio 2025 com uma indicação à categoria principal da Premiere Brasil e com dois prêmios de atuação coadjuvante, para Alejandro Claveaux e Diva Menner. Ela, que fez história como a primeira mulher trans a competir no The Voice Brasil, comanda a cena no filme e transporta quem assiste para um plano de existência livre e de prazer oportuno.

Tema recorrente no Cinema indie brasileiro contemporâneo, a visão sobre o sexo, o mercado de trabalho e o gozo como moeda de troca são chave na construção de Ruas da Glória, que teve a infelicidade de estrear perto de Baby. título que angaria semelhante atmosfera com mais retorno. O trabalho de Sholl, porém, não deve nada a quem veio antes, durante ou ao mesmo tempo, certo de que sua crônica noturna nas vielas cariocas é sólida por si só.
Documentando, também, os espaços de pegação, cruising e encontros gays da cidade, Ruas da Glória denúncia o apagamento histórico, a perseguição político-social e a necessidade de que a história não se deixe abafar no passado. No elenco de apoio, nomes como Alan Ribeiro, Jade Sassará e Sandro Aliprandini colorem o ambiente, trocando figurinhas sobre a vida queer brasileira para fora dos estereótipos e das pré concepções. O convite está aberto para quem estiver com disposição de aceitá-lo.


Deixe um comentário