Uma década depois de tentar o estrelato com um reality show e uma sitcom, Valerie Cherish (Lisa Kudrow) retorna mais forte e mais resiliente. A segunda temporada de The Comeback acompanha a vida da atriz após uma série de fracassos e sapos engolidos, mas planeja uma reviravolta digna da ficção.
Quando descobre que Paulie G (Lance Barber) está desenvolvendo uma série que satiriza os bastidores de Room and Bored e antagoniza a veterana, Valerie mete os pés pelas mãos até conseguir uma reunião com os executivos da HBO. Daí, a criação de Kudrow e Michael Patrick King se enfia mais a fundo das entranhas de Hollywood e pinta um retrato maquiavélico e soturno da fama.

A experiência é a alma do negócio, e Jane (Laura Silverman), a documentarista do reality de Valerie, aceita voltar para trás das câmeras a fim de eternizar essa mulher tão cheia de contradições e de estigmas. Depois de vencer um Oscar de Curta-Metragem e viver afastada numa fazenda cercada por animais, Jane estica os músculos e estrala os ossos, acostumada ao caos rotineiro de Valerie.
A segunda temporada, mais curta que a anterior, entende as evoluções e as involuções do meio televisivo, indo sem pudores na jugular do que faz o entretenimento um mercado cheio de feridas expostas. Ao tratar do vício de Paulie G em heroína e sua recuperação depois da rehab, The Comeback espelha a satira e o mordaz olhar pessimista de quem vive, de dentro, os efeitos dos mecanismos de poder e de opressão.

Entre as gravações de Seeing Red, a comédia que Paulie escreve e escala Seth Rogen para viver seu alter-ego, e as diversas visitas de Valerie a profissionais do meio, compromissos da agenda e infortúnios do destino, a temporada corre pela veia da crueldade, demonstrando o desprendimento da protagonista daquilo que a fazia humana e sã.
Isto é, a presença aterradora do marido Mark (Damian Young) e do cabeleireiro e braço direito Mickey (Robert Michael Morris), personagens que vão acumulando mágoas, direta e indiretamente, dos comportamentos narcisistas dela. Ao passo que ela consegue mais atenção e prestígio, o abismo se abre. Se o buraco for grande demais para ser reparado, só o tempo (e a boa vontade) ditará.

No oitavo e último episódio, The Comeback duplica sua duração e visita a festa anual de Juna (Malin Akerman), amiga de longa data de Valerie que está machucada pela nova série da antiga parceira de Room and Bored. Lá, velhos rostos tentam a mulher, e a iminência dos prêmios Emmy, na noite seguinte, agouram Valerie.
Indicada ao troféu de atuação coadjuvante, ela enfrenta um vazamento de material fecal na casa, a ausência do marido, a instabilidade da saúde de Mickey e os diversos pontapés emocionais que meses de gravações, ensaios e entrevistas deixaram em seu corpo e sua psique. Chegada a hora da coroação, Valerie abandona as câmeras andantes e os microfones suspensos.

Na direção de King em Valerie Gets What She Really Wants, a estética de ponto de vista documental é abandonada e enxergamos Lisa Kudrow interpretando Valerie Cherish como uma pessoa real, que tem dificuldades para encontrar um Uber, abrir e fechar o guarda-chuva e, por fim, para encarar de peito aberto a realidade de sua vida e de sua família.
O otimismo e a franqueza só funcionam pelo contraste com a maldade e o egoísmo que vieram antes, mas como tudo que envolve a sra. Cherish, é no meio da lama e da sujeira que surgem as melhores oportunidades e as mais primorosas recompensas. Que venha a terceira (e última?!) temporada!


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