O cabo de guerra moral que envolve qualquer ficção baseada em crimes reais é deixado em estado de distensão por Devil in Disguise, minissérie do Peacock sobre os crimes de John Wayne Gacy. Em vez das luzes estilizadas e dos ângulos lascivos que Ryan Murphy popularizou em sua franquia Monster, da Netflix, a abordagem aqui é sua antítese.
Do primeiro rascunho, o criador Patrick Macmanus (de Marco Polo, Homecoming, Dr. Death) definiu o ponto mais importante da produção: as mortes não seriam mostradas. Com tom sóbrio, a história vai e volta no tempo para decodificar a personalidade do assassino e os mundos de suas vítimas antes das fatalidades.

Para o papel principal, o exímio Michael Chernus (de Ruptura e Orange is the New Black) assume com gana e peito aberto sua versão de Gacy, um homem profundamente convencido e confiante, que esconde por detrás dessa expansividade uma mácula que só se revela em momentos de luta ou fuga. Em contraponto, Devil in Disguise materializa o luto na mãe da última vítima do homem, Elizabeth Peist (a fantástica Marin Ireland, de Birth/Rebirth e The Umbrella Academy), mas não se atém apenas nela.
Ao longo dos oito capítulos, as principais vítimas são apresentadas em suas vidas pregressas, com todos os sonhos, obstáculos e desafios a serem ultrapassados e conquistados. O roteiro se encarrega de preencher os jovens garotos de personalidade e aquele medo do futuro que é universal para a idade. O resultado é um brutal choque de realidade, especialmente quando o destino deles é mostrado de maneira implícita.

Gacy estocou o vão entre sua casa em Illinois e o chão de terra com os corpos de suas vítimas, enterrando os garotos depois de, em sua maioria, sufocá-los até a morte. As acusações foram múltiplas, assim como as sepulturas escavadas pela policial. O detetive Tovar (Gabriel Luna, de The Last of Us e Agentes da S.H.I.E.L.D.) encara a árdua tarefa de desenterrar toda a tragédia, e questiona o número flutuante de vítimas. Dúvida essa que permanece até hoje, quase trinta e cinco anos depois da execução de John Wayne.
Também acompanhando os lados opostos do julgamento, Devil in Disguise tem em Sam Amirante (Michael Angarano, de This Is Us e Sky High) um advogado de defesa incrédulo que perde o brilho e a centelha da profissão com o passar dos anos e dos pedidos negados de anulação. O procurador do distrito é vivido por um teimoso e impaciente Chris Sullivan (o Toby de This Is Us), balanceando as tensões de acusação e culpabilidade do assassino com o delegado Joe Kozenczak (James Badge Dale, de Os Infiltrados).

Cada episódio termina com a foto da vítima encontrada, além de gravações da mídia da época, mostrando que crime nenhum merece ser glorificado ou revisitado com olhos gráficos. Espécie de “anti-Monster”, o trabalho de Devil in Disguise é justamente se ater a um simples postulado: que as vítimas sejam respeitadas, honradas e jamais esquecidas. E que seu capataz garanta um lugar no véu entre o ostracismo, o ódio e o esquecimento.
O capítulo final, dando conta de narrar o evento que quase resultou na morte de uma vítima de Gacy, confidencia as famílias das vítimas numa antessala, na espera da execução, dezesseis anos depois de sua prisão. Mas o resultado é agridoce e revoltante: a injeção entrou no corpo do assassino sem alarde ou espetáculo público, e só resta pegar o ônibus de volta para casa, sem cura milagrosa ou senso de dever cumprido. Sobra apenas a tristeza e o jogo de dados com o destino, nas diversas ponderações e imaginações sobre um futuro jovem que nunca se concretizou real.


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