Supermodelos, em fúria, entram em luta corporal por um jarro de água, engolindo cada mililitro como se suas vidas dependessem disso. E dependem. Mas de nada adianta: uma explosão acaba com a vida e corpo, tão esbelto, bronzeado e curvilíneo. Para os agentes do FBI, o mistério é evidente e cabeludo; para os criadores Ryan Murphy e Matthew Hodgson, esta é The Beauty.
Antes que as pedras atinjam a equipe criativa, é bom destacar o material base de The Beauty, um quadrinho escrito por Jeremy Haun e Jason A. Hurley em 2015, que veio antes de A Substância. As inspirações numa sociedade aficionada pelo jovem e pelo viril não foram criação da francesa Coralie Fargeat, e se o filme vencedor do Oscar tinha como foco a estrela decadente de uma atriz antes famosa, a série de TV mergulha nos bastidores da droga.

Ou do vírus, como melhor preferir. Descrita como uma mistura do HIV com a ebola, tanto pela taxa de contaminação quanto pela rapidez com que se espalha, A Beleza foi criada sob o orçamento e o patrocínio de Byron Forst (Vincent D’Onofrio), o homem mais rico do mundo que não conseguiu comprar felicidade alguma com essa bagatela. Picado com a agulha do doutor genial que formulou a coisa toda, ele assume a carapaça de Ashton Kutcher, numa piada visual que começa estranha e logo ganha sentido na interpretação canastrona do ator.
Não passa batido o momento em que, no bunker de bilionários, ele seja o único a se transformar num cinquentão, enquanto os demais ostentam suas versões de vinte e tantos anos. “Eu sou um bebê”, comenta, incrédulo, examinando os músculos e o peitoral. A fé na imagem guia todos os contaminados pela substância misteriosa e perigosa, com a câmera vasculhando cada centímetro de carne à mostra, com muitas flexões de membros e olhares desacreditados de que aquilo tornou-se real.

Em frentes distintas, The Beauty acompanha a investigação que segue-se à morte de Ruby Rossdale (Bella Hadid), com os agentes Cooper (Evan Peters) e Jordan (Rebecca Hall) numa Eurotrip que acaba de forma péssima para ela. Ryan Murphy nos joga na armadilha de achar que os talentos de Hall seriam usufruídos à máxima potência, só para infectar Jordan no segundo episódio e substituí-la pela performance de Jessica Alexander, de O Primata.
Até parece que existe um mundo onde alguém do porte e da genética de Hall poderia ser “melhorada” com um vírus embelezador, mas a suspensão da descrença existe e deve ser usada por enquanto. O casal de agentes, enrolado numa teia de romance, mistério e cobranças, primeiro se separa para então reunir forças em confronto ao personagem de Kutcher, também chamado de The Corporation.
Ele, tão vigarista, é casado com Franny (Isabella Rossellini), uma mulher impassível e desgostosa do marido. A veterana, com figurinos impossíveis de definir mas inacreditáveis ao serem encarados, faz do roteiro supérfluo uma refeição com entrada, prato principal e sobremesa. Nas entonações, gestos corporais e na expressão de profunda desilusão, ela é a única pessoa capaz de colocar Byron em seu devido lugar.

Entre a Lei e o Dinheiro, The Beauty encontra espaço para que O Assassino (Anthony Ramos) ganhe história de origem e desfrute do visual futurista matador enquanto mentora o inexperiente e ex-incel Jeremy (Jeremy Pope), um perdedor que encontrou a droga no mercado clandestino e se infectou a fim de sair do furacão depressivo e misógino em que vivia. O ator Jaquel Spivey vive a versão pré-vírus do galã.
Com episódios de durações variadas (de vinte e cinco a cinquenta e cinco minutos, tire a sorte na roleta), e que acompanham diferentes engrenagens de uma sociedade ávida pela sensação de prazer, The Beauty nunca deixa a peteca cair ou o forno esfriar. As respostas silenciosas surgem de maneira contida, e se fazem presentes justamente nesses momentos de escalar “menor”, como na dupla de funcionários do laboratório que, cansados de ser invisíveis pela idade, peso e disforia de gênero, fazem das tripas coração para serem picados pela injeção milagrosa. Ou mesmo o chefe do departamento de polícia que, refém de uma medicina incapaz de salvar a filha pequena, opta por vender seus ideais e sua honra para desfrutar da boa vida com a esposa e a garota, agora sã e salva da condição de nascença.

O caráter popular, em adesão ao revestimento sanguinolento e grotesco, faz de The Beauty uma irmã perdida de American Horror Story, especialmente em seus tempos áureos de lançamento, movimentando fãs e indústria pela criatividade, morbidez e ocasional deslize narrativo. Até na abertura, acompanhada de acordes sinistros e imagens que canibalizam o espectador, a vibe é sentida.
Ryan Murphy escreve todos os 11 episódios juntos de Hodgson, com quem criou a série. A direção fica a cargo dos figurões de sempre, com o elenco formado pela mistura da antiga geração do FX com a leva recente de contratados que o produtor angariou em seus anos de Netflix, com humor, inclusive, ao escalar as versões do antes e do depois da infecção.

Cheia de elipses, a temporada vai e volta ao núcleo dos detetives, com inserções pontuais do efeito que a nova droga causa na sociedade. Em tempos de canetas emagrecedoras e todos seus efeitos colaterais, The Beauty desenha a hipocrisia com tinta permanente, circulando os pontos de tensão e de ironia da ficção em contraste à realidade.
Mas, tratando-se de uma criação de Ryan Murphy, o desastre perto da conclusão é esperado: até temos uma inquisição interessante sobre o “melhor eu”, quando um dos personagens ressurge não mais magro ou sensual, mas sim na forma de uma criança de 12 anos. A discussão é pausada para uma season finale corrida e apressada, com alunos do ensino médio se picando e chegando a resultados diversos e preocupantes.
Evan Peters, interpretando o “straight guy” num elenco de “palhaços”, exercita a seriedade com um roteiro por vezes carola, ao passo que Isabella Rossellini, eternizada pela presença em A Morte Lhe Cai Bem, vive uma extensão desta personagem, com direito à referência direta ao figurino de pedrarias cobrindo os seios de sua versão infectada.

Se uma coisa fica clara na troca de atores é que a velha guarda dá um banho de carisma na juventude, que, na premissa da série, se parecem entre si, sem tempero ou as rugas de vivência e histórias que artistas do calibre de Jon Jon Briones, John Carroll Lynch e Kelli O’Hara esbanjam sem suar.
The Beauty: Lindos de Morrer termina sua primeira temporada com um gancho que poderia ter acontecido meia hora antes, com a criação de um senso de completude na caça ao bilionário que criou um vírus capaz de elevar e destruir a sociedade; sem falar no gancho dos modelos explosivos, esquecido no churrasco. Na disputa entre biologia e robótica, encabeçada pela doutora vivida por Ari Graynor, surgida na prorrogação, Ryan Murphy e Matthew Hodgson, surpresa, abocanham mais do que suportam, regurgitando o excesso na tela do Hulu.


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