Ugo Bienvenu articula em Arco uma proposta estilística que felizmente não segue a tendência da tridimensionalidade hiper-realista em alta. Pelo contrário, o filme estabelece sua identidade visual em duas dimensões logo na apresentação das colônias suspensas de 2932. Vislumbramos um futuro utópico, equilibrado e otimista, materializando a ideia do diretor de que para futuros luminosos existirem, primeiro precisamos imaginá-los.
Com sua estreia em Cannes 2025, o longa projeta uma ficção científica interessada em traços autorais e na vibração das cores, distanciando-se das produções que procuram mais exibir a tecnologia como demonstração de poder computacional. Consagrando os sentimentos compartilhados pelo autor, em entrevista ao Omelete quanto a necessidade de que a ficção científica pare de reproduzir realidades caóticas e passe a propagar também ideias melhores para o futuro.
A trajetória do longa até sua indicação a Melhor Animação no Oscar 2026 começou a ganhar prestígio no 64º Festival Internacional de Cinema de Animação de Annecy, em que foi duplamente premiado com o Cristal de Melhor Filme e o prêmio SACEM de Melhor Trilha Sonora Original. Em sequência, tomou fôlego com a vitória na categoria Melhor Filme Independente no Annie Awards.

O enredo acompanha Arco, um menino de dez anos que vive em uma estrutura utópica em 2932, em que a humanidade aguarda a regeneração biológica da Terra. Querendo ver dinossauros, mas sem idade suficiente, ele rouba o traje de voo — no tempo — da irmã. Basicamente, o plano dá errado e ele termina em 2075, outra era marcada por uma sociedade que terceirizou o cotidiano para a automação e que é constituída por espaços higienizados e impessoais, tudo isso durante crise climática que se manifesta em incêndios florestais incessantes.
Nesse cenário, Arco encontra Íris, uma garota cuja rotina é pautada pela pseudo-ausência dos pais, que estão sempre presentes ao jantar, mas só como projeções holográficas. Na casa também há Mikki, um robô cuidador e o bebê Peter, irmão mais novo de Íris. Em grande parte do longa, a interação entre esses personagens constrói discussão sobre a natureza da empatia e como estamos caminhando para esse futuro, enquanto Íris encontra uma saída dele.

Na dublagem em inglês, Natalie Portman e Mark Ruffalo dão vida aos pais de Íris e acertam o tom ao acentuar seu distanciamento. Ao mesmo tempo, suas vozes foram fundidas para criar Mikki, que é quem realmente está ali fisicamente, com boas doses de autoridade e afeto.
Amparada pela trilha de Arnaud Toulon, premiada em Annecy e também com o Prêmio César de Melhor Trilha Sonora Original, em buscam a grandiosidade de representar o que para nós é a saudade de tudo que poderia ser. Ao fim, o álbum fecha com Clouds Away, parceria com a cantora November Ultra, que suaviza a densidade emocional do fim.

A textura orgânica que dá vida à narrativa parte de um terreno artesanal em que o roteiro e os storyboards começam no papel antes de serem transpostos para o TVPaint — software francês de uma pequena empresa familiar — que constrói o humor baseado quase em ambientação e clima com o fogo, a chuva e o vento. Essa fluidez, que raramente encontramos em animações de grande escala, é gratamente semelhante a singeleza de produções monumentais como as construídas pelo Studio Ghibli que insere crianças em vastos mundos mágicos.
A subversão de Arco, que segue tanto dentro quanto fora da própria obra, traz o trio de irmãos Dougie, Stewie e Frankie como uma carta na manga do que poderiam ser apenas antagonistas padrões. Embora persigam Arco para desvendar o segredo da tecnologia temporal, são muito mais figuras excêntricas — e divertidas — que buscam propósito em meio ao conformismo tecnológico de 2075. Nesse sentido, tudo que foge ao maniqueísmo construindo camadas de complexidade com que a realidade humana lida é bem-vinda, desde grandes histórias até um trio desajeitado que valoriza o lúdico e o investigativo.

No clímax dos clímaxes, em um incêndio devastador que consome tudo e todos, Mikki transcende sua utilidade ao converter suas últimas energias para entalhar em uma rocha, muito poeticamente, os dias partilhados com Arco e Íris. Esse contraste entre o futurista e o arcaico sempre funcionou muito bem em tela. Desde a franquia de Alien ao colocar androides explorando ruínas ancestrais até Planeta dos Macacos que aplica a mesma lógica ao jogar astronautas modernos em uma sociedade humana reconstruída. E graças a essa arte rupestre, a família de Arco, no futuro, encontra o que precisava para resgatá-lo do passado distópico.
Toda essa sequência eleva a arte à condição de âncora capaz de triunfar sobre a falibilidade das máquinas e da obsolescência que vem do tempo. A resolução abraça a vertigem de um paradoxo temporal melancólico e gracioso. Íris se torna a arquiteta visionária das metrópoles flutuantes de 2932 e Bienvenu estabelece a grandiosa utopia do amanhã como o desdobramento direto de uma intervenção afetiva no passado, interligando eras tão distantes por um fio tecido puramente pela imaginação humana.


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