O carioca Raphael Montes recebeu a alcunha de mestre do suspense policial por escrever livros recheados de referências e sem medo dos pudores da sociedade. Jantar Secreto, publicado originalmente em 2016, acompanha uma rede de canibais que enriquecem às custas da população vulnerável.
Na história, o desiludido Dante confessa parte dos crimes nas páginas de abertura, com Montes voltando no tempo a fim de situar a realidade dos quatro amigos e seus sonhos universitários por meio de recursos diversos. Até capítulo todo em conversa de WhatsApp, com direito aos memes da época, ganha espaço na edição caprichada da Companhia das Letras.
Entre cartas, menus e narrações em primeira pessoa, quem lê conhece e entende as razões e emoções de Dante, Hugo, Miguel e Leitão, cada qual muito bem posicionado em sua caixinha narrativa. Montes simplifica e exagera, em proporções equivalentes, e Jantar Secreto escalona seu drama e sua mitologia com a mesma desenvoltura de um gene mutante. Telefonemas, e-mails, acordos e refeições regadas a sangue e tripas surgem como aparato literário de choque e enjôo.

Nas descrições dos diversos cortes, que passam pelo brutal desmembramento, até os últimos toques na boca do fogão, o livro não poupa detalhes. E tampouco deixa sua mensagem passar batida: são inúmeras as citações ao mercado das carnes e a relação entre sofrimento e prazer que nasceu do abate.
Sutileza não tem espaço nem gracejo na obra de Raphael Montes, que despiroca quando a história envolve jornalistas cegas que curaram-se milagrosamente, um magnata falido com contatos em todos os departamentos políticos, e uma ex-trabalhadora do sexo que tem vocação para a poesia. Na maçaroca dramática e chocante de Jantar Secreto, os gordos são objeto de desgosto, com linhas e linhas dedicadas a descrever assaduras, protuberância e aromas que exalam de Leitão, o hacker sedentário que serve apenas para comer, arrotar e desfilar seu corpo nada padrão.
Na divisa entre registrar uma visão preconceituosa do mundo e se apossar dela para gerar reações no leitor, Jantar Secreto não mata nem um coelho nem outro. Com viradas dignas dos mais baratos e esdrúxulos folhetins, Montes viaja na maionese de sua própria imaginação, servindo de bandeja um espetáculo que entretém, mas não se faz marcante.


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