O Cavaleiro dos Sete Reinos restitui o tom humano de Westeros 

Retorno ao mundo de Game of Thrones é marcado por humor, trivialidades e uma dupla encantadora

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O cavaleiro andante Dunk (Peter Claffey) é um sujeito simples, honrado e respeitoso. Ou seja, o oposto de qualquer protagonista das séries ambientadas em Westeros. Para a primeira temporada de O Cavaleiro dos Sete Reinos, a HBO reabre a mitologia de George R.R. Martin, co-criador da série ao lado de Ira Parker, para uma aventura de escala menor e recompensa maior.

Adaptando a primeira de três novelas escritas por Martin, a produção desenrola em seis episódios de meia hora uma jornada que imprime as características cabais do auge de Game of Thrones: a sujeira das estalagens, a dúbia relação entre cavaleiros e lordes, e uma amizade inesperada que floresce como apenas Dunk e Egg, personagens caros aos fãs, poderia ser.

A direção ficou a cargo de Sarah Adina Smith (Uma Questão de Química) e Owen Harris (San Junípero) [Foto: HBO]

O pequeno cavalariço é vivido por Dexter Sol Ansell, um achado da seleção de elenco, que encontra no jovem ator uma fonte de vida, lastro e humor. Carequinha, o menino mede um terço do tamanho de Dunk, mas olha nos olhos do sir e não se apequena frente aos Targaryen da vez, que chegam causando no Torneio de Vaufreixo.

Acontece que, como descobriremos a seguir, Egg é apelido de Aegon, sobrinho-neto do Rei de Westeros. Ao cortar os cabelos prateados e esconder sua origem nobre, o garoto acaba escudeiro de Dunk, dando início assim a uma parceria inusitada e deliciosa. Na contramão do drama que carrega A Casa do Dragão para uma conclusão sóbria e alongada, O Cavaleiro dos Sete Reinos aposta em uma jocosidade na montagem e na direção, com cortes rápidos, inserções de humor para quebrar a tensão e uma duração curta dos episódios, especialmente em comparação ao festival de monólogos e batalhas de suas antecessoras.

Peter Claffey e Dexter Sol Ansell esbanjam química e calcam uma relação de companheirismo, mentoria e respeito de bate-pronto (Foto: HBO)

Sem a necessidade de explicar a árvore genealógica nem a ligação entre Rhaenyra, Daemon e Daenerys aos guerreiros do dragão do tempo atual, a série reflete muito dos ideais de Game of Thrones, desde a lamúria pela extinção das feras, até a insatisfação do povo comum para com seus governantes tiranos. Entre as tendas que abrigam senhores menores e muitos pedintes e gente que nasceu em berço de feno, Westeros é costurada numa malha cheia de realidades bruscas.

Dunk se apega aos ideais passados por Sir Arlan (Danny Webb), o homem que o tomou como escudeiro e que aparece sendo enterrado na abertura do primeiro episódio. Com flashbacks pontuais que detalham fatos pregressos e que definem as ações presentes dos personagens, há dinamismo e atenção aos detalhes; até mesmo quando a produção desvia do espetáculo visual, caso do episódio 5, com uma memória no meio do Julgamento dos Sete que acaba em tragédia real.

In the Name of the Mother, quinto episódio da temporada, recupera uma tradição quase ancestral de Westeros, com o sangrento Julgamento dos Sete, que culmina numa morte que impactará para sempre o legado dos Targaryen (Foto: HBO)

A Knight of the Seven Kingdoms conta com envolvimento direto de George Martin, mesmo depois da confusão atrás das cortinas de A Casa do Dragão e sua abrupta saída da sala criativa. Aqui, no que ele declara ser sua criação predileta, Martin permite uma expansão tímida de sua novela, abrindo margem para a presença passageira de nomes como Lyonel Baratheon (Daniel Ings), e os Targaryen: Baelor (Bertie Carvel), Maekar (Sam Spruell), Daeron (Henry Ashton), Aerion (Finn Bennett) e Valarr (Oscar Morgan), asteriscos na linha do tempo da franquia que aqui, na duração do torneio, impactam o futuro.

Com as burocracias e as diversas etapas que culminam nas justas, a série quebra o gelo com humor: é só lembrar da sequência que ameaça explodir na trilha sonora de abertura de Game of Thrones e na verdade corta para um momento de indigestão estomacal de Dunk. Os guerreiros sentem medo, dor de barriga e cólica de ansiedade como qualquer um. 

A segunda temporada, já em processo de produção e com gravações acontecendo, adaptará o segundo de três contos de Dunk e Egg, desta vez em travessia por Dorne. Com as várias Rebeliões Blackfyre acontecendo no pano de fundo desta série, que se encontra cem anos antes de Daenerys e cem anos depois de Rhaenyra, a política continua tema fumegante, apenas visto de baixo para cima, com a plebe que fazia do universo televisivo e literário criações tão ricas e cheias de cebolas dramáticas. 

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