Uma porção de surpresas e decepções acompanha a lista de indicações dos Curtas em qualquer temporada do Oscar. 2026 não fugiu à regra, com grandes títulos deixados de lado na pré-seleção da Academia e tantos outros convertendo-se em concorrentes pelo prêmio. No ano passado, saíram vitoriosos The Only Girl in the Orchestra (Documentário), I’m Not a Robot (Live-Action) e In the Shadow of the Cypress (Animação).
Animação
Papillon, ou Butterfly, na tradução inglesa, é o mais sentimental dos finalistas. Sob a direção de Florence Miailhe, e roteiro escrito em parceria com Marie Desplechin, a história segue um nadador que compete nas Olimpíadas realizadas perto do cerco nazista. Poético e suave nos traços, a mensagem de Papillon é sentida pela efervescência do discurso de ódio dos infratores e, mais tarde, pelo senso de companheirismo que nasce da violência. Animado como numa pintura à óleo e cheio de sobreposições dramáticas visualmente, é candidato ao posto de curta extremamente político mas que não abre mão da arte da temporada. – Vitor Evangelista
The Three Sisters, do russo Konstantin Bronzit, abre mão dos diálogos em uma fábula sombria sobre amor, desejo e inveja. Vivendo numa ilha isolada, de onde só recebem visitas da comerciante, três irmãs passam a duelar pela atenção de um marinheiro perdido. O que começa em tons cômicos logo ganha o contorno pessimista do realizador (em sua terceira indicação ao Oscar), para depois desaguar num alívio para as mulheres e para seus corações já não tão partidos. – VE

Direto da Irlanda, Retirement Plan é uma animação 2D de 7 minutos, dirigida por John Kelly, que nos apresenta Ray, um homem consumido pela ansiedade que fantasia obsessivamente sobre tudo o que fará quando finalmente se aposentar. Embora seja visualmente lindo e toque em um tema sensível e inescapável, fica a sensação de que a obra poderia ser mais subjetiva, assim como é a vida; a narração constante acaba tirando um pouco da conexão e da margem para interpretação que o estilo simples e direto sugere. Quando mascamos demais o chiclete, ele perde o gosto. – Henrique Marinhos
The Girl Who Cried Pearls, dirigido pela dupla canadense Chris Lavis e Maciek Szczerbowski, é uma fábula em stop-motion de 17 minutos e, como a maioria dos filmes do gênero, dá gosto de assistir e nos deslumbra com tantos detalhes artesanais. O roteiro não fica atrás do visual gótico: a história de cobiça e classe nos prende apesar de ser de certa forma simplista, casando perfeitamente a forma com o conteúdo. Não tem nada de inovador ou absurdo, é simples, bem feito, tocante e previsível. Mas indiscutivelmente bem executado. – HM

O que esperar dos Estados Unidos? Forevergreen, dos diretores Nathan Engelhardt e Jeremy Spears, tenta inovar visualmente ao longo de seus 13 minutos contando a história de um urso órfão adotado por uma árvore antropomórfica, usando computação gráfica para imitar texturas de madeira entalhada. Infelizmente, não é tão agradável quanto talvez achassem que seria; o visual parece mal renderizado e a mensagem ecológica se resume a algo legal, basicamente. Sem muita profundidade para adjetivos específicos. Do começo ao fim, sentimos que não saímos do lugar. É uma história otimista, com começo, meio e fim. Sem muitas justificativas, mas ainda mais do que deveria existir. – HM
Documentário
Quartos Vazios (All the Empty Rooms) está disponível na Netflix. O curta segue Steve Hartman e o fotógrafo Lou Bopp, que viajaram pelos Estados Unidos para registrar os quartos intactos de crianças vítimas de tiroteios em escolas. Com narração de tom suave, a direção de Joshua Seftel visita as famílias e escancara essa devastação tão comum ao cotidiano norte-americano. O diretor foi indicado na mesma categoria com Stranger at the Gate, outro exercício em cima das cicatrizes nacionalistas. – VE
Armado com uma Câmera: Vida e Morte de Brent Renaud é focado na invasão russa na Ucrânia e no homem que dá título ao curta, o primeiro jornalista americano morto no conflito, em 13 de março de 2022. Após sua morte, o irmão e colaborador Craig Renaud levou o corpo de Brent e suas últimas imagens de volta ao Arkansas, enquanto o documentário revisita a trajetória dos dois cobrindo eventos perigosos ao redor do mundo. Com imagens cruas do corpo no caixão e do velório, a produção disponível na HBO Max continua na veia contrária ao governo de Putin, mostrando as diversas consequências e fatalidades das ações. O filme ganhou o prêmio da audiência no Festival South by Southwest. – VE

O Diabo Não Tem Descanso (The Devil Is Busy), também na HBO Max, é dirigido por Geeta Gandbhir e Christalyn Hampton, seguindo a rotina de uma clínica de aborto em Atlanta. Ao longo de um único dia, a responsável pela segurança e pelas pacientes Tracii lida com todo tipo de burocracia, assegurando os cuidados médicos e o direito da população. O documentário retrata as medidas diárias de segurança adotadas por Tracii e sua equipe, além de mostrar seu apoio aos pacientes e o enfrentamento dos protestos do lado de fora da clínica, num cenário político onde os EUA cada vez mais regridem os direitos das mulheres e pessoas que engravidam. Gandbhir também está indicada ao Oscar pelo trabalho em A Vizinha Perfeita, o documentário mais popular da temporada. – VE
No emocional, Children No More: “Were and Are Gone”, ativistas pela paz israelenses realizam vigílias silenciosas em Tel Aviv, exibindo fotos de jovens vítimas de Gaza. Intercalando o discurso de membros do movimento que organiza as ações, o curta dirigido por Hilla Medalia ganha força na metade final, quando as reações negativas do público acarretam as consequência de um confronto sem vencedores. Há apenas perdas. – VE

Escrito e dirigido por Alison McAlpine, Perfectly a Strangeness acompanha três burros que descobrem um planetário abandonado. O curta estreou em Cannes 2024, e combina com o humor do festival, especialmente quando lembramos de EO, drama que dramatiza a volta para casa de um asno. Fora das paisagens e da trilha sonora, sobra pouco para internalizar e elogiar. – VE
Live-Action
Esqueça o Saturday Night Live, pois Jane Austen’s Period Drama traz ao Oscar o humor escatológico e em formato de esquete que o programa norte-americano faz, semanalmente, há meio século. Julia Aks co-dirige, co-escreve e estrela na pele da Miss Estrogenia Talbot, uma jovem que, sem saber que está prestes a menstruar, sai numa caminhada com seu pretendente romântico, Mr. James Dickley (Ta’imua). Na paródia da época cheia de elegância e educação, o curta se esbalda nos nomes de duplo sentido (Estrogenia é amparada pelas irmãs Labinia e Vagianna), enquanto quem assiste pode rir sem medo ou pudor. – VE

É tarde da noite e um grupo de marmanjos afoga as mágoas no único bar aberto. The Singers parte da premissa simples para chocar quando um dos personagens abre a boca e deixa sair um canto lindo de ouvir. O que se segue são outras canções, entoadas com lágrimas nos olhos de quem escuta. Disponível na Netflix, o curta é dirigido por Sam A. Davis, que se baseia num conto do russo Ivan Turgenev. – VE
Two People Exchanging Saliva é muito ambicioso, uma distopia de 36 minutos filmada num preto e branco elegante pelos diretores Natalie Musteata e Alexandre Singh. É muito inteligente e definitivamente francês na alma. O filme nos pega por imersão e não vemos o tempo passar enquanto acompanhamos o romance proibido entre duas mulheres num mundo onde o beijo é crime e o pagamento é feito com tapas na cara. A contravenção às regras daquela sociedade absurda é absolutamente delicada e instigante. – HM

A Friend of Dorothy, dirigido pelo britânico Lee Knight com 22 minutos de duração, não tem nada demais em termos de inovação, mas assim como Retirement Plan, ganha pela temática. É previsível e graças a Deus por isso. Com a presença marcante de Miriam Margolyes, é belo, tem muita ternura e nos preenche de esperança pelos encontros que desenvolvemos nessa vida. Mesmo que tudo já pareça perdido, o filme nos lembra que qualquer tempo aproveitado vale a pena. – HM
Butcher’s Stain, dirigido pelo israelense Meyer Levinson-Blount, não tem porque existir. Com 26 minutos que parecem não acabar nunca, o filme nos tira o fôlego pelo cansaço e nos gasta o precioso tempo em que poderíamos estar assistindo algo que minimamente nos entretivesse. Ao tentar abordar um conflito tão sério e complexo como o de Gaza através de um açougueiro injustamente acusado de retirar cartazes de vítimas da parede, toda abordagem, forma e conteúdo beiram a ofensa ao desenvolver um roteiro tão didático e engessado quanto o que foi feito aqui. – HM


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