Para entender Zootopia 2, precisamos olhar para o retrovisor. Em 2016, o primeiro filme se tornou um fenômeno cultural, capturando o zeitgeist de uma era. Agora, quase uma década depois, a Disney nos entrega uma sequência no timing perfeito da trend de 2016 vs. 2026: como envelhecemos, como mudamos e, principalmente, como certas feridas ainda não fecharam. Se o original parecia um acidente feliz em meio a uma filmografia recente irregular, o novo prova que o universo de Judy e Nick tem fôlego para ser uma dinastia.
Numa época sombria para produções de grandes estúdios, a animação é como uma foto analógica revelada com muito carinho que dificilmente um celular tiraria, ainda com aplicativos que simulem o efeito. Vimos o desastre do live-action de Branca de Neve, que provou como a nostalgia reciclada tem validade. Testemunhamos a Pixar, infalível por muito tempo, entregar Elio, que, apesar das boas intenções, registrou a pior abertura da história da marca. Sem mencionar o gosto de naftalina que Wish e Mufasa deixaram na boca dos fãs. Mesmo receoso de voltar a conferir e manchar a bela história que Zootopia nos entregou, foi um alívio sincero ter esse medo não concretizado ao fim do longa.

Em uma — suposta, imagino eu — metalinguagem, chamam nossa coelha protagonista de one hit wonder (sucesso de uma nota só), refletindo diretamente no que todos, público e estúdio, tinham medo: de que o fenômeno Zootopia fosse irrepetível. Felizmente, a resposta bem clara aqui é que não.
A harmonia frágil em que o primeiro filme nos deixa é rapidamente desconstruída desde sua fundação com maturidade de grandes faroestes. Nunca em toda essa década entre os filmes pensaram que a trama se tornaria a dívida histórica de preconceito e marginalização de toda uma classe, os répteis.

Olhando para o horizonte de prêmios, a animação chega ao Oscar 2026 como o campeão que a Disney precisava para não ser varrida do mapa. O grande rival a ser batido é KPop Demon Hunters, da Netflix, um fenômeno cultural que capturou o zeitgeist da Geração Z com sua estética híbrida, frenética e visualmente disruptiva. Para muitos, as Guerreiras parecem representar o futuro da animação — caótico e digital —, enquanto Zootopia 2 defende a honra do classicismo.
Além do duelo de titãs, a categoria apresenta outros concorrentes que expõem algumas questões da Indústria. As produções independentes Arco (com produção de Natalie Portman) e a delicada obra francesa Little Amélie or the Character of Rain correm por fora como as escolhas de prestígio artístico, lembrando à Academia que existe vida inteligente fora das grandes franquias. Ironicamente, Zootopia 2 também compete contra seu irmão Elio, da Pixar, que mais parece estar presente por contrato.

Sendo assunto não tocado no primeiro filme, tudo soa como um grande plano que ainda não tínhamos o prazer e a maturidade de conhecer. Essa construção de mundo, sempre ponto forte da franquia, atinge níveis de detalhismo social até na sonoplastia. Enquanto a Zootopia respeitável dos mamíferos vibra ao som do Pop comercial, o submundo dos répteis no Marsh Market vive de Jazz. Nos pubs esfumaçados e úmidos, escondidos dos holofotes, ouvimos a improvisação daqueles que foram banidos. É até surpreendente para um filme que vende pelúcias a rodo em bombonieres.
Falando em pelúcias fofas, agora temos o Gary (Ke Huy Quan). A cobra mais fofa já vista e a antítese de todo estereótipo vilanesco atribuído às serpentes. Ele é desajeitado, ansioso e profundamente humano, ou animalmente empático. Aqui, o golpe de mestre semiótico foi escalar uma cobra com grandes presas e chocalhos como o coração emocional dessa sequência. Nem por um segundo nos lembramos da repulsa instintiva que cobras nos dão. Em contrapartida ao mundo que conhecemos que abomina todos os répteis, aqui fica claro o poder maléfico das relações públicas.

Agora, os vilões reais. A família Lynxley é o mal institucionalizado. Pawbert e sua linhagem querem proteger o legado e o patrimônio da família a qualquer custo. Eles encarnam a banalidade do mal corporativo e hereditário: ricos, influentes e dispostos a reescrever a história para manter suas estátuas de pé. Nada de novo sob o sol.
E novamente, no coração da trama, nosso enemies to lovers favorito que evoluiu para uma parceria simbiótica. A clássica fricção entre a coelhinha otimista, Judy (Ginnifer Goodwin), que ainda acredita na bondade e justiça, e o raposo rabugento e desiludido Nick (Jason Bateman) que espera o pior do sistema. Ainda que os ameace de morte, Zootopia 2 entende que a força deles se baseia na forma como um completa as falhas morais do outro e constrói sua intimidade para satisfazer tanto quem busca romance quanto amizade.

O filme opera habilmente na transição do microcosmo para o macrocosmo. Começamos com as inseguranças individuais de Judy e Nick e o medo de serem fraudes, de serem one hit wonders e expandimos para uma crítica social abrangente sobre quem tem o direito de escrever a história.
No ato final, o filme evoca as grandes aventuras animadas de outrora — outrora para mim, que nasci em 2002, são os clássicos A Era do Gelo, Os Incríveis, Os Sem Floresta, e outros grandes acontecimentos —, mas com um aspecto dramático contemporâneo e muito bem-vindo.


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