Quando contatado para o papel do protagonista masculino de O Monstro em Mim, Matthew Rhys estranhou: ele não costuma receber ofertas do gênero, para viver homens malignos, sarcásticos, misteriosos e perigosos. Oito episódios depois, a escolha não poderia ser melhor e, ao lado de uma assustada mas persistente Claire Danes, o resultado é uma dança lenta e mortífera ao redor dos crimes reais de um bilionário.
Criada por Gabe Rotter, produtor envolvido no revival de Arquivo X de dez anos atrás, a minissérie da Netflix acompanha a escritora Aggie Wiggs, papel de Danes. Empacada no romance sucessor de seu vitorioso livro de estreia, a mulher divide a rotina entre o álcool e o pesar, especialmente na figura do filho pequeno, morto num acidente de carro.
Divorciada da esposa Shelley (Natalie Morales) e disposta a disseminar a imensidão de ódio que sente pelo rapaz que atropelou o filho, Aggie está na beira do penhasco quando alguns cães de guarda quase estraçalham sua porta de casa, latindo ferozmente para seu cachorro de colo.

O dono dos animais acabou de se mudar para a casa ao lado, uma mansão luxuosa e repleta de câmeras. Ele é Nile Jarvis, papel de Rhys, um magnata do sistema imobiliário que trocou a cidade pelo subúrbio depois de uma caça as bruxas proporcionada pela mídia e pelo FBI quando Maddie (Leila George), sua esposa, desapareceu num aparente suicídio.
O capataz de Niles é o agente Brian Abbott (David Lyons, de E.R.), que deu a vida pela busca de evidências que incriminam o ricaço. Para seu azar, as provas são tão escassas que, quase meia década depois do sumiço da esposa, Nile continua livre – e enriquecendo. A aproximação entre ele e Aggie começa animalesca, para depois escorregar para o campo de parceria criativa.

Ela concordou em assinar a petição que permite a construção de uma pista de corrida no bairro, e ele aceitou ser o objeto de admiração e estudo do próximo livro dela. Troca justa, que acaba ganhando ares de tensão psicológica quando desafetos de Aggie desaparecem, o FBI volta a farejar pistas e Nina (Brittany Snow), a atual mulher e antiga assistente da viúva de Nile, percebe padrões perigosos demais se repetindo.
O que começa como uma perseguição de gato e rato entre escritora e milionário cheio de segredos logo abandona o caráter literário e criativo de sua concepção, apelando para uma teia de conspirações, subornos e assassinatos. No elenco de apoio, nomes como Hettienne Park, Jonathan Banks, Aleyse Shannon, Deirdre O’Connell e Will Brill servem bem ao papel de peões da causa maior. Na direção, um trio formado por Tyne Rafaeli (Tell Me Lies), Lila Neugebauer (Passagem) e Antonio Campos (A Escada) comanda a tensão do thriller.

The Beast in Me demarcou território nas premiações de inverno, angariando menções no Globo de Ouro, no Critics Choice e no Actor Awards, sempre apoiando-se nas performances de Claire Danes e Matthew Rhys. A dupla, vencedora do Emmy por Homeland e The Americans, pode muito bem repetir o amor da Academia quando a edição de 2026 bater à porta. Até lá, a minissérie perpetua sua forte carga dramática e, com a fotografia diurna que descasca cada ruga e expressão facial de seus personagens, revela o caráter brutal de cada um.


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