Os Melhores Livros de 2025

Títulos do Brasil, França, Estados Unidos e da Nicarágua compõe a seleção literária do ano

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Se 2025 deixou algo ao universo literário, foi que o entendimento de que literatura segue sendo um território de tensão: seja entre o colapso e a reinvenção, a inovação e a tradição, ou entre a memória e o presente, ambos sempre em disputa. O Prêmio Nobel de Literatura (finalmente) concedido a László Krasznahorkai selou esse espírito, ao reconhecer uma obra “convincente e visionária que, em meio ao terror apocalíptico, reafirma o poder da arte”. Até então conhecido no Brasil apenas por Sátántangó, o autor conta agora com mais uma obra disponível no mercado nacional e um outro livro no prelo, todos pela Companhia das Letras.

No Brasil, o Prêmio Jabuti ofereceu um retrato ambíguo do campo literário em 2025. Se, por um lado, a premiação celebrou obras de fôlego, como O Ouvidor do Brasil: 99 vezes Tom Jobim, de Ruy Castro, eleito Livro do Ano, e reconheceu Ana Maria Machado como Personalidade Literária, por outro, também enfrentou críticas legítimas pela predominância masculina entre os finalistas. A ausência de mulheres em categorias centrais (como Romance Literário, Romance de Estreia e Crônica) recolocou no centro do debate os critérios de consagração que ainda estruturam o ambiente literário brasileiro tradicional.

O Nobel de Literatura elegeu o húngaro László Krasznahorkai como recipiente do prêmio (Foto: Reprodução)

Foi no circuito alternativo que as palavras das mulheres encontraram louvor e espaço ao longo de 2025. O Prêmio Oceanos viveu um momento simbólico ao premiar, pela primeira vez, duas autoras brasileiras no mesmo ano: a paulistana Silvana Tavano na prosa, com Ressuscitar mamutes; e a alagoana Ana Maria Vasconcelos na poesia, com Longarinas. Já o Prêmio São Paulo de Literatura confirmou a força de Mariana Salomão Carrara, que se tornou vencedora pela segunda vez na categoria de Melhor Romance, desta vez com A árvore mais sozinha do mundo.

Chegando na honraria mais importante da língua portuguesa, o Prêmio Camões distinguiu a angolana Ana Paula Tavares, celebrando uma trajetória que devolve densidade histórica e antropológica à poesia. Num cenário mais globalizado, o Booker Prize coroou o britânico-canadense David Szalay por Flesh, romance ainda inédito no Brasil que investiga masculinidade, classe e poder sob o signo do esgarçamento emocional.

O gesto mais potente do ano, no entanto, aconteceu fora da lógica das premiações. Na Academia Brasileira de Letras, Ana Maria Gonçalves tornou-se a primeira mulher negra a ocupar uma cadeira na instituição. Autora do já clássico Um defeito de cor, Ana elegeu-se imortal na Casa de Machado de Assis saudando seus ancestrais, sua memória e a afirmação de que a literatura é, sobretudo, um campo de reparação. – Raquel Dutra

Um defeito de cor foi escolhido como livro do século pela Folha de São Paulo (Foto: Reprodução)

As adaptações

2025 foi rico em adaptações literárias. E teve para todos os gostos: sucesso no TikTok (A Empregada, Se Não Fosse Você), fãs de Stephen King (A Longa Marcha, O Sobrevivente, O Macaco, A Vida de Chuck), fãs de sci-fi (Mickey 17), apaixonados por clássicos com um pézinho nas premiações (o Frankenstein de Guillermo del Toro), apaixonados por modernidade com um pé nas premiações (Hamnet, Uma Batalha Após a Outra). Para os adoram uma versão Netflix (O Clube do Crime das Quintas-Feiras, Forever), os que adoram terror em suas várias vertentes (Dias Perfeitos), os fãs de minisséries com mistério e reviravoltas (Mentirosos, All Her Fault), e até os que amam live-actions (Como Treinar o seu Dragão), e sequências (Bridget Jones 4 e Wicked: Parte 2).

As despedidas

A notícia da morte precoce da autora Sophie Kinsella, uma das mães do gênero literário chick-lit, chocou o mundo do entretenimento. Também faleceram nomes como Jane Goodall, importante cientista que documentou chimpanzés e escreveu diversas obras sobre os animais; o Nobel da Literatura Mario Vargas Llosa, escritor de origem peruana, nos deixou aos oitenta e nove anos. No Brasil, sofremos o luto por Luis Fernando Veríssimo, cronista sem igual que ostentou um legado literário para além dos jornais e das comédias. 

Veríssimo ganhou um documentário em 2024, dirigido por Angelo Defanti (Foto: Reprodução)

Atmosfera, de Taylor Jenkins Reid

Desde que entrou na NASA, a vida de Joan Goodwin gira em torno apenas e exclusivamente de virar astronauta. Ela faz parte de uma das primeiras turmas a ter mulheres na agência espacial norte-americana e não vai dar o braço a torcer quando o assunto é bater de frente com os homens e ir ao espaço. Mas nem tudo que importa está no céu: Houston vai descobrir que o amor está bem do seu lado, na Terra. E será mais custoso vivê-lo em segredo do que viajar para fora do planeta.

Publicado no Brasil pela editora Paralela e traduzido por Alexandre Boide, Atmosfera nos leva à corrida espacial dos anos 1980 para enfrentar as dores e as belezas do incerto, seja no solo terrestre ou acima das nuvens. – Vitória Gomez


Triste tigre, de Neige Sinno

Neste difícil e poderoso romance da autora franco-mexicana, o relato de abuso sexual por parte do padrasto corta o leitor como navalha em chamas. A escrita não procura metáforas nem floreios, enxergando a vítima na posição de interlocutora e o agressor enterrado numa montanha de burocracia e memórias. Publicado no Brasil pela Amarcord com tradução de Mariana Delfini, leia mais sobre Triste tigre aqui. – Vitor Evangelista

Nascida na França e radicada no México, Neige Sinno escreve sobre o abuso sofrido na infância (Foto: Amarcord)

Uma delicada coleção de ausências, de Aline Bei

Os traços biográficos da literatura da jovem autora Aline Bei ficam de lado em seu mais recente lançamento. Desta vez, acompanhamos a história cotidiana de avó e neta, com um grande rombo sentimental no meio. Longe dos clichês aconchegantes, Uma delicada coleção de ausências fala de perda, luto e arrependimento, com aquela poesia dolorosa que só a mente por trás de Pequena coreografia do adeus conseguiria conjurar. Leia mais aqui. – VE

O desabamento, de Édouard Louis

Depois de falar sobre o pai, a mãe, sua emancipação e a vida em Paris, o francês Édouard Louis volta ao território familiar em O desabamento. Narrando a morte precoce do irmão, de quem não era próximo e tampouco sentirá falta, o escritor rememora o passado, com fatos, relatos e até conversas com o fantasma do falecido. No Brasil, saiu pela Todavia com tradução de Marília Scalzo. Leia mais aqui. – VE

Coisa de rico, de Michel Alcoforado

O antropólogo de luxo Michel Alcoforado passou anos pesquisando e adentrando o mundo dos endinheirados brasileiros. Na tese de doutorado, posteriormente transformada em livro publicado pela Todavia, o autor esmiúça costumes, cerimônias e escreve personagens dignos da ficção. Bom humor e cortes ácidos ajudam a mesclar o simples relato de um objeto de análise sócio-cultural – e delicioso de ser lido. – VE 

Coisa de rico provou-se um sucesso de vendas no Brasil, fomentando a eterna curiosidade pela vida do endinheirados no país (Foto: Todavia)

A Contagem dos Sonhos, de Chimamanda Ngozi Adichie

A Contagem dos Sonhos, lançado pela Companhia das Letras, é o mais recente e profundamente envolvente romance da escritora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie, autora de sucessos como Americanah e Sejamos Todos Feministas. A obra entrelaça a vida de quatro mulheres cujas histórias se cruzam em narrativas marcadas por desejos, perdas, escolhas difíceis e reflexões sobre o amor e a identidade, muitas vezes ambientadas no contexto global da quarentena na pandemia. Através dessas personagens, o livro mergulha em experiências femininas diversas, explorando tanto temas universais quanto as vivências específicas de mulheres africanas e imigrantes, confrontando expectativas sociais, traumas e a busca por autonomia. – Júlia Paes de Arruda

A mulher habitada, de Gioconda Belli

Publicado originalmente em 1988 e lançado no Brasil pela Rosa dos Tempos/Record, o livro acompanha Lavínia, uma jovem arquiteta que retorna à sua terra natal no início dos anos 1970 e, ao se envolver com o colega revolucionário Felipe, começa a questionar seu papel na sociedade e a se engajar na luta contra a ditadura que oprime seu país, a Nigéria. Paralelamente, a narrativa nos apresenta Itzá, uma guerreira indígena do século XVI cuja presença inspira e alimenta a coragem de sua sucessora em uma poderosa conexão entre passado e presente. 

Através dessas duas protagonistas, Belli explora temas centrais como liberdade, resistência, opressão patriarcal e identidade feminina, oferecendo uma reflexão sobre como as mulheres rompem com expectativas sociais e se afirmam em lutas coletivas e pessoais. Com lirismo e audácia, a autora nicaraguense constrói um retrato de feminismo que transcende épocas e contextos, mostrando como a emancipação individual se entrelaça à busca pela dignidade de um povo. – JPA

Chia, Zikora, Omelogor e Kadi têm vidas totalmente distintas entre si, mas compartilham de vivências entrelaçadas pelo machismo e a xenofobia (Foto: Companhia das Letras) 

O rio que me corta por dentro, de Raul Damasceno

Uma das revelações mais intensas da literatura brasileira em 2025, publicado pela Astral Cultural e aclamado tanto por leitores quanto pela crítica por sua escrita poética e emocionalmente profunda. Ambientado no sertão cearense, o romance acompanha Cícero, um jovem marcado pela ausência da mãe e pela sede de pertencimento, cujas lembranças, dores e expectativas moldam sua jornada de autodescoberta em meio às paisagens áridas e às margens de um rio simbólico e visceral. 

Ao longo das suas 176 páginas, Damasceno constrói uma narrativa densa sobre amor, amizade, ausência e identidade, explorando um amor que desafia convenções e se desenrola entre Cícero e seu amigo Luzimar, enquanto o protagonista confronta suas próprias feridas internas e as correntes sociais que o cercam. A prosa, fluida e sensível, atua quase como uma correnteza emocional que “corta” o leitor, convidando-o a sentir cada nuance de tristeza e esperança vivida pelos personagens, em uma obra que, apesar de enxuta, permanece na alma muito tempo após a leitura. – JPA

A princípio, o livro havia sido publicado de forma independente em novembro de 2021 antes de ser lançado pela Editora Astral, em junho de 2025 (Foto: Editora Astral Cultural)

Amanhecer na Colheita, de Suzanne Collins

Na nova sequência de Jogos Vorazes, publicado pela Editora Rocco, Suzanne Collins nos leva de volta a Panem para mostrar que o fim anunciado pelos canhões nunca é o ponto final. Ao acompanhar a juventude de Haymitch Abernathy na 50ª edição dos Jogos Vorazes, o livro escancara as violências que não ganham holofotes: as perdas silenciosas, a culpa por sobreviver e a forma como o espetáculo corrói tudo o que toca. Aqui, não há espaço para romantizar a dor. O que vemos é um personagem sendo moldado por um sistema que transforma trauma em entretenimento. Leia mais aqui. – JPA

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