O Vampiro Lestat vai ao passado para brincar com as origens sobrenaturais de Anne Rice

Narrando o alvorecer de Lestat, o livro enriquece a mitologia criada pela autora norte-americana

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Nove anos depois da publicação de Entrevista com o vampiro, Anne Rice retornou ao mundo literário das criaturas mas desta vez sob a perspectiva d’O Vampiro Lestat, num romance com tons histriônicos e dramáticos que apenas o par romântico de Louis poderia suscitar. A história começa na década de oitenta, quando o Bebedor de Sangue acorda de um longo sono e decide contar a própria história.

Após ver o mundo das sombras ser desnudado pelos relatos de Louis ao jornalista Daniel Molloy, Lestat ganha ímpeto para não apenas escrever sua autobiografia, como também para iniciar uma banda de rock que causaria frisson e mudaria para sempre o status quo da espécie.

“Mas onde estavam os outros monstros do Velho Mundo? Eu me perguntava. Como outros vampiros existiam num mundo em que cada morte era registrada em gigantescos computadores eletrônicos, e os corpos eram levados para criptas refrigeradas?”

A edição brasileira é publicada pela Rocco com tradução de Reinaldo Guarany, que substitui o trabalho de Clarice Lispector no livro que abre as Crônicas (Foto: Rocco)

Portanto, O Vampiro Lestat primeiro situa o leitor no presente do protagonista para depois mergulhar em sua origem, na França do século XVIII, com o amadurecimento de um jovem senhor de terras que, capturado por uma criatura nefasta, transformou-se em vampiro contra a própria vontade. Tocando em temas de pertencimento, a existência da alma e o propósito de alguém imortal, o segundo volume de As Crônicas Vampirescas é todo feito de mitologia e pesar. “Por que eu sempre tinha que cair nos extremos? Por que me comportava habitualmente como uma criatura selvagem?”, lamenta o protagonista.

Aqui, conhecemos a mãe de Lestat, Gabrielle, a quem ele concede o dom da vida eterna e mantém uma relação ambígua de amor e romance. Há, também, foco em Magnus, o genitor que troca sangue com o lorde e o transforma em vampiro. A inauguração do Teatro dos Vampiros, palco dos horrores do livro anterior, é observada com atenção aos detalhes e aos mecanismos de persuasão e poder da sociedade parisiense. 

“Senti que morreria se continuasse, mas continuei e não morri”.

Lestat: The Musical teve uma rodagem tímida pelo palcos da Broadway (Foto: Reprodução)

Armand está no centro da ação, menosprezando e aterrorizando Lestat, que acaba viajando para longe e encontrando, também, o vampiro Marius, uma das criaturas ancestrais da espécie. É por ele que Lestat descobre os primórdios dos deuses sanguinolentos, com relatos embebidos em lendas, mortes e figuras grandiosas demais para o entendimento mundano.

Anne Rice dedica zelo ao crescimento de seu anti-herói de estimação, revelando o magnetismo de uma criatura capaz de encantar os mais antigos dos seres. “Eu sou o vampiro deste tempo”, ele declara. Quando a história se emparelha com a de Louis em Entrevista, o livro volta a avançar no tempo e, entre shows selvagens e videoclipes virais, apresenta um gancho cruel, desembocando na futura história de Akasha, personagem emblemática da autora.

“Já vivi mais de mil e oitocentos anos e lhe digo que a vida não precisa de nós. Eu jamais tive um verdadeiro propósito. Nós não temos lugar”, conclui o ancestral vampiro Marius

O Vampiro Lestat será adaptado na terceira temporada da série da AMC (Foto: AMC)

Fora da Literatura, O Vampiro Lestat ganhou tratamento visual e gráfico numa série de quadrinhos da década de 90, além de ter partes adaptadas no filme A Rainha dos Condenados, com a cantora Aaliyah vivendo a protagonista. Teve espaço para a criação de um singelo espetáculo, com canções de Elton John e Bernie Taupin, e libreto de Linda Woolverton. Lestat: The Musical apresentou-se em cerca de 60 datas, entre espetáculos prévios e os palcos da Broadway em Nova York, com 2 indicações ao Tony.

A terceira temporada de Interview with the Vampire mudou de título e, sob a alcunha de The Vampire Lestat, promete trazer a origem do personagem de Sam Reid, em toda sua glória intimista e fabular, com direito a álbuns, a persona roqueira do monstro sensual, e aquela disruptiva energia que Anne Rice sempre impregnou em suas criações, reflexos de um mundo perdido nas crenças e nas divindades. Que Lestat sirva de guia, luz e mapa para os perdidos da noite novamente. 

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