Ainda que uma peruca mal posta chame muita atenção, Zi tem seu brilho

Hong Kong é deslumbrante e Kogonada sabe disso, só se desequilibra ao homenagear o que poderia ser seu trunfo autoral

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Zi (2026) é um drama experimental que explora a solidão urbana em Hong Kong sob a ficção de uma personagem que é atormentada por visões de si mesma no futuro. Exibido no Festival de Sundance e na categoria Perspectiva Internacional na 50ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, somos contemplados pela assinatura de Kogonada a quem já conhecíamos de Columbus (2017). No entanto, mesmo com uma equipe de produção enxuta, o longa ainda peca por excesso.

Nessa metrópole noturna e vertiginosa, Zi sofre de uma condição inexplicável que a faz enxergar versões futuras de si mesma espalhadas pela cidade: ou prova da relatividade temporal humana ou sintoma grave de um tumor. Toda dúvida e melancolia é bem ancorada quando interpretada por Michelle Mao. Sentimos nela toda angústia da mortalidade e confusão quando em tela, isso junto a desesperança nos imensos arranha-céus e luzes neon que se perdem nos becos complementando toda ficção, e orientados pelo diretor de fotografia Benjamin Loeb, de Doente de Mim Mesma (2022) e O Homem dos Sonhos (2023). Sobretudo melhor quando saímos do cinema em um dia chuvoso em São Paulo.

Infelizmente interrompem a solidão da protagonista no que poderia ter sido uma linda jornada de descobertas. Elle, interpretada pela mesma Haley Lu Richardson que protagonizou Columbus, aparece em uma das visões de Zi, mas poderia ter ficado por lá. Ao se cruzarem, entram em uma sintonia inexplicável que nem a ficção sustenta. Ainda que o motivo disso seja turvo, a junção de alguns fatores como a atuação pouco expressiva de Haley, falas muito simplórias ou repetição de padrões insossos fazem com que, mesmo sendo o contraponto esperançoso, pese a balança até o desequilíbrio.

Durante as gravações, a equipe era de sete pessoas (Foto: Haley Lu Richardson)

Todo longa se passa desde o anoitecer até a manhã. E essa noite é uma criança ingênua suficiente para que nada justifique a confiança, escolhas e desenrolar do que por muito não se distancia de uma amizade de infância, ainda que se conheçam há poucas horas. Toda a construção comportamental de Elle é exaustiva, especialmente o pedido da atriz de usar uma peruca loira por inspiração de Chungking Express (1994), filme que o diretor a recomendou assistir. O problema é que, mesmo com boas intenções, Haley Richardson não é Brigitte Lin nem Kogonada é Wong Kar-Wai.

A construção estética e comportamental de Elle reforça exaustivamente essa inadequação dentro de todo cenário e conexão entre os personagens. Principalmente nessa ostentação de uma peruca conceitualmente mal posicionada que ganha um incômodo destaque através de close-ups inexplicáveis e excessivos da direção de fotografia. Além disso, isso só fortalece a projeção incansável dos próprios desejos e frustrações em todas as dinâmicas com Zi. Todo destaque e pontos fortes do filme, sua filosofia e núcleo emocional, parecem se dissipar quando se torna sobre ela.

O ambiente oferecia um cenário praticamente impecável para uma observação passiva da vida noturna asiática, onde os personagens poderiam simplesmente sentar, comer, beber e conversar enquanto o mundo ao redor seguia seu curso natural. Em vez de manter essa distância observacional madura, Elle obriga a participação ativa e performática transformando momentos incidentais e casuais em sequências constrangedoras.

Min, Zi e Elle e sua peruca (Foto: Haley Lu Richardson)

Para completar a complexa trama com tão poucos elementos, Min, interpretado por Jin Ha, vigia os passos de Zi, até que o roteiro nos re-apresenta como ex-namorado de Elle e detentor de algum saber quanto à experiência temporal da protagonista. Talvez ela morra, talvez se perca no tempo, ela precisa fugir ou esperar que a encontrem? Ficaríamos tão angustiados quanto ela se tivesse nos dado espaço. Mas as conveniências são tão absurdas para uma metrópole da magnitude de Hong Kong que tanto nós quanto os três protagonistas já não sabemos o que esperar.

Em uma cena, Zi se afasta e dá um perdido nos dois, que saem à sua procura por todas as ruas do centro. A encontram tocando violino em um túnel, de duas uma: ou o filme poderia acabar ali ou poderiam nunca mais encontrá-la, mas lamentavelmente recusam essas oportunidades de terminar no alto e o longa se arrasta, provavelmente à pedido de Elle.

Mas, apesar do hiperfoco crítico aqui em relação a questões não tão positivas quanto poderiam ser, não há dúvida que existem méritos muito positivos. Lembremos também de que só somos cobrados se de fato tivermos valor. Temos vistas deslumbrantes de um lugar que incluiríamos como próximo destino de viagem, e a temática abre tantos bons precedentes que nos faz ficar intensamente interessados, tanto por suas personalidades quanto por suas questões ficcionais em relação à percepção temporal. Talvez ajustar o tom e caminhar com passos mais firmes pudesse ter construído uma experiência com potencial melhor aproveitado.

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