O diabo é o menor dos mistérios em Grande Sertão: Veredas

Aos 70 anos, o clássico de João Guimarães Rosa sobrevive às suas próprias metáforas

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Aviso de spoiler: este texto conta detalhes importantes do enredo.

Nonada. Tiros que o senhor ouviu foram de briga de homem não, Deus esteja. Riobaldo, ex-jagunço e fazendeiro, conversa com um senhor que nunca responde, por quase seiscentas páginas e sem capítulos. Ele conta a guerra, seu bando, sua infância e volta várias vezes à mesma dúvida. Se vendeu a alma ao diabo numa encruzilhada, nas Veredas-Mortas. Mas nunca decide.

O romance saiu em 1956, pela José Olympio, no mesmo ano de Corpo de Baile, cujas novelas exploram a alma e os amores dos moradores do sertão, e dez anos depois de Sagarana (1946), coletânea de contos que misturam misticismo e a vida dos vaqueiros.

Antonio Candido chamou de obra-prima e escreveu que há ali de tudo para quem souber ler. Paulo Rónai destacou as audácias da construção enquanto Múcio Leão falou de toda uma língua nova. Guimarães Rosa inventa a fala do lugar, com palavras que não existem no dicionário. Por isso é tão difícil.

Tony Ramos como Riobaldo e Bruna Lombardi como Diadorim em minissérie homônima ao livro (Foto: Globo)

Euclides da Cunha colocou o sertão no debate nacional com Os Sertões, em 1902, mas mais como estudo e denúncia. Em Grande Sertão: Veredas, Guimarães Rosa escreve o território e passa a vênia à Riobaldo. Do livro saíram um filme em 1965, a minissérie da Globo em 1985, uma peça de Bia Lessa em 2017 e, em 2024, dois filmes: o de Bia Lessa e o de Guel Arraes.

Em novos contextos, o sertão continua em alta. Cangaço Novo, do Prime Video, estreou em 2023, foi indicada em seis categorias no Prêmio Platino 2024 e voltou em abril de 2026 com a segunda temporada. A Globo apostou duas vezes: Mar do Sertão, na faixa das seis, fechou 2022 e 2023 com média de 19,2 pontos, e Guerreiros do Sol, de 2025, levou o cangaço para o Globoplay e ganhou o Rose d’Or de melhor telenovela, em dezembro de 2025, em Londres. 

Na literatura, a referência recente é Torto Arado, de Itamar Vieira Junior, que venceu o Leya, o Oceanos e o Jabuti. O autor soma cerca de um milhão de livros vendidos, e o romance, passado na Chapada Diamantina, acaba de ganhar versão em quadrinhos. Grande Sertão: Veredas faz 70 anos e sequer parece uma produção antiga.

Naqueles olhos e tanto de Diadorim, o verde mudava sempre, como a água de todos os rios em seus lugares ensombrados. Aquele verde, arenoso, mas tão moço, tinha muita velhice, muita velhice, querendo me contar coisas que a idéia da gente não dá para se entender – e acho que é por isso que a gente morre.

O centro do romance é Diadorim. Riobaldo o conhece adolescente, numa travessia de barco. Anos depois, eles se reencontram no bando de Joca Ramiro, de quem Diadorim é filho. Hermógenes e Ricardão traem e matam o chefe. Diadorim é o mais corajoso do grupo, não se despe na frente de ninguém, não procura esposa e se banha sozinho. Morre matando Hermógenes. Ao lavar o corpo, descobrem que nasceu uma mulher.

O livro nunca diz com muita clareza o que Riobaldo sente por ele, mas com tantas metáforas sequer precisa. Diadorim é a minha neblina. Ele conta já sabendo o desfecho desde o início, e mesmo assim troca ele por ela nas últimas páginas, como Alex Castro destaca: a saudade dele num trecho, ela tinha me negado em outro. Ainda que cansativo, pelo calhamaço que é, e ainda sem capítulos, em certo ponto isso deixa de importar. A adaptação ao ritmo e linguagem podem demorar, mas a história e a cabeça de Riobaldo são tão interessantes, curiosas e instigantes que o tamanho deixa de fazer diferença. E não há maestria igual a qualquer outro escritor para reproduzir os sentimentos que as últimas páginas fazem no leitor.

João Guimarães Rosa tinha uma coleção de livros dedicada exclusivamente aos seus gatos (Foto: Instituto Moreira Salles)

A crítica foi lendo isso conforme a época. Nos anos 1950 e 60, era um homem que amou sem saber uma mulher vestida de homem. Nos anos 70 e 80, passou a ser lido como o grande romance gay brasileiro, porque o desejo está nas páginas que lemos, e não em seus corpos. Hoje há quem leia Diadorim como homem trans, que viveu a vida inteira como homem e só aparece mulher no registro e no cadáver. Se perdêssemos a última página, ninguém duvidaria da segunda leitura.

Há quem compare Diadorim a Mulan. Nas duas, uma mulher veste armadura e vai à guerra. A diferença é que Mulan quer voltar para casa. Diadorim vive daquele jeito a vida toda e não espera voltar à lugar algum. Riobaldo diz que o mais importante e bonito, do mundo, é isto: que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas e termina com palavras soltas que amarram tudo: Existe é homem humano. Travessia.

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