Em THIS MUSIC MAY CONTAIN HOPE, Raye assina a obra de uma vida

Sem sombras e sem heranças, a cantora britânica não busca um trono deixado por outros, pois está ocupada demais construindo o seu próprio

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Se em My 21st Century Blues (2023) nós testemunhamos o exorcismo público de uma artista que precisava implodir as estruturas da indústria para não ser soterrada por elas, em THIS MUSIC MAY CONTAIN HOPE., o cenário muda drasticamente. Não estamos mais no Uber infinito de Escapism., mergulhados no neon e no torpor. Estamos no amanhecer. Mas não se engane, pois o sol da Raye brilha sobre as cicatrizes que ela fez questão de nos mostrar no disco anterior. É um álbum de cura, sim, mas de uma cura que conhece o preço do sangue.

Para entender este novo trabalho, é preciso revisitar a trajetória hercúlea de Rachel Agatha Keen. Após anos sendo silenciada por engravatados que não sabiam o que fazer com uma mulher negra que exalava Jazz e autenticidade, Raye fez história. O Grammy de 2024 pode ter tentado ignorá-la, e o de 2025 pode ter entregado apenas migalhas, mas o público e o BRIT Awards já haviam selado o destino dela como a maior força da música britânica contemporânea.

THIS MUSIC MAY CONTAIN HOPE. surge como a prova definitiva de que a independência não foi um refúgio, mas uma plataforma de lançamento. Enquanto muitos artistas se perdem após o “disco do trauma”, Raye se refinou. Ela pegou a raiva do seu primogênito e a transformou em uma sabedoria sonora que poucos veteranos com décadas de carreira conseguem alcançar.

Nascida em Londres, de ascendência ganesa, suíça e inglesa, ela estudou na prestigiada BRIT School, a mesma de Adele e Amy Winehouse (Foto: Todd Owyoung/NBC)
Nascida em Londres, de ascendência ganesa, suíça e inglesa, ela estudou na prestigiada BRIT School, a mesma de Adele e Amy Winehouse (Foto: Todd Owyoung/NBC)

Eu sempre fui o primeiro a apontar o dedo para a fadiga do streaming. Critiquei e continuarei criticando álbuns que incham suas tracklists apenas para inflar números, entregando faixas que parecem descartes ou variações do mesmo tema. Pode parecer hipocrisia da minha parte, portanto, exaltar com tanto fervor um álbum que se estende generosamente por tantas faixas. Mas a explicação é tão simples quanto arrebatadora, afinal, o tema da “esperança” no título não é ingênuo, é uma esperança blindada, que passou pelo fogo e saiu intacta.

A experiência começa com a Intro: Girl Under the Grey Cloud, uma peça cinematográfica que nos transporta de volta àquela névoa de incerteza do álbum anterior, apenas para ser dissipada pelo poder avassalador de I Will Overcome. Esta música é o manifesto deste novo momento. Se Hard Out Here, do primeiro álbum, era o grito de guerra, esta é a marcha da vitória. 

Com um arranjo de metais que evoca a era de ouro da Motown, gravadora clássica americana, fundida com a crueza de Londres, ela canta como quem atravessou o deserto e sabe exatamente onde fica o oásis. É uma faixa de superação clara, direta e tecnicamente impecável, que prepara o terreno para as crônicas sociais que seguem, como a mordaz Beware.. The South London Lover Boy e a genial The WhatsApp Shakespeare, onde ela disseca o namoro moderno com um sarcasmo tão afiado quanto suas melodias, transformando mensagens de texto em tragédias literárias viciantes.

O álbum então mergulha em águas mais profundas e frias com Winter Woman, uma balada que parece congelar o tempo. Ela é melancólica o suficiente, com vocais que transmitem uma solidão palpável, como uma representação sonora da exata estagnação emocional que precede a mudança. Mudança essa que serve perfeitamente de prelúdio para a grandiosidade experimental de Click Clack Symphony. 

A colaboração com Hans Zimmer não é apenas um luxo, como também uma fusão necessária onde o som de saltos altos no asfalto se transforma em uma percussão orquestral épica, simbolizando o despertar de uma mulher que decide voltar a caminhar pelo mundo. Essa energia se volta para dentro em I Know You’re Hurting, um abraço sonoro sobre saúde mental que flui perfeitamente para o coração pulsante do disco: Life Boat.

Não tenho medo de dizer que Life Boat é a composição mais importante da carreira de Raye até hoje, e é, sem dúvida, a minha favorita absoluta — perdoem-me os críticos ferrenhos que mostraram seu descontentamento com a faixa. É aqui que o álbum atinge seu ápice de vulnerabilidade e genialidade produtiva. Flertando com um house etéreo e vocais que parecem flutuar em um mar de incertezas, Raye transforma o pedido de socorro “Lord send me a life boat” em um mantra de auto-resgate. 

É uma música que eu sinto em cada terminação nervosa; ela consegue ser experimental, distorcida e, ao mesmo tempo, terrivelmente humana. É o som da alma se desprendendo do trauma e encontrando terra firme. A produção aqui é o ápice do experimentalismo funcional que te faz dançar enquanto sua alma chora. É impecável.

Antes de estourar como cantora, Raye escreveu sucessos para grandes nomes como Beyoncé, Rihanna, Ellie Goulding e David Guetta (Foto: Paramount+)

Essa honestidade brutal continua em I Hate The Way I Look Today, onde ela volta ao jazz puro para falar de dismorfia com uma coragem que poucos artistas teriam. É um contraste magnífico com a elegância clássica de Goodbye Henry, ao lado de Al Green, e a performance vocal de tirar o fôlego em Nightingale Lane, onde ela se consagra como uma das maiores intérpretes de nossa geração. 

Entre a fragilidade física de Skin & Bones e o humor contagiante de WHERE IS MY HUSBAND!, Raye nos mostra todas as suas facetas, sem filtros. O álbum se encaminha para o fim com a doçura ancestral de Fields, onde a voz de seu avô nos lembra de que somos feitos de história, preparando o espírito para a explosão de luz que é Joy.

Em Joy, ao lado de suas irmãs, Raye entrega o que eu considero o fechamento de um ciclo de dor. É um gospel-pop vibrante, uma celebração que não ignora as cicatrizes, mas dança sobre elas. É o som da liberdade conquistada, que se estende pelo mantra sereno de Happier Times Ahead até chegar ao gran finale: Fin. Este encerramento é um toque de mestre cinematográfico; um noir-jazz de créditos finais onde ela agradece nominalmente sua equipe, transformando a gratidão em arte. É o ponto final em uma obra que não tem um único segundo de desperdício.

Raye é muito fã de bossa nova, citando João Gilberto, e foi uma das compositoras da música “Girl From Rio”, de Anitta (Foto: Associated Press)

Neste disco, a duração é uma necessidade narrativa. A talentosa britânica faz isso com tamanha perfeição que cada faixa atua como um capítulo indispensável de um romance em formação. Raye compõe com a precisão de quem sabe que a esperança, para ser crível, precisa de tempo para germinar. Cortar uma música deste álbum seria como arrancar uma página crucial de um diário sagrado. O sentido se perderia. 

Ela criou um ecossistema onde o Jazz, o R&B e o Pop coexistem em uma harmonia tão densa que você termina a audição sentindo que não apenas ouviu canções, mas viveu uma vida inteira ao lado dela. Ao silenciar a última nota de THIS MUSIC MAY CONTAIN HOPE., a conclusão é inevitável e livre de qualquer modéstia: este é, simplesmente, um dos melhores álbuns que eu já escutei em toda a minha vida. 

Raye não apenas elevou o nível da música pop e do jazz, como criou um novo padrão de autenticidade. É um disco que nos faz sentir vivos, que valida nossas dores e, mais importante, nos convence de que a esperança é, sim, um destino possível. Se o mundo ainda tinha dúvidas, agora não tem mais: Raye é uma lenda viva, e nós temos a sorte de sermos contemporâneos de sua obra-prima definitiva.

A seguir, que o tempo pare e o silêncio se desfaça, para que possamos testemunhar o encontro raro entre o gênio e a sensibilidade. Com vocês, Raye:

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