Raízes são o ponto de partida de uma pessoa ou de um povo. O que nos liga à nossa origem, à cultura que herdamos e às histórias que vieram antes de nós. A memória, por sua vez, é o mecanismo que permite guardar e revisitar experiências, acontecimentos e sentimentos ao longo da vida. Mais do que um arquivo do passado, é algo vivo, que se transforma conforme lembramos e reinterpretamos aquilo que vivemos. Já o perreo, apesar de parecer distante dos dois primeiros conceitos, também carrega identidade, história e expressão cultural. É um estilo de dança intenso e sensual típico do reggaeton, muito presente na cultura musical de Porto Rico. Esses três elementos moldam o que DtMf, o álbum mais recente de Benito Antonio Martinez Ocasio, nome de batismo de Bad Bunny, representa.
Com uma carreira marcada por recordes de streaming e presença constante no topo das paradas globais, Benito traz neste projeto sua face mais genuína e autêntica. DtMf fala sobre orgulho latino e porto-riquenho, a força das lembranças e sobre o valor das relações que nos acompanham ao longo da vida. O disco também celebra o ato de dançar, de aproveitar os momentos e de estar presente. Mesmo quando as letras carregam certa melancolia, o projeto mantém uma energia contagiante.
O álbum fez história ao se tornar o primeiro disco cantado inteiramente em espanhol a vencer o prêmio de Álbum do Ano no Grammy Awards. A conquista aconteceu em uma cerimônia marcada por críticas de diversos artistas às políticas de imigração do governo de Donald Trump. Ao subir ao palco, Bad Bunny dedicou o prêmio aos imigrantes que “deixam sua casa, sua terra e seu país para seguir seus sonhos”. O impacto cultural do mesmo também ficou evidente poucos dias depois, quando Benito fez história (de novo) no Super Bowl LX Halftime Show ao protagonizar o show de intervalo mais assistido da história, com mais de 135 milhões de espectadores ao redor do mundo. Cantando inteiramente em espanhol, ele transformou o palco em uma grande celebração da cultura latina e, durante a apresentação, mencionou a “América” enquanto citava diversos países do continente, em uma crítica à ideia difundida nos Estados Unidos de que apenas seus cidadãos são chamados de “americanos”.
Mas, antes de mergulhar em todas as camadas dessa nova era do artista, é importante olhar para dois contextos que ajudam a entender melhor o universo que molda esse trabalho: a história de Porto Rico e o surgimento do reggaeton.
Porto Rico é uma ilha caribenha cuja história foi profundamente marcada pela colonização espanhola iniciada no início do século XVI. Durante muito tempo, o território teve importância estratégica para o império espanhol. No final do século XIX, após a Guerra Hispano-Americana, a ilha passou ao controle dos Estados Unidos; e desde 1952, possui o status de Estado Livre Associado, o que significa que seus habitantes são cidadãos americanos, mas enfrentam limitações políticas, como a impossibilidade de votar nas eleições presidenciais e uma representação restrita no Congresso. Além disso, a ilha convive com desafios estruturais importantes, incluindo problemas recorrentes de infraestrutura e denúncias de corrupção. Esses temas aparecem com frequência na produção cultural local. Um exemplo é a música El Apagón, do álbum Un Verano sin Ti, que critica a precariedade do sistema elétrico e expõe questões políticas e sociais do território.
O reggaeton, por sua vez, embora contenha raízes no Panamá e em movimentos musicais ligados ao reggae jamaicano, desenvolveu-se e ganhou identidade própria em Porto Rico. Entre o final dos anos 1980 e o início dos anos 1990, artistas locais começaram a combinar o reggae em espanhol com elementos do hip hop e de outros ritmos caribenhos, criando uma sonoridade nova que, com o tempo, se tornaria um fenômeno global.
Benito se apoia nesses dois momentos históricos e culturais para construir seu novo álbum. Ao longo do projeto, incorpora ritmos tradicionais porto-riquenhos, como plena e salsa, e os mistura com elementos de reggaeton, bomba, jíbaro e outras influências caribenhas. O resultado é um disco que celebra a identidade cultural da ilha não apenas na sonoridade, mas também nas pessoas envolvidas em sua construção. Todas as colaborações do álbum são de artistas porto-riquenhos, o que reforça esse compromisso com a cena local. Participam do projeto nomes como RaiNao, na faixa Perfumito Nuevo; Omar Courtz e Dei V em Veldá; e a banda Chuwi, que aparece em Weltita. Além disso, Los Pleneros de la Cresta é a banda de apoio que acompanha o artista por todas as apresentações da nova era e participa de CAFé CON RON.
Em Weltita, a participação da banda Chuwi ganha um destaque especial. Em entrevista, o grupo contou que teve liberdade criativa para acrescentar à faixa a autenticidade e o “molho” característico de seu som. O resultado é uma das músicas mais cativantes do álbum. Dançante e extremamente viciante, a canção se destaca desde a primeira audição. A vocalista da banda, Lorén Aldarondo Torres, conduz a faixa com uma voz doce, e ao mesmo tempo potente, que funciona como o toque final perfeito.

E já que estamos falando de faixas contagiantes e feitas para dançar, é impossível não mencionar CAFé CON RON e LA MuDANZA. A segunda merece um destaque especial por funcionar quase como uma pequena autobiografia de Benito. Na música, ele revisita suas origens, exalta a própria família e reforça o orgulho de suas raízes trabalhadoras, deixando claro que não pretende se afastar da terra onde cresceu. O sentimento aparece de forma direta no refrão: “Daqui ninguém me tira… Esta é minha casa, onde o meu avô nasceu”. Não por acaso, LA MuDANZA também abre os shows da turnê, estabelecendo desde o primeiro momento o clima festivo e a imersão na cultura porto-riquenha que guia toda a experiência do público. Quando olhamos para as faixas tristes, mas, como dito, ainda assim, dançantes e contagiantes, BAILE INoLVIDABLE representa perfeitamente esse equilíbrio. Um dos maiores sucessos do disco, a canção já ultrapassa 1 bilhão e 400 milhões de reproduções no Spotify. Na letra, o cantor fala sobre o fim de um relacionamento inesquecível e sobre a saudade que permanece depois dele. A dança aparece como metáfora para esse amor marcante, enquanto o artista reflete sobre a dificuldade de seguir em frente após alguém que, como ele mesmo sugere, o ensinou a amar e a dançar.
Ainda que o álbum seja carregado de referências culturais, sociais e históricas, Bad Bunny não deixa de lado o bom e velho perreo que se tornou uma de suas marcas. A mistura entre trap e reggaeton aparece em diversas faixas do projeto, mas ganha destaque especial em VOY A LLeVARTE PA PR. A música é uma das que o artista apresenta durante os shows em um espaço específico da turnê conhecido como “casita”, um palco separado do principal. A dinâmica do espetáculo reforça justamente as duas facetas do cantor. No palco principal, ele apresenta as canções mais ligadas às tradições e à identidade de Porto Rico, quase como se estivesse ali o Benito. Já na casita, o clima muda e surge o Bad Bunny mais irreverente, ligado ao perreo e à energia das pistas.

Na casita, Bad Bunny também apresenta outros sucessos populares de sua carreira, incluindo músicas de álbuns muito queridos pelos fãs, como Un Verano Sin Ti. É nesse palco que o artista revisita alguns de seus maiores hits, como Tití Me Preguntó, MONACO e No Me Conoce, entre outros marcantes de sua discografia.
Essa, inclusive, foi a primeira passagem de Benito pelo Brasil, com dois shows esgotados em São Paulo e noites marcadas por diversas demonstrações de carinho do artista pelo público brasileiro. Em diferentes momentos da apresentação, ele comentou que gostaria de ficar no país para sempre e até aprender português. O Brasil é o único país da América Latina cuja língua oficial é o português, mas, isso não foi um obstáculo para o cantor. Durante o show, a abertura contou com trechos em português e outros momentos foram traduzidos para o público, além de o próprio Benito se arriscar a falar algumas palavras no idioma. Ao longo das duas noites, ele deixou claro o respeito e a admiração que sente pelo público brasileiro e afirmou em entrevista que se apresentar aqui era um sonho antigo.
Assim, o Brasil acabou encerrando com chave de ouro a passagem de Bad Bunny pela América Latina, com noites marcadas por entusiasmo e pela confirmação de algo que talvez ainda fosse dúvida para alguns: sim, ele tem fãs e é, de fato, um fenômeno também por aqui.

E, em meio às canções que celebram cultura, identidade e perreo, surge também o momento mais marcante do álbum. Nos versos finais de Bad Bunny, que aparecem na faixa mais conhecida e que dá nome ao disco, DtMf, e que também é um dos momentos derradeiros do show, o artista canta: “Eu devia ter tirado mais fotos quando tinha você/Eu devia ter te dado mais beijos e abraços quando pude”. Durante essa parte da apresentação, ele pede que o público guarde o celular e simplesmente viva aquele instante, registrando-o apenas na própria memória, já que momentos assim não voltam. É nesse instante que todo o sentido do trabalho se revela.
Benito Antonio Martinez Ocasio entregou seu álbum mais verdadeiro e emblemático, e o sucesso estrondoso que o acompanha parece quase um efeito colateral, do Grammy ao Super Bowl aos shows em solo brasileiro. No fim das contas, ele apenas fez exatamente aquilo que queria e que o representa: raízes, memória e muito perreo.


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