Quando as luzes do palco Budweiser se dissiparam e deram lugar à introdução do show mais aguardado da sexta-feira de Lollapalooza, olhos brilharam, ouvidos cresceram e bocas ficaram estateladas. Em vídeo pré-gravado, Sabrina Carpenter surgiu no papel de âncora de telejornal saudando São Paulo e pedindo caipirinhas — aquela mistura de ar retrô e ironia jovial que transborda de seus 1,52m de altura. Segundos depois, ela invadia o palco em pessoa e todos os sentidos dos espectadores se voltavam para a viagem mais doce e carismática do pop atual.
Em sua quarta passagem pelo Brasil, Carpenter finalmente atingiu o status que sempre mereceu: o de uma estrela ímpar em ascensão. Anteriormente convidada a abrir turnês de Ariana Grande (2017) e Taylor Swift (2023), ou a tocar para plateias menores nos primeiros horários do MITA Festival, a estadunidense agora retorna com hits martelados no coração de multidões, quatro Grammys na estante e uma persona consolidada especialmente pela ousadia nas composições. Não à toa, ela comandou o único dia com ingressos esgotados do evento, apresentando-se para mais de 100 mil fãs.

O tom animado e teatral abraçou a noite logo na tríade que iniciou o espetáculo: Busy Woman, na qual a loirinha assume que o homem que não a deseja é gay; Taste, uma carta aberta e afiada à próxima amante de seu ex; e Good Graces, em que dita as regras para continuar gostando do que vê no pretendente. Passeando por escadarias e esbanjando caretas, Sabrina parecia saborear a paixão do Brasil por seu repertório antes mesmo de testar conversas em português.
A pérola seguinte, Slim Pickins, veio com uma dedicatória que provocou alvoroço nos presentes. “Não vou mentir, já estive aqui uma ou duas vezes, e vocês são um dos melhores públicos do mundo. Acho que este vai ser um dos melhores que já tivemos [na carreira]”, declarou a artista. Minutos mais tarde, ela admitiu ser apaixonada por brigadeiro e se divertiu com os gritos de “gostosa” reverberados a plenos pulmões pela audiência.
Para além da estrutura completa (transportada por toda a América Latina), de diversos dançarinos, da troca de figurinos e dos movimentos de câmera para os telões, o apelo de diva podia ser sentido até em terra firme. Cada metro quadrado do Autódromo de Interlagos foi tomado por corsets decorados com fitas, botas de cano alto, maquiagens rosadas e tatuagens temporárias que remetiam à estética soft glam da cantora. De crianças a adultos, da grade ao indivíduo mais afastado do gramado, a redenção foi geral — sobretudo na hora de cantar às ofensas destinadas ao muso inspirador de Manchild. O chão tremeu ao som de “estúpido, lento, inútil…crianção”!
A catarse atingiu níveis ainda mais intensos durante a performance das canções de emails i can’t send restantes na setlist, disco responsável por começar a render os primeiros sucessos mundiais de Carpenter. Enquanto a favorita Nonsense foi oficialmente cortada, because i liked a boy e Feather ecoaram pelos quatro cantos do recinto como vestígios de uma época em que já se vislumbrava o potencial de contagiar coros da americana.
Parte dessa mágica também diz respeito às produções pré-filmadas que salpicam a atmosfera vintage do show, fazendo referência a músicas não apresentadas ao vivo pelo tempo apertado ou criando brincadeiras que inserem os fãs no universo desenvolvido para ser a “casa” de Sabrina. Tudo é muito visual e embalado no calor do momento, tornando a percepção de detalhes uma tarefa preciosa e contínua, quase como se estivéssemos em um programa de televisão antigo.

De volta ao hoje, assistimos um caldeirão de faixas do aclamado Short ‘n Sweet dividir espaço com recortes escolhidos a dedo de Man’s Best Friend, último lançamento da cantora nas plataformas digitais. Podemos dizer que o dance break de Tears coloriu o mais borocoxô dos espíritos e a sequência de leques sendo batidos no ritmo da ponte de Nobody’s Son refrescou uma imensidão de pecados.
Como boa dominadora dos holofotes, Carpenter aproveitou os estímulos do tablado para maximizar seu discurso artístico, gesticulando através das luzes e harmonizando com o cenário. Nesse sentido, os delírios sensuais de Bed Chem e a aparição de uma bandeira verde-amarela em Juno mostram que ela não apenas fala sobre sexo, como também está disposta a testar os limites da liberdade feminina em linhas implícitas e gerais.
Mas o ápice ainda estava por vir. Sentada à beira do palco, Sabrina relembrou o sabor agridoce que o fim das experiências de vida deixam em nós, convidando para o banquete de emoções que é a balada Don’t Smile. Na sequência, o clima voltou às alturas, com direito a fogos de artifício para o encerramento caloroso de Espresso.
A chuva não se atreveu a descer do céu para atrapalhar nenhum momento. Talvez também por isso, após a despedida, a ficha demorou a cair. Foi difícil sentir o papel picado caindo e entender que aquela fantasia tinha acabado. Como já fizemos tantas vezes, nos restou sacudir a poeira e voltar a aguardar pela loirinha em nossas terras. Que seja em breve.


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