Chappell Roan no Lollapalooza: ela dá conta do recado

Cantora escolheu o Brasil para encerrar segunda turnê da carreira

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Horas antes de subir ao palco do Lollapalooza para seu primeiro show no Brasil, Chappell Roan foi jogada para o centro de uma polêmica. A artista não foge de briga, mas a primeira resposta veio no palco: foi só as luzes do castelo começarem a piscar que os milhares de fãs presentes no palco Budweiser estavam completamente entregues.

No gramado do Autódromo de Interlagos, o tal exposed virou piada, com direto a gritos de Foda-se o Flamengo – afinal, não é a primeira vez que Chappell é vilanizada apenas por impor limites entre sua vida pessoal e a persona pública. E bastaram as primeiras palavras de Super Graphic Ultra Modern Girl começarem para provar que, fora das redes sociais, a história é outra.

A abertura já ditou o tom do show: a banda aqueceu a multidão com uma introdução marcada por arranjos de guitarra e baixo, criando a tensão para a primeira aparição de Chappell Roan em terras brasileiras. Foi quando ela, toda vestida em verde, com direito a uma coroa à la Malévola, surge no palco: “You know what they say, never waste a Friday night on a first date”. 

Dias depois do show, segurança envolvido na polêmica com Chappell Roan revelou não fazer parte da equipe da cantora (Foto: Multishow)

Daí em diante, a euforia não parou mais. O show, o principal da noite de sábado no Lollapalooza e o encerramento da turnê Visions of Damsels & Other Dangerous Things, mesclou canções animadas e tristes da cantora. Todas – até as menos viralizadas – viraram hits na boca do público, que berrou cada refrão, ponte e interação a plenos pulmões. 

Quando a americana questionava se os homens davam conta do recado, a plateia respondia: “não!”. E quando cantava sobre sentir o cheiro do perfume da ex, era acompanhada por um coro de vozes gritando foda-se essa cidade!.

Um dos auges da apresentação foi HOT TO GO!, que fez o Autódromo inteiro largar o celular e dançar, em um mar de mãos para o alto. Já as melancólicas, como Picture You e Coffee, vieram acompanhadas das lanternas do celular ligadas – movimento que ganhou elogios até da própria Chappell Roan.

Além das canções autorais, Chappell Roan entregou um cover potente de Barracuda, da dupla de rockeiras Heart, dos anos 1970 (Foto: Vitória Gomez)

Ela, inclusive, estava visivelmente encantada com o público. A headliner agradeceu os fãs em mais de uma oportunidade, contou que assistiu ao show da Lady Gaga no Rio de Janeiro e que vê os comentários de “come to Brazil”, pediu para ver os leques batendo, deu risada ao som do coro “gays gays gays” vindo da plateia e enalteceu as drags queens brasileiras. 

A imagem de artista rabugenta só se sustenta para quem não acompanha o trabalho da cantora. Ou, claro, para quem se incomoda justamente com tudo que ela é e defende dentro e fora dos palcos.

Injustiça! Guilty Pleasure ficou de fora de setlist do Lollapalooza (Foto: Multishow)

Voltando aos palcos, se o primeiro álbum de Chappell Roan, The Rise and Fall of a Midwest Princess, foi marcado pelas vertentes do pop, os arranjos ao vivo trouxeram uma pegada rock. O resultado? A artista se impôs como uma verdadeira estrela, com performances feita para as multidões. 

A maquiagem colorida, o figurino brilhante (que, para a sorte das fãs, foi ficando cada vez menor ao longo da apresentação), o cenário do castelo com dragões voando ao redor e os malabarismos de pirotecnia trouxeram o mundo de Chappell para o gramado do Lollapalooza.

A cantora, que ficou conhecida também por suas performances e maquiagens inspiradas em drag queens, imprimiu seu aspecto teatral e extravagante sem nunca deixar nada parecer artificial ou exagerado. Até a peruca verde pendurada no microfone arrancou lágrimas de quem nunca teve uma ex-namorada de cabelos pintados – mas já sentiu uma dor parecida.

Inclusive, apesar de mostrar no palco que é digna de ser headliner do festival, o espetáculo de Chappell Roan começou bem antes das 21h30. Da estação Autódromo ao palco Budweiser, o que se viu foi um espaço de expressão. Chapéus de cowboy rosa, maquiagens e roupas coloridas, bandeirões e leques com as cores da bandeira lésbica foram vestidos e carregados com orgulho, sem medo de serem caçoados por quem observava de fora.

Ainda é difícil descrever a sensação de presenciar uma artista assumidamente lésbica cantando explicitamente sobre vivências tão comuns à nossa comunidade, sem pudores e sem esconder pronomes femininos. E melhor ainda: olhar para o lado e ver tantas outras pessoas sentindo os mesmos sentimentos, porque também já tiveram experiências parecidas. 

De sofrer nas escadas do metrô pela ex que foi embora, viver um lance casual no banco de passageiro do carro ou terminar tudo numa terça-feira qualquer, Chappell fez tudo ser sobre pertencimento. Das 85 mil pessoas presentes no sábado do Lollapalooza, boa parte se viu – talvez pela primeira vez – representada plenamente e sem medo em cima do palco.

A catarse de vez veio na reta final. Ao som de Pink Pony Club, a cantora celebrou a coragem de decepcionar as expectativas em nome de abraçar a própria identidade. E o público respondeu à altura.

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