Há certa perversão na revisita de tantos filmes adormecidos de Hollywood. Sejam após uma, duas ou até três décadas. O Anaconda original de 1997, dirigido por Luis Llosa, nunca aspirou à grandeza, é um filme B de monstro com orçamento de estúdio, salvo do esquecimento por um elenco carismático e por efeitos animatrônicos que marcam a comédia involuntária.
Anaconda (2025) não tenta ser um filme de terror, ele é um comentário sobre o gênero, reboots e a crise existencial de seus criadores. Sob a direção de Tom Gormican, o filme sabe que não deveria existir e satiriza sua própria existência bizarra e brilhante que abandona a pretensão de susto genuíno para abraçar a comédia de amigos em crise de meia-idade.

Para entender a grandiosidade que estamos lidando, vamos por partes e por camadas. Temos a premissa principal de personagens tentando refazer o filme de 1997 dentro do filme de 2025. Ok, até aqui.
A partir daí, somos apresentados as discussões de direitos autorais e a diferença entre um reboot e uma requel, que muito provavelmente acontecem nos escritórios da Sony Pictures. Agora, em segundo plano, nossos quatro amigos encontram uma outra equipe de filmagem da Sony, que fariam um reboot oficial de Anaconda, caso não tivessem sido comidos por ela.
Por fim, nesse multiverso de Hollywood, além de encontrarmos Ice Cube como Ice Cube e não Danny Rich, seu personagem do filme de 1997, a própria obra nos indica que no final, quer que o personagem de Jack Black faça um reboot oficial de Anaconda, que provavelmente é o filme que estamos assistindo na nossa realidade. Conseguiram acompanhar?

Diferente de Jurassic World: Recomeço (2025), que tenta recapturar a maravilha, ou de Halloween (2018), que busca o trauma, Anaconda quer a piada. O roteiro, co-escrito por Gormican e Kevin Etten, transforma Jack Black, Selton Mello e Paul Rudd em avatares da indústria. São homens que cresceram amando o cinema e que agora, confrontados com a mediocridade de suas vidas adultas, tentam recapturar a magia da juventude refazendo o filme que marcou suas adolescências.
Sob a direção de fotografia de Nigel Bluck, o tom saturado que homenageia os filmes de aventura das décadas de 80 e 90, e cria um senso de escala que muitas vezes falta ao gênero. As árvores imensas, a luz filtrada pelas copas e a escuridão da noite estão em harmonia com a profundidade do cenário e também nos lembram da paixão do cinema por selvas e ambientes inóspitos. E isso é majestoso ao criar uma perfeita desarmonia na estranheza do filme.
A produção, orçada em 45 milhões de dólares, situa-se num ponto em que há dinheiro suficiente para efeitos visuais competentes, mas não o bastante para polir todos os cantos, servindo muito bem à estética, ainda que não proposital. Ao mesmo tempo, a produção do filme espelha a ficção ao colocar um grupo de americanos deslocados em um ambiente hostil, tentando fazer a magia do cinema e borrando ainda mais a linha entre ator e personagem.

Ao final, Anaconda revela um exemplo magnífico sobre o Cinema sobre Cinema em seu estado mais puro e despretensioso. Ele não faz mais ou menos do que celebrar uma memória afetiva de ir ao cinema com amigos para rir, levar alguns sustos e comer pipoca.
Ele não vai e não quer reescrever a história da Arte, mas felizmente também não é um caça-níquel cínico que tem ocupado 5 de 6 salas em exibição. Se o cinema moderno muitas vezes parece um ciclo infinito de repetições, Anaconda pelo menos tem a decência de admitir que é uma cobra devorando o próprio rabo.


Deixe um comentário